Uma manhã de quarta feira comum em
Americanópolis, os feirantes chegaram cedo e já montaram suas barracas na rua
de baixo. Um caminhão de gás desce as ladeiras tocando sua música insuportável
anunciando promoção de gás. Os meninos batem bola no portão do seu Isaias e os
pinguços já estão conversando animadamente no bar... isso que não passam de
nove horas da manhã.
Valdir Pereira
quer apenas passar um café quente para animar sua manhã e com esse pensamento
em mente adentra a cozinha de sua minúscula casa depois de realizar seu ritual
de purificação da alma de todos os dias.
Ou sua cagada
matinal para os leigos.
O fogão não
acende.
Até aí nada demais,
no pior dos casos o gás acabou... Mas não na casa do mago, caçador de diabos e
lendas urbanas Valdir Pereira. – Pensou Valdir Pereira.
E eu poderia parar
de pensar dessa forma tão cheia de mistério e com essa voz de narrador de conto
de terror... – Também pensou Valdir Pereira.
Se não sabem,
saibam que caçador de lendas urbanas não é um emprego muito bem remunerado, por
isso os caçadores têm que se virar como podem para pagar as contas e no caso de
nosso amigo um botijão mágico com gás que nunca acaba seria uma ótima saída
para não precisar gastar com botijões de gás convencionais... Caso não houvessem
roubado o dele durante a madrugada. Coisa que ele constatou logo que saiu no
quintal e viu que o cadeado da casinha do gás se fora.
Então porque ele
não colocou um cadeado mágico a prova de roubos você pode estar se perguntando?
Para não dar na
vista, responderia Valdir Pereira.
Afinal descrição é
uma das habilidades de um sujeito como ele.
E artefatos
mágicos custam uma grana preta se vocês não sabem.
E falando em
artefato mágico, o botijão de gás infinito foi dado a Valdir Pereira por um
gênio de garrafa que estava aprisionado em uma garrafa de guaraná num boteco.
E como o gênio foi
parar lá?
Bem, ele estava
andando na rua e parou no referido boteco para se refrescar com uma guaraná
gelada pois o dia estava absurdamente quente, só que ele se esqueceu do
procedimento padrão entre os gênios que é de não tomar bebidas engarrafadas direto
no gargalo, e sim usar um canudinho para não ser sugado garrafa a dentro.
Não por isso esse
foi sugado para dentro da garrafa que por sorte estava quase vazia.
O dono do boteco
vendo que o cliente em questão havia sumido no ar logo achou que o fosse caso
de calote, mas quando viu o homenzinho dentro da garrafa achou o máximo e
tratou logo de expor a garrafa com o homenzinho no balcão junto da gaiola do
passarinho e ela virou atração para o povo da rua.
Não fosse pela
ação de Valdir Pereira que derrubou a garrafa acidentalmente tentando libertar
o passarinho, ele estaria preso lá até hoje.
Mas voltando a
caso do roubo do botijão.
Dando uma rápida
volta pela vizinhança a caminho do mercado com ouvidos atentos Valdir Pereira
ouviu comentários sobre a baixa no preço do gás e notou também que os
caminhõezinhos de gás passavam com mais frequência naquele dia.
- Só pode ter sido
um diabo... – Murmurou Valdir Pereira consigo mesmo.
Depois de comprar
algumas coisinhas no mercado como gelatina em pó, suco de manga concentrado e
um pacote de bolacha de agua e sal, Valdir Pereira voltou para casa pegou sua
bolsa favorita e colocou dentro dela o livro que estava lendo, sua marmita forrada
com uma bela feijoada e couve com farofa que sobrara da marmitex de ontem e uma
garrafinha com suco de manga recém preparado, afinal é sempre bom estar preparado
para qualquer imprevisto, afinal sua jornada podia levar o dia inteiro e
almoçar na rua custa caro.
Antes de sair pela
porta da cozinha da uma última olhada para a mesa e vê a caixinha de gelatina
em pó, a coloca na bolsa.
Imprevistos meu
amigo, imprevistos!
Após andar algumas
ruas, Valdir Pereira desce o escadão e adentra uma viela. Averigua se não tem
ninguém vindo e com a agilidade de um gato salta o muro de uma casa.
No quintal abre a
portinha do abrigo do relógio de agua, e constata que lá dentro está apenas o
relógio de agua, fecha a porta.
Conta 5 segundos
pronuncia uma senha em uma língua desconhecida por este que vos fala e ao abrir
a porta novamente o que se vê é uma passagem escura e sombria, Valdir Pereira
se esgueira pela portinha e adentra a passagem.
