"

domingo, 10 de junho de 2018

Ao amor


Ao amor

Ao amor
Ao amor pelo outro
Ao amor pela mãe
Ao amor pelo pai
Ao amor pela coxinha
Cafézinho
Ou qualquer outra “comidinha”

Ao amor pelo gato
Cachorro
Tartaruga
Ao amor pelo passarinho

Ao amor pelo dia ensolarado
Ao amor pelas cobertas
No dia nublado
Chuvoso

Ao amor

Ao amor pelos filhos
Pelos amigos

Ao amor do perdão
Ao amor das brigas
E reconciliações

Ao amor

Ao amor pelo conhecimento
Ao amor pela ignorância
Ao amor pelo fim do dia
Ao amor pelo começo
do próximo

Ao amor

segunda-feira, 28 de maio de 2018

A caminhada


 Calço os tênis pensando no dia quente e no sol que brilha lá fora.
 Após sair de casa vou descendo a rua que conheço tão bem como meu próprio quintal.
 Gosto de caminhar pelas ruas do bairro, sempre ligado no som dos fones ouvido, com passos rápidos e pensando nas tarefas que farei quando retornar.
 Mas hoje não.
 Hoje por alguma razão, nostalgia, angustia, admiração... Resolvi desacelerar o passo, baixar o volume da música no fone, olhar mais para os lados e menos para o chão como de costume e apreciar essas ruas e lugares que conheço tão bem desde minha infância.
 O mercado que já mudou de nome varias vezes, mas minha avó insiste em chamar sempre pelo nome antigo. A farmácia que está no lugar do que um dia foi a única padaria do bairro e a referência para as linhas de ônibus.
 Cada de um de nós tem uma história de vida.
 Coisas e lugares também.
 Talvez não saibamos a história de algo corriqueiro como um comércio ou uma banca de jornal como acontece com museus e lugares renomados. Mas esses pequenos locais são tão significativos quanto museus. Pois eles guardam um pouco de nós, fragmentos de nossa história ficam impregnados nas paredes de padarias, mercados, aquela garagem em que você ou eu comprávamos doce de um senhor simpático com cara de avô. Como pequenos museus com um acervo invisível de lembranças que estão um pouco ali e um pouco em nós.
 Caminhando sigo olhando para a paisagem e notando como o tempo age sobre tudo.
 Lugares que eram referência local na minha infância agora só existem na memória.
 Gente conhecida se foi, gente nova chegou.
 Algumas coisas não mudam nunca, como o boteco do seu qualquer coisa.
 Uma nova praça surgiu.
 Uma praça velha se foi.
 Uma praça velha agora está com cara de nova.
 Aquele prédio que eu ficava olhando da sala de aula da escola nos momentos de tédio já não existe mais.
 Aliás, até a escola mesmo sendo a mesma, não é mais a mesma. Pelo menos para mim.
 Horas, dias e talvez anos da minha vida estão impregnados naquelas paredes como as histórias de tantos outros. Esquecidas, soterradas sobre camadas de tinta ou nas letras rabiscadas com corretivo em uma carteira velha.
 A rua da fábrica abandonada pra onde a gente ia pra “ficar”.
 A fábrica deu lugar aos fundos de uma filial de igreja.
 Dobro uma.
 Duas esquinas.
 Meu caminho muda para a direção de volta para casa.
 Passo por outras ruas.
 Vejo a casa de um amigo dos tempos escolares.
 Será que ele ainda mora lá?
 Não me arrisco a descobrir.
 O tempo e a distância muda a pessoas.
 Muda os interesses, os gostos, o assunto acaba, a conversa é relembrando os velhos tempos.
 Combinamos um encontro que dificilmente vai acontecer.
 Ou passamos uns pelos outros na rua fingindo que não nos conhecemos.
 Passo pela rua da igreja que frequentei por um tempo.
 Uma rua cheia de velhas arvores que me viram crescer e continuam tão grandes como sempre foram.
 As coisas estão diferentes, mas essas ruas me são tão familiares.
 Dobro uma esquina.
 Duas.
 Chego a rua de casa.
 Passo pelos botecos, lojinhas que já mudaram de nome e dono uma dúzia de vezes.
 Enfim casa.
 De volta ao presente.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Aos meus amigos


