O sol nem saiu ainda
e os caminhões mercedez carregados de caixotes começam a chegar com seu ronco
rompendo o silencio da madrugada.
Então sol nasce e
aquece a manhã de domingo.
Aos poucos as pessoas
despertam.
Celso como todos os
domingos de manhã pega a sacola e vai a feira cumprir seu ritual, comprar
frutas, verduras e depois tomar um suculento caldo de cana.
- Mas que laranja
doce!
- Olha essa melancia!
Dentre os gritos dos
feirantes ele vai enchendo a sacola.
Já com a sacola cheia
ele sobe a rua.
A japonesa do caldo
de cana o recebe com a simpatia de sempre.
- Bom dia, com
limão, puro ou abacaxi?
- Bom dia, me vê um grande, puro.
Apreciava cada gota
do doce néctar com satisfação até que o copo ficou vazio.
Empunhou sua sacola e
foi para casa.
...
Durante o almoço
Celso passava a mão na barba cerrada constantemente enquanto olhava para o
nada. Parecia agoniado.
- Ta tudo bem Celso? – Indagou Silvana, sua mulher.
- Hum? Sim, sim.
Sua barba coçava mais
que o normal.
- Seu rosto ta
vermelho... Ta com alguma alergia?
- Deve ser essa barba
ta coçando feito sarna.
- Também, você faz de qualquer jeito, não passa nem um creme
de vez em quando.
A mulher odiava
aquela cara áspera arranhando ela na hora dos beijos e das caricias, e vendo
uma boa oportunidade não hesitou.
- Sabe amor, porque
você não tira essa barba... E aí eu te dou um presentinho em troca... – Disse
lançando um olhar e um sorriso que davam muito bem a entender o que seria o “presentinho”.
Celso se animou,
afinal fazia tempo que a patroa andava meio distante.
E mais tarde depois
do almoço, os dois estavam sozinhos em casa assistindo filme ruim na
televisão...
- Amor vou tomar um
banho. – Disse se espreguiçando.
- Vai lá, ursão. –
Retrucou ela em tom de brincadeira e dando um tapa na bunda dele. – Se você se
comportar bem eu posso até interromper você.
- Nossa, como eu ia
ficar chateado. – Ele respondeu de forma irônica.
Os dois riram.
Essa era a deixa, ele
correu animado para o banheiro já pensando todo o tipo de sacanagem, até que
adentrou e se deparou com o espelho.
Ficou olhando uns
bons segundos admirando sua característica barba. Se sentia incomodado com a
coceira, mas outra sensação também tomou conta dele naquele momento, uma
repentina aversão a pelos. Abriu o armarinho do banheiro pegou o barbeador e
com um sorriso no rosto espalhou creme de barbear pela cara.
Cada passada do
barbeador no rosto lhe dava um alivio sem tamanho por estar se livrando dos
pelos na cara.
Quando terminou seu
rosto estava liso como bumbum de nenê. Mas algo ainda lhe incomodava. Seus
cabelos castanhos e crespos que cobriam sua cabeça.
Recobriu a cabeça com
espuma e em algumas passadas estava careca como o Lex Luthor.
Estava aliviado, mas
ainda não se dava por satisfeito.
Seu peitoral também
era recoberto de pelo como um casaco felpudo. Se ensaboou e se depilou com a
maior felicidade do mundo como nunca se vira naquele homem.
E assim se sucederam
as costas, as pernas e todo o resto até finalizar com os cílios que ele
arrancou um por um com uma pinça da esposa.
Terminado o filme, a
mulher se levantou e resolveu conferir se o marido ainda estava na ducha.
Quando chegou na
porta do banheiro se deparou com Celso nu, com sangue escorrendo dos cortes
pelo corpo todo, completamente despelado e com um sorriso digno de ganhador de
loteria na cara.
- Celso!
Que...Que...Que MERDA É ESSA!?
Ele olhou para ela
por alguns segundo em silencio e sorrindo mostrou o barbeador em punho.
- Você vai ficar
linda!
Avançou para cima da
mulher que gritou em pânico.
Horas depois a
policia chamada pelos vizinhos arromba a casa e a encontra Silvana desacordada
com um machucado na cabeça da pancada, completamente nua e despelada.
Seu cabelos lisos e
pretos se foram.
Tempos depois ela
descobriria que eles nunca mais cresceriam, bem como o resto dos pelos de seu
corpo.
Celso está foragido
até hoje.
...
Porém existem varias
lendas de um sujeito despelado que anda por aí atacando qualquer ser vivo e arrancando-lhe
os pelos... Para sempre.
O que explica a
calvície de muitos homens.
Alguns o chamam de o
despelador.
Mas o que poucos
sabem, é que acausa da desgraça desse sujeito foi caldo de cana contaminado com
um vírus raro que é transmitido pelas fezes do terrível besouro barbeiro.
Se ele soubesse que o
limão é um truque antigo para acabar com esse vírus nunca teria tomado caldo de
cana puro.
- E é por isso hoje
eu vou ficar só no pastel – disse Valdir Pereira – Enchendo o pastel com
vinagrete.
Sem se dar conta que
aquilo também era um veneno.