Aaaaaaaaa!
A portinha se fecha
logo em seguida.
Se arrastando por
um labirinto de tuneis Valdir Pereira vai avançando até chegar a uma gruta
enorme.
Moscas do fogo com
sua luz alaranjada voam para e para cá iluminando o local que como é no centro
da terra não tem luz solar.
Pelo chão se ve
esqueletos humanos empilhados, ossos de dinossauros e até de outras criaturas
desconhecidas pelo homem.
Valdir Pereira
chega até uma casinha de madeira a beira de um lago vulcânico. Bate três vezes
na porta.
- Quem ousa?
- Sou eu, o
Pererinha!
A porta se abre
rangendo... Nheeeec!
Uma figura surge
detrás da porta aberta.
- Opa, e aí Valdir
quanto tempo! – É o Gênio de garrafa.
- Fala Luizinho.
- O que te trás aqui
nas profundezas da terra? Tá indo pro inferno é?
- Então rapaz, eu
to pensando em dar uma descida lá e já que tava passando...
- Vixe, melhor
voltar outro dia, feriado.
- ?
- No inferno. Tá
fechado.
- É? Não sabia que
lá tinha feriado.
- Pois é, o capeta
saiu pra resolver uns assunto com uns grã-fino, gente graúda pelo que sei, político,
empresário, gente de igreja... Aí os diabo fecharam as porta do inferno e
decretaram feriado a semana toda. Mas quando o capeta voltar meu amigo... Ai
ai... o pau vai cantar.
- Ah, o que é um
peido pra quem tá cagado... Né? Vão passar a eternidade toda no inferno memo.
Um dia de folga que mal tem... Mas voltando ao começo da conversa, se não viu
nenhum diabo passar aqui com aquele botijão de gás que tu me deu?
- Xô pensar...
- Rapaz não vi
não... roubaram é?
- Roubaram...
- Ahhh.
Os dois se olham
por um momento, o gênio propõe.
- Bom se você
tiver interessado até posso te dar outro em troca da sua alma?
- Tudo isso?
- Então rapaz é
que ali no inferno os cara troca numas parada maneira e tal... e eu não to afim
de vender a minha. – Justifica o gênio com ar malandro.
- Bom, eu tenho
aqui suco de manga, gelatina de framboesa... – Diz Valdir Pereira remexendo na
bolsa.
- Opa, gelatina de
framboesa é gostosa heim. Se eu tivesse uma geladeira pra gelar isso aí
rapaz...
- Huuum... Tu faz
um bem bolado numa geladeira por um botijão daquele?
- Demorou. Só não
te dou de graça porque é só um desejo por pessoa e tal, sabe como são a regras
né... tem uma geladeira aí nessa sua bolsa mágica?
- É... Não.
E a bolsa nem é
mágica, só uso porque achei estilosa – Pensou Valdir Pereira.
- Então sem chance, Pereira. Mas se eu souber de alguma
coisa te aviso. Teu celular é o mesmo?
- É sim, vou
subindo lá então, já que o inferno tá fechado não deve ter sido ninguém de lá
não. A gente se fala.
- Opa, tamos aí.
Acho que o capeta volta hoje, se voltar eu te aviso.
- Beleza.
Valdir Pereira já
se distanciando da casa pensa em descer até o inferno mesmo assim, porém a
música do caminhãozinho de gás tocando lá longe, mesmo que abafada chama a
atenção de Valdir Pereira.
- É o quinto hoje.
– Ele pensa.
A portinha do
abrigo de água se abre lentamente, pela fresta Valdir Pereira olha se não tem
ninguém no quintal da casa que adentrou a pouco e para sua surpresa alguém
passa. Como sua visão é limitada ele vê somente as pernas do sujeito, mas as
calças amarelas não deixam dúvidas, são entregadores de gás.
Valdir Pereira
permanece em seu esconderijo e observa, o homem agora acompanhado de outro, descarregam
o caminhãozinho trazendo botijões para dentro da casa e saindo com outros
botijões.
Se fosse um
depósito de gás, uma padaria ou um restaurante tudo bem, mas que cidadão normal
compraria tanto gás assim? Apesar de o preço estar realmente em conta – Ele
constata isso pelo anuncio que o caminhãozinho faz nas pausas do jingle: esse é
o gás, tá barato demais, a chama do seu fogão é mais quente com a vulcagás - Será
que eles não têm noção do perigo que é armazenar tanto gás em casa? – Pensou
Valdir Pereira.