 Aos que se foram
 Aos que virão
 Aos que não verei
 Aos que reencontrarei
 Aos que vejo sempre
 Aos que não vejo mais

 Se eu pudesse
 daria um abraço em cada um

 Diria como vocês são importantes
 E como os carrego comigo nas lembranças

 Eu sei
 A vida nos levou para caminhos distintos

 Ou fui eu,
 ou foi você quem escolheu seguir por outra estrada

 Tudo bem

 Isso é normal

 Somos como trens

 Mesmo lado a lado
 Todos andam em seus próprios trilhos

 O tempo que passamos

 As lembranças que criamos

 Estarão sempre guardadas no baú da memória
 Esquecidas em algum vagão
 Empoeiradas
 Desgastadas pelo tempo
 Perdendo o brilho dia após dia 
 Esperando ser lembradas
 Como uma caixa de sapatos velha, cheia de recordações

 Talvez quando estivermos lá na frente nós as recordaremos
 Com ternura
 Mágoa
 Tristeza
 Saudade...

 Mas nesse universo infinito
 Bilhões de galáxias
 Incontáveis estrelas
 Sobre um pedaço de pedra onde sabe-se lá como a vida surgiu
 Eu e você nos encontramos

 Se teve razão ou se foi mero acaso,
 Não vem ao caso

 Foi bom

 Aprendemos com isso

 Eu levo um pouco de você
 E você
 Espero
 Um pouco de mim

 E como em uma enorme galáxia cheia de estrelas coleciono pedacinhos de todos dentro de mim
 E como areia deixo grãos de mim espalhados por onde passo

 Dentro de cada um de vocês



 Meus amigos

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Cúmplices

Somos cúmplices.
Bandidos.
Cometemos o crime de nascer!

E desde então, nos perseguem.

Tudo vai contra.
A terra é árida.
A tempestade não cessa.
Mas juntos.

Eu e você... Seguimos.
Eles nos pegam.
Escapamos.
Somos presos de novo.
Algemados, de mãos dadas.
Livres, nos prendemos... Nos abraços.
Somos cúmplices.
De um crime hediondo!

Se não é, porque nos perseguem?
Porque não nos querem?
Porque nos prendem?
Porque não nos permitem?

Sem baixar a cabeça.
Sem sermos pegos.
Presos...
Livres...
Juntos!

Eu e você.

Minha cúmplice...

Minha alma, bandida!
Minha cúmplice... Nesse crime hediondo...
Que vinte vezes se fosse preciso eu cometeria, para estar vivo!
Estar com você.

Pagando a pena máxima.
Condenado a morte.

Para estar vivo!

terça-feira, 26 de setembro de 2017

A morte da barata

 Cansada da vida a Barata resolve se matar.

 A barata pulou do décimo andar de um prédio e de tão leve o vento a carregou e ela caiu do outro lado da rua sobre as patas suavemente.

 Comeu tudo que viu pela frente na esperança de que um alimento envenenado lhe desse fim a existência.
 Seu organismo resistente digeriu de pasta de dente até a carne podre do cadáver mais nojento que você pode imaginar.
 E isso a fez ainda mais resistente.

 E por falar em resistência, a barata resolveu que a saída mais simples era tomar veneno puro direto da lata de spray e assim o fez.

 Seu DNA de mais de 100 milhões de anos evitou a contaminação.

 Ela se viu imune a morte certa.

 Uma chinelada seria a solução!
 Mas quem lhe daria a chinelada fatal?
 Humanos por sobre a terra neste momento não mais caminham...
 A barata deitou-se ao sol do meio dia tão quente como no deserto.
 Se jogou na água contaminada do bueiro mais fétido que encontrou.
 Mas nada disso deu certo.

