Calço os tênis
pensando no dia quente e no sol que brilha lá fora.
Após sair de casa
vou descendo a rua que conheço tão bem como meu próprio quintal.
Gosto de caminhar
pelas ruas do bairro, sempre ligado no som dos fones ouvido, com passos rápidos
e pensando nas tarefas que farei quando retornar.
Mas hoje não.
Hoje por alguma
razão, nostalgia, angustia, admiração... Resolvi desacelerar o passo, baixar o
volume da música no fone, olhar mais para os lados e menos para o chão como de
costume e apreciar essas ruas e lugares que conheço tão bem desde minha infância.
O mercado que já
mudou de nome varias vezes, mas minha avó insiste em chamar sempre pelo nome
antigo. A farmácia que está no lugar do que um dia foi a única padaria do bairro
e a referência para as linhas de ônibus.
Cada de um de nós
tem uma história de vida.
Coisas e lugares
também.
Talvez não
saibamos a história de algo corriqueiro como um comércio ou uma banca de jornal
como acontece com museus e lugares renomados. Mas esses pequenos locais são tão
significativos quanto museus. Pois eles guardam um pouco de nós, fragmentos de
nossa história ficam impregnados nas paredes de padarias, mercados, aquela
garagem em que você ou eu comprávamos doce de um senhor simpático com cara de avô.
Como pequenos museus com um acervo invisível de lembranças que estão um pouco
ali e um pouco em nós.
Caminhando sigo
olhando para a paisagem e notando como o tempo age sobre tudo.
Lugares que eram referência
local na minha infância agora só existem na memória.
Gente conhecida se
foi, gente nova chegou.
Algumas coisas não
mudam nunca, como o boteco do seu qualquer coisa.
Uma nova praça
surgiu.
Uma praça velha se
foi.
Uma praça velha
agora está com cara de nova.
Aquele prédio que
eu ficava olhando da sala de aula da escola nos momentos de tédio já não existe
mais.
Aliás, até a
escola mesmo sendo a mesma, não é mais a mesma. Pelo menos para mim.
Horas, dias e
talvez anos da minha vida estão impregnados naquelas paredes como as histórias
de tantos outros. Esquecidas, soterradas sobre camadas de tinta ou nas letras
rabiscadas com corretivo em uma carteira velha.
A rua da fábrica
abandonada pra onde a gente ia pra “ficar”.
A fábrica deu
lugar aos fundos de uma filial de igreja.
Dobro uma.
Duas esquinas.
Meu caminho muda para
a direção de volta para casa.
Passo por outras
ruas.
Vejo a casa de um amigo
dos tempos escolares.
Será que ele ainda
mora lá?
Não me arrisco a
descobrir.
O tempo e a distância
muda a pessoas.
Muda os
interesses, os gostos, o assunto acaba, a conversa é relembrando os velhos
tempos.
Combinamos um encontro
que dificilmente vai acontecer.
Ou passamos uns
pelos outros na rua fingindo que não nos conhecemos.
Passo pela rua da
igreja que frequentei por um tempo.
Uma rua cheia de
velhas arvores que me viram crescer e continuam tão grandes como sempre foram.
As coisas estão
diferentes, mas essas ruas me são tão familiares.
Dobro uma esquina.
Duas.
Chego a rua de
casa.
Passo pelos
botecos, lojinhas que já mudaram de nome e dono uma dúzia de vezes.
Enfim casa.
De volta ao
presente.