Os homens se vão e
a dona da casa fecha o portão.
Ao que tudo indica
foi só uma venda de gás como qualquer outra. Mas 14 botijões? O que dona Irene
estaria tramando? Um atentado contra a humanidade? Explodir caixas eletrônicos?
Afinal a dinamite anda tão cara ultimamente que os mal feitores tem que
recorrer a alternativas caseiras como biribinhas e outras ideias catastróficas
como joelho de porco com repolho roxo cozido, a pior das armas químicas
caseiras que já existiu.
É sério, dia
desses um mal feitor tentou assaltar uma agência bancária munido apenas de seu
anus e os intestinos cheios de gás mortal, para a sorte de todos ele estava com
prisão de ventre e não conseguiu disparar.
Porem já na
viatura ele se cagou todo.
Os policiais que estavam
como ele na viatura foram hospitalizados com intoxicação grave.
O meliante morreu
asfixiado na viatura, pois não conseguiu escapar.
O botijão mágico
teria que esperar, afinal temos um caso claro de terrorismo aqui! Ou alguém tem
muitos bolos para assar... disse Valdir Pereira conversando baixinho consigo mesmo.
Com a agilidade e
destreza de um marginal Valdir Pereira se esgueirou pelo quintalzinho até o
quartinho dos fundos e abrindo a porta constatou que ali era o esconderijo dos
14 botijões vulcagás.
- E se os vizinhos
estão fazendo o mesmo? Basta um explodir e o bairro todo vai pelo ares! –
Pensou Valdir Pereira.
Dali podia-se
ouvir o som do caminhãozinho de gás circulando pelas ruas próximas - esse é o
gás, tá barato demais, a chama do seu fogão é mais quente com a vulcagás...
Botijão 14 quilos...
Valdir Pereira
pulou novamente o muro e se esgueirando pelas calçadas escondendo atrás dos
postes seguiu o caminhãozinho pelas ruas do bairro.
Depois de algumas
voltas ele vê o veículo adentrar os portões do depósito da vulcagás.
- Os muros são
altos e as defesas impenetráveis – Pensou - Só há um jeito de me infiltrar
nesta fortaleza.
Dito isso Valdir
Pereira entra no compartimento por onde os botijões vazios são trocados pelos
cheios e em um giro do aparato, ele está dentro do depósito.
Ainda bem que não
tem cachorro, eu tenho medo de cachorro. – Pensou Valdir Pereira.
Se esgueirando
pelas paredes ele chega a um quartinho e através de uma fresta no basculante vê
os dois homens do caminhão transferindo gás de um botijão preto para outro
comum.
Os olhos deles
brilhavam e uma aura obscura os rodeava.
- Certeza que
aquele é meu botijão! – Pensou Valdir Pereira.
- Políticos?
Grã-finos? Atormentar a humanidade? Era do meu botijão que ele estava atrás! – Também
pensou Valdir Pereira.
Afinal não existem
botijões pretos por aí... dourados, verdes, azuis e prateados são comuns, mas
pretos e ainda com runas mágicas em uma língua arcaica, só o de Valdir Pereira.
- Eu sabia que
devia ter colocado uma capinha no botijão para camufla-lo... Mas como ele fica
no quintal, protegido em sua casinha, eu não achei necessário – Pensou Valdir
Pereira.
Não cientes do
perigo que corriam, os homens continuavam a encher um botijão após o outro
usando uma mangueira de plástico.
Terminada a leva
eles carregaram o caminhão e partiram para mais entregas.
Agora era a
oportunidade que Valdir Pereira precisava, somente o sujeito que trabalha na
recepção estava no depósito além de Valdir Pereira. Seria fácil tapeá-lo.
Valdir Pereira se
esgueirou até a cozinha que há no local tirou a marmita da sua bolsa, a
destampou e pronunciou as palavras mágicas, quentinhas quentinhas. Em menos de
um minuto a marmita exalava o cheiro de uma deliciosa feijoada requentada,
convém dizer que na marmitinha também havia arroz, couvezinha refogada e farofa
da melhor qualidade como acompanhamento e partir daí foi batata ou no caso
feijoada. O atendente hipnotizado pelo saboroso aroma foi até a cozinha e
almoçou ali mesmo.
Mal sabe ele que
depois da feijuca uma irresistível preguiça o acometeria. Dando tempo para
Valdir Pereira fugir com seu botijão de gás com tranquilidade.