 A Barata é imune a tudo.

 E que tal virar comida de lagartixa? – Pensou.
 Lagartixas por sobre a terra e muito menos nas paredes existem neste momento

 Então a barata saiu a caminhar em direção ao horizonte.
 Viu terras tão desertas e distantes onde nenhuma barata jamais pisou, isso que as baratas estão em todos os lugares!

 Todos os lugares? Será mesmo?

 Não existem baratas na Antártida. – Pensou.

 Se bem que a essa altura não existem baratas em lugar algum.

 Além dela obviamente.
 Pois a barata é a última coisa viva a caminhar sobre a terra neste momento.

 E ironicamente ela procura a morte.

 Mas nem a morte mais vive para ceifar a alma da pobre barata que ao tentar grudar em uma parede erra a manobra e cai de barriga para cima.


 Triste fim para a Barata.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Valdir Pereira desce ao inferno

  Uma manhã de quarta feira comum em Americanópolis, os feirantes chegaram cedo e já montaram suas barracas na rua de baixo. Um caminhão de gás desce as ladeiras tocando sua música insuportável anunciando promoção de gás. Os meninos batem bola no portão do seu Isaias e os pinguços já estão conversando animadamente no bar... isso que não passam de nove horas da manhã.
 Valdir Pereira quer apenas passar um café quente para animar sua manhã e com esse pensamento em mente adentra a cozinha de sua minúscula casa depois de realizar seu ritual de purificação da alma de todos os dias.
 Ou sua cagada matinal para os leigos.
 O fogão não acende.
 Até aí nada demais, no pior dos casos o gás acabou... Mas não na casa do mago, caçador de diabos e lendas urbanas Valdir Pereira. – Pensou Valdir Pereira.
 E eu poderia parar de pensar dessa forma tão cheia de mistério e com essa voz de narrador de conto de terror... – Também pensou Valdir Pereira.
 Se não sabem, saibam que caçador de lendas urbanas não é um emprego muito bem remunerado, por isso os caçadores têm que se virar como podem para pagar as contas e no caso de nosso amigo um botijão mágico com gás que nunca acaba seria uma ótima saída para não precisar gastar com botijões de gás convencionais... Caso não houvessem roubado o dele durante a madrugada. Coisa que ele constatou logo que saiu no quintal e viu que o cadeado da casinha do gás se fora.
 Então porque ele não colocou um cadeado mágico a prova de roubos você pode estar se perguntando?
 Para não dar na vista, responderia Valdir Pereira.
 Afinal descrição é uma das habilidades de um sujeito como ele.
 E artefatos mágicos custam uma grana preta se vocês não sabem.
 E falando em artefato mágico, o botijão de gás infinito foi dado a Valdir Pereira por um gênio de garrafa que estava aprisionado em uma garrafa de guaraná num boteco.
 E como o gênio foi parar lá?
 Bem, ele estava andando na rua e parou no referido boteco para se refrescar com uma guaraná gelada pois o dia estava absurdamente quente, só que ele se esqueceu do procedimento padrão entre os gênios que é de não tomar bebidas engarrafadas direto no gargalo, e sim usar um canudinho para não ser sugado garrafa a dentro.
 Não por isso esse foi sugado para dentro da garrafa que por sorte estava quase vazia.
 O dono do boteco vendo que o cliente em questão havia sumido no ar logo achou que o fosse caso de calote, mas quando viu o homenzinho dentro da garrafa achou o máximo e tratou logo de expor a garrafa com o homenzinho no balcão junto da gaiola do passarinho e ela virou atração para o povo da rua.
 Não fosse pela ação de Valdir Pereira que derrubou a garrafa acidentalmente tentando libertar o passarinho, ele estaria preso lá até hoje.
 Mas voltando a caso do roubo do botijão.
 Dando uma rápida volta pela vizinhança a caminho do mercado com ouvidos atentos Valdir Pereira ouviu comentários sobre a baixa no preço do gás e notou também que os caminhõezinhos de gás passavam com mais frequência naquele dia.
 - Só pode ter sido um diabo... – Murmurou Valdir Pereira consigo mesmo.
 Depois de comprar algumas coisinhas no mercado como gelatina em pó, suco de manga concentrado e um pacote de bolacha de agua e sal, Valdir Pereira voltou para casa pegou sua bolsa favorita e colocou dentro dela o livro que estava lendo, sua marmita forrada com uma bela feijoada e couve com farofa que sobrara da marmitex de ontem e uma garrafinha com suco de manga recém preparado, afinal é sempre bom estar preparado para qualquer imprevisto, afinal sua jornada podia levar o dia inteiro e almoçar na rua custa caro.
 Antes de sair pela porta da cozinha da uma última olhada para a mesa e vê a caixinha de gelatina em pó, a coloca na bolsa.
 Imprevistos meu amigo, imprevistos!
 Após andar algumas ruas, Valdir Pereira desce o escadão e adentra uma viela. Averigua se não tem ninguém vindo e com a agilidade de um gato salta o muro de uma casa.
 No quintal abre a portinha do abrigo do relógio de agua, e constata que lá dentro está apenas o relógio de agua, fecha a porta.
 Conta 5 segundos pronuncia uma senha em uma língua desconhecida por este que vos fala e ao abrir a porta novamente o que se vê é uma passagem escura e sombria, Valdir Pereira se esgueira pela portinha e adentra a passagem.
 Aaaaaaaaa!
 A portinha se fecha logo em seguida.
 Se arrastando por um labirinto de tuneis Valdir Pereira vai avançando até chegar a uma gruta enorme.
 Moscas do fogo com sua luz alaranjada voam para e para cá iluminando o local que como é no centro da terra não tem luz solar.
 Pelo chão se ve esqueletos humanos empilhados, ossos de dinossauros e até de outras criaturas desconhecidas pelo homem.
 Valdir Pereira chega até uma casinha de madeira a beira de um lago vulcânico. Bate três vezes na porta.
 - Quem ousa?
 - Sou eu, o Pererinha!
 A porta se abre rangendo... Nheeeec!
 Uma figura surge detrás da porta aberta.
 - Opa, e aí Valdir quanto tempo! – É o Gênio de garrafa.
 - Fala Luizinho.
 - O que te trás aqui nas profundezas da terra? Tá indo pro inferno é?
 - Então rapaz, eu to pensando em dar uma descida lá e já que tava passando...
 - Vixe, melhor voltar outro dia, feriado.
 - ?
 - No inferno. Tá fechado.
 - É? Não sabia que lá tinha feriado.
 - Pois é, o capeta saiu pra resolver uns assunto com uns grã-fino, gente graúda pelo que sei, político, empresário, gente de igreja... Aí os diabo fecharam as porta do inferno e decretaram feriado a semana toda. Mas quando o capeta voltar meu amigo... Ai ai... o pau vai cantar.
 - Ah, o que é um peido pra quem tá cagado... Né? Vão passar a eternidade toda no inferno memo. Um dia de folga que mal tem... Mas voltando ao começo da conversa, se não viu nenhum diabo passar aqui com aquele botijão de gás que tu me deu?
 - Xô pensar...

