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domingo, 31 de maio de 2015

Calvície

 Chegar para um calvo ou careca e falar com ele justamente sobre seus problemas capilares é deselegante. Deselegante e chato.
 Assim como comentários sobre estatura, gostos pessoais, jeito de se vestir, entre outros.
 Ta bom eu sei que isso é mote para puxar conversa assim como futebol ou a novela.
 Mas que é chato é.
 Desde meus doze, treze anos escuto as profecias da minha avó de que um dia eu ia ficar careca. A vovó sabe das coisas, hoje eu sou um belíssimo calvo de meia idade.
 Por isso ouvir piadinhas e comentários agora é quase inevitável.
- Olha ta ficando careca heim!
- Olha não é da sua conta! – respondo mentalmente.
 A calvície é como um monstro, que ataca diretamente nossa auto-estima. E no caso das mulheres talvez mais ainda.
 A imagem do cabelo está para a feminilidade como a do pelo para a virilidade.
 Mulheres são cabeludas e homens peludos.
 No mundo perfeito e do senso comum obviamente.
 Porque cabelo e pelo todo mundo tem.
 Pode cortar aparar ou depilar que não adianta, a natureza nos fez assim.
 Por isso a perda de um ou de outro é considerada algo anormal.
 Previsões cientificas dizem que no futuro os humanos não terão mais pelos.
 No futuro bem distante.
 No qual eu provavelmente já estarei morto.
 Ao menos o barbeador já é mais rápido que a evolução.
 Então... Não estou ficando careca, estou à frente do meu tempo.
 Só o resto do meu corpo é quem não concorda com isso.
 O que me falta no topo da cabeça sobra no resto.
 Isso me faz pensar em  um colega que tem pouquíssimo pelo e de como ele sofria e ainda deve sofrer com as piadas alheias.
 Eu ao contrário sofro por ser peludo.
- Tony Ramos!
- Urso!
- Felpudo!
 É... Deus é um artesão que faz cada peça única e depois quebra