Mas e agora? Eles
sabem onde eu moro! Bastaria a eles me roubarem novamente. – Pensava Valdir
Pereira enquanto carregava seu precioso botijão pelas ruas de Americanópolis
bufando de cansaço e já sem forças afinal além do peso do botijão ele estava
sem almoço.
Se esforçando e
torcendo para não encontrar nenhum dos entregadores de gás pelo caminho que a
essa hora já tinham feito fortuna vendendo gás roubado, Valdir Pereira chegou
em segurança em casa.
Olhou para a
casinha do gás no quintal e não titubeou, resolveu guardar o dito cujo dentro
de casa e sem esquecer de colocar uma bela capinha rendada nele para
camufla-lo. Afinal sabemos que capinhas de gás servem para isso pois se não,
não teriam outra serventia.
Agora o problema
é que além do capeta cada casa era uma bomba em potencial com tanto gás
guardado por aí, afinal ao preço que os botijões estavam sendo vendidos, os
populares aproveitaram para fazer estoque.
Como resolvo isso?
– Pensou Valdir Pereira abrindo o pacote de bolachas que foram o seu almoço.
Entre uma
mastigada e outra acompanhadas de goles de suco de manga Valdir Pereira bolou
seu plano.
Na calada da noite
sai munido, agora de sua bolsa, essa sim mágica (mas não tão maneira ) ou “saco
sem fundo” como ele gosta de chamar, ele invadiu cada casa das redondezas
pegando os botijões guardados nas casas deixando apenas um em cada.
Munido de mais de
98 botijões vulcagás todos devidamente acomodados em seu saco sem fundo, Valdir
Pereira andava pela madrugada gelada.
E agora? Ele
abriria um depósito de gás?
Não é uma má ideia
pensou.
Afinal para se aposentar está cada vez mais difícil.
E de qualquer
forma o gás pertencia a ele.
Pereiragás, esse o gás, qualidade comprovada e melhor que
os demais, só Pereiragás.
O celular de
Valdir Pereira toca interrompendo seu devaneio.
Valdir Pereira faz
o mesmo caminho pelo escadão e na casa de Dona Irene adentrou a passagem para o
centro da terra.
Lá juntamente com
seu amigo Luizinho, o gênio de garrafa que também tem suas diferenças com o
capeta desde que jogaram dominó umas semanas atrás, armazenaram os botijões bem
na porta do inferno.
Tocam a campainha
e saem correndo.
- Quem é?
- É Deus! Cês tão
queimando uma picanha aí e nem me chamam?! - Grita Valdir Pereira e depois fala
bem baixinho de seu esconderijo -
Quentinhas, quentinhas...
O capeta em
pessoa vem atender, afinal era o altíssimo que batia a sua porta!
Abrindo o portão
e constatando que não havia ninguém e um cheiro de gás empesteava o ar o capeta
se deu conta que era uma armadilha.
Seu último
pensamento antes de explodir em mil pedaços vendo o sorriso vitorioso de Valdir
Pereira saindo de trás de uma pedra foi: Deus não come churrasco! Maldito seja
Valdir Pereira!
Nada como magia
piromante para detonar uma grande explosão, claro que ajudada pelas brasas do
inferno que saltaram para fora assim que o capeta abriu o portão - Pensou
Valdir Pereira.
Dada a lição no
capeta para mostrar que com Valdir Pereira ninguém se mete, Valdir Pereira
seguiu para casa.
Valdir Pereira chegou
em casa quase ao amanhecer e deu com sua porta arrombada, o botijão de gás
continuava no lugar, afinal a capinha cumpriu sua função. Valdir Pereira então
foi dormir.
Horas mais tarde
ele se levantou e com a boca asneando por um gole de café foi até a cozinha,
colocou água no canecão e pronunciou novamente quentinhas, quentinhas! A água
no canecão ferveu em instantes.
Ao abrir a
geladeira para pegar o pó de café (que não sei porque razão ele e outras
pessoas guardam lá) ele deu falta da gelatina que havia botado para gelar
ontem.
Então os gatunos
não saíram de mãos vazias – Pensou.
Enquanto coava o
café olhando para a agua quente sendo despejada no coador ele olhou para o
botijão do lado do fogão, olhou para a o canecão de agua quente aquecido por
magia.
- Eu devia era ter
pedido um pacote de bolachas que não acaba nunca. – Constatou Valdir Pereira vendo
que as bolachas haviam acabado enquanto fechava o pote de café que também não
acabava nunca.