 - Rapaz não vi não... roubaram é?
 - Roubaram...
 - Ahhh.
 Os dois se olham por um momento, o gênio propõe.
 - Bom se você tiver interessado até posso te dar outro em troca da sua alma?
 - Tudo isso?
 - Então rapaz é que ali no inferno os cara troca numas parada maneira e tal... e eu não to afim de vender a minha. – Justifica o gênio com ar malandro.
 - Bom, eu tenho aqui suco de manga, gelatina de framboesa... – Diz Valdir Pereira remexendo na bolsa.
 - Opa, gelatina de framboesa é gostosa heim. Se eu tivesse uma geladeira pra gelar isso aí rapaz...
 - Huuum... Tu faz um bem bolado numa geladeira por um botijão daquele?
 - Demorou. Só não te dou de graça porque é só um desejo por pessoa e tal, sabe como são a regras né... tem uma geladeira aí nessa sua bolsa mágica?
 - É... Não.
 E a bolsa nem é mágica, só uso porque achei estilosa – Pensou Valdir Pereira.
- Então sem chance, Pereira. Mas se eu souber de alguma coisa te aviso. Teu celular é o mesmo?
 - É sim, vou subindo lá então, já que o inferno tá fechado não deve ter sido ninguém de lá não. A gente se fala.
 - Opa, tamos aí. Acho que o capeta volta hoje, se voltar eu te aviso.
 - Beleza.
 Valdir Pereira já se distanciando da casa pensa em descer até o inferno mesmo assim, porém a música do caminhãozinho de gás tocando lá longe, mesmo que abafada chama a atenção de Valdir Pereira.
 - É o quinto hoje. – Ele pensa.
 A portinha do abrigo de água se abre lentamente, pela fresta Valdir Pereira olha se não tem ninguém no quintal da casa que adentrou a pouco e para sua surpresa alguém passa. Como sua visão é limitada ele vê somente as pernas do sujeito, mas as calças amarelas não deixam dúvidas, são entregadores de gás.
 Valdir Pereira permanece em seu esconderijo e observa, o homem agora acompanhado de outro, descarregam o caminhãozinho trazendo botijões para dentro da casa e saindo com outros botijões.
  Se fosse um depósito de gás, uma padaria ou um restaurante tudo bem, mas que cidadão normal compraria tanto gás assim? Apesar de o preço estar realmente em conta – Ele constata isso pelo anuncio que o caminhãozinho faz nas pausas do jingle: esse é o gás, tá barato demais, a chama do seu fogão é mais quente com a vulcagás - Será que eles não têm noção do perigo que é armazenar tanto gás em casa? – Pensou Valdir Pereira.
 Os homens se vão e a dona da casa fecha o portão.
 Ao que tudo indica foi só uma venda de gás como qualquer outra. Mas 14 botijões? O que dona Irene estaria tramando? Um atentado contra a humanidade? Explodir caixas eletrônicos? Afinal a dinamite anda tão cara ultimamente que os mal feitores tem que recorrer a alternativas caseiras como biribinhas e outras ideias catastróficas como joelho de porco com repolho roxo cozido, a pior das armas químicas caseiras que já existiu.
 É sério, dia desses um mal feitor tentou assaltar uma agência bancária munido apenas de seu anus e os intestinos cheios de gás mortal, para a sorte de todos ele estava com prisão de ventre e não conseguiu disparar.
 Porem já na viatura ele se cagou todo.
 Os policiais que estavam como ele na viatura foram hospitalizados com intoxicação grave.
 O meliante morreu asfixiado na viatura, pois não conseguiu escapar.
 O botijão mágico teria que esperar, afinal temos um caso claro de terrorismo aqui! Ou alguém tem muitos bolos para assar... disse Valdir Pereira conversando baixinho consigo mesmo.
 Com a agilidade e destreza de um marginal Valdir Pereira se esgueirou pelo quintalzinho até o quartinho dos fundos e abrindo a porta constatou que ali era o esconderijo dos 14 botijões vulcagás.
 - E se os vizinhos estão fazendo o mesmo? Basta um explodir e o bairro todo vai pelo ares! – Pensou Valdir Pereira.
 Dali podia-se ouvir o som do caminhãozinho de gás circulando pelas ruas próximas - esse é o gás, tá barato demais, a chama do seu fogão é mais quente com a vulcagás... Botijão 14 quilos...
 Valdir Pereira pulou novamente o muro e se esgueirando pelas calçadas escondendo atrás dos postes seguiu o caminhãozinho pelas ruas do bairro.
 Depois de algumas voltas ele vê o veículo adentrar os portões do depósito da vulcagás.
 - Os muros são altos e as defesas impenetráveis – Pensou - Só há um jeito de me infiltrar nesta fortaleza.
 Dito isso Valdir Pereira entra no compartimento por onde os botijões vazios são trocados pelos cheios e em um giro do aparato, ele está dentro do depósito.
 Ainda bem que não tem cachorro, eu tenho medo de cachorro. – Pensou Valdir Pereira.
 Se esgueirando pelas paredes ele chega a um quartinho e através de uma fresta no basculante vê os dois homens do caminhão transferindo gás de um botijão preto para outro comum.
 Os olhos deles brilhavam e uma aura obscura os rodeava.
 - Certeza que aquele é meu botijão! – Pensou Valdir Pereira.
 - Políticos? Grã-finos? Atormentar a humanidade? Era do meu botijão que ele estava atrás! – Também pensou Valdir Pereira.
 Afinal não existem botijões pretos por aí... dourados, verdes, azuis e prateados são comuns, mas pretos e ainda com runas mágicas em uma língua arcaica, só o de Valdir Pereira.
 - Eu sabia que devia ter colocado uma capinha no botijão para camufla-lo... Mas como ele fica no quintal, protegido em sua casinha, eu não achei necessário – Pensou Valdir Pereira.
  Não cientes do perigo que corriam, os homens continuavam a encher um botijão após o outro usando uma mangueira de plástico.
 Terminada a leva eles carregaram o caminhão e partiram para mais entregas.
 Agora era a oportunidade que Valdir Pereira precisava, somente o sujeito que trabalha na recepção estava no depósito além de Valdir Pereira. Seria fácil tapeá-lo.
 Valdir Pereira se esgueirou até a cozinha que há no local tirou a marmita da sua bolsa, a destampou e pronunciou as palavras mágicas, quentinhas quentinhas. Em menos de um minuto a marmita exalava o cheiro de uma deliciosa feijoada requentada, convém dizer que na marmitinha também havia arroz, couvezinha refogada e farofa da melhor qualidade como acompanhamento e partir daí foi batata ou no caso feijoada. O atendente hipnotizado pelo saboroso aroma foi até a cozinha e almoçou ali mesmo.
 Mal sabe ele que depois da feijuca uma irresistível preguiça o acometeria. Dando tempo para Valdir Pereira fugir com seu botijão de gás com tranquilidade.
 Mas e agora? Eles sabem onde eu moro! Bastaria a eles me roubarem novamente. – Pensava Valdir Pereira enquanto carregava seu precioso botijão pelas ruas de Americanópolis bufando de cansaço e já sem forças afinal além do peso do botijão ele estava sem almoço.
 Se esforçando e torcendo para não encontrar nenhum dos entregadores de gás pelo caminho que a essa hora já tinham feito fortuna vendendo gás roubado, Valdir Pereira chegou em segurança em casa.
 Olhou para a casinha do gás no quintal e não titubeou, resolveu guardar o dito cujo dentro de casa e sem esquecer de colocar uma bela capinha rendada nele para camufla-lo. Afinal sabemos que capinhas de gás servem para isso pois se não, não teriam outra serventia.
  Agora o problema é que além do capeta cada casa era uma bomba em potencial com tanto gás guardado por aí, afinal ao preço que os botijões estavam sendo vendidos, os populares aproveitaram para fazer estoque.
 Como resolvo isso? – Pensou Valdir Pereira abrindo o pacote de bolachas que foram o seu almoço.
 Entre uma mastigada e outra acompanhadas de goles de suco de manga Valdir Pereira bolou seu plano.
 Na calada da noite sai munido, agora de sua bolsa, essa sim mágica (mas não tão maneira ) ou “saco sem fundo” como ele gosta de chamar, ele invadiu cada casa das redondezas pegando os botijões guardados nas casas deixando apenas um em cada.
 Munido de mais de 98 botijões vulcagás todos devidamente acomodados em seu saco sem fundo, Valdir Pereira andava pela madrugada gelada.
 E agora? Ele abriria um depósito de gás?
 Não é uma má ideia pensou.
Afinal para se aposentar está cada vez mais difícil.
 E de qualquer forma o gás pertencia a ele.
Pereiragás, esse o gás, qualidade comprovada e melhor que os demais, só Pereiragás.
 O celular de Valdir Pereira toca interrompendo seu devaneio.
 Valdir Pereira faz o mesmo caminho pelo escadão e na casa de Dona Irene adentrou a passagem para o centro da terra.
 Lá juntamente com seu amigo Luizinho, o gênio de garrafa que também tem suas diferenças com o capeta desde que jogaram dominó umas semanas atrás, armazenaram os botijões bem na porta do inferno.
 Tocam a campainha e saem correndo.
 - Quem é?
 - É Deus! Cês tão queimando uma picanha aí e nem me chamam?! - Grita Valdir Pereira e depois fala bem baixinho de seu esconderijo -  Quentinhas, quentinhas...
  O capeta em pessoa vem atender, afinal era o altíssimo que batia a sua porta!
  Abrindo o portão e constatando que não havia ninguém e um cheiro de gás empesteava o ar o capeta se deu conta que era uma armadilha.
 Seu último pensamento antes de explodir em mil pedaços vendo o sorriso vitorioso de Valdir Pereira saindo de trás de uma pedra foi: Deus não come churrasco! Maldito seja Valdir Pereira!
 Nada como magia piromante para detonar uma grande explosão, claro que ajudada pelas brasas do inferno que saltaram para fora assim que o capeta abriu o portão - Pensou Valdir Pereira.
 Dada a lição no capeta para mostrar que com Valdir Pereira ninguém se mete, Valdir Pereira seguiu para casa.
 Valdir Pereira chegou em casa quase ao amanhecer e deu com sua porta arrombada, o botijão de gás continuava no lugar, afinal a capinha cumpriu sua função. Valdir Pereira então foi dormir.
 Horas mais tarde ele se levantou e com a boca asneando por um gole de café foi até a cozinha, colocou água no canecão e pronunciou novamente quentinhas, quentinhas! A água no canecão ferveu em instantes.
 Ao abrir a geladeira para pegar o pó de café (que não sei porque razão ele e outras pessoas guardam lá) ele deu falta da gelatina que havia botado para gelar ontem.
 Então os gatunos não saíram de mãos vazias – Pensou.
 Enquanto coava o café olhando para a agua quente sendo despejada no coador ele olhou para o botijão do lado do fogão, olhou para a o canecão de agua quente aquecido por magia.


