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segunda-feira, 28 de maio de 2018

A caminhada


 Calço os tênis pensando no dia quente e no sol que brilha lá fora.
 Após sair de casa vou descendo a rua que conheço tão bem como meu próprio quintal.
 Gosto de caminhar pelas ruas do bairro, sempre ligado no som dos fones ouvido, com passos rápidos e pensando nas tarefas que farei quando retornar.
 Mas hoje não.
 Hoje por alguma razão, nostalgia, angustia, admiração... Resolvi desacelerar o passo, baixar o volume da música no fone, olhar mais para os lados e menos para o chão como de costume e apreciar essas ruas e lugares que conheço tão bem desde minha infância.
 O mercado que já mudou de nome varias vezes, mas minha avó insiste em chamar sempre pelo nome antigo. A farmácia que está no lugar do que um dia foi a única padaria do bairro e a referência para as linhas de ônibus.
 Cada de um de nós tem uma história de vida.
 Coisas e lugares também.
 Talvez não saibamos a história de algo corriqueiro como um comércio ou uma banca de jornal como acontece com museus e lugares renomados. Mas esses pequenos locais são tão significativos quanto museus. Pois eles guardam um pouco de nós, fragmentos de nossa história ficam impregnados nas paredes de padarias, mercados, aquela garagem em que você ou eu comprávamos doce de um senhor simpático com cara de avô. Como pequenos museus com um acervo invisível de lembranças que estão um pouco ali e um pouco em nós.
 Caminhando sigo olhando para a paisagem e notando como o tempo age sobre tudo.
 Lugares que eram referência local na minha infância agora só existem na memória.
 Gente conhecida se foi, gente nova chegou.
 Algumas coisas não mudam nunca, como o boteco do seu qualquer coisa.
 Uma nova praça surgiu.
 Uma praça velha se foi.
 Uma praça velha agora está com cara de nova.
 Aquele prédio que eu ficava olhando da sala de aula da escola nos momentos de tédio já não existe mais.
 Aliás, até a escola mesmo sendo a mesma, não é mais a mesma. Pelo menos para mim.
 Horas, dias e talvez anos da minha vida estão impregnados naquelas paredes como as histórias de tantos outros. Esquecidas, soterradas sobre camadas de tinta ou nas letras rabiscadas com corretivo em uma carteira velha.
 A rua da fábrica abandonada pra onde a gente ia pra “ficar”.
 A fábrica deu lugar aos fundos de uma filial de igreja.
 Dobro uma.
 Duas esquinas.
 Meu caminho muda para a direção de volta para casa.
 Passo por outras ruas.
 Vejo a casa de um amigo dos tempos escolares.
 Será que ele ainda mora lá?
 Não me arrisco a descobrir.
 O tempo e a distância muda a pessoas.
 Muda os interesses, os gostos, o assunto acaba, a conversa é relembrando os velhos tempos.
 Combinamos um encontro que dificilmente vai acontecer.
 Ou passamos uns pelos outros na rua fingindo que não nos conhecemos.
 Passo pela rua da igreja que frequentei por um tempo.
 Uma rua cheia de velhas arvores que me viram crescer e continuam tão grandes como sempre foram.
 As coisas estão diferentes, mas essas ruas me são tão familiares.
 Dobro uma esquina.
 Duas.
 Chego a rua de casa.
 Passo pelos botecos, lojinhas que já mudaram de nome e dono uma dúzia de vezes.
 Enfim casa.
 De volta ao presente.