 - Eu devia era ter pedido um pacote de bolachas que não acaba nunca. – Constatou Valdir Pereira vendo que as bolachas haviam acabado enquanto fechava o pote de café que também não acabava nunca. 

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Sem palavras

 Eu sempre quis te homenagear com um poema.
 Mas o que eu sinto por você não cabe em palavras... e olha que elas existem aos milhões distribuindo nomes e descrevendo praticamente tudo!
 Mas o quanto é gostoso ganhar um sorriso seu, ah... isso é indescritível.
 A sensação de ter o seu olhar de desejo fixo no meu que faz eu me sentir tão gostoso mais ainda.
 A coisa boa que é te abraçar sentindo seu corpo quentinho junto ao meu nem me fale.
 Só poderia definir isso com palavras inventadas, mas quem sou eu para sair inventando palavras por aí?
 E olha que eu já quebrei a cabeça tentando!
 Mas tem coisas que não são de pensar e sim de sentir.
 Palavras não descrevem nossos abraços.
 Frases não definem nossos beijos.
 E nem uma bíblia inteira seria suficiente para dizer o quão bom é gozar junto com você.
 Por isso me calo.
 Digo que te amo somente com o olhar silencioso.
 Me calo.
 Silencio meus pensamentos.
 Calo minha mente.
 Me deixo sentir somente com o corpo.
 Uma energia, um calor, uma euforia que brota de mim... uma coisa que eu não sei dizer... Só dizer que é bom.
 Sinto que é bom.
 Muito bom.
 Quero mais.
 Mais de mim.
 Mais de você

 Mais de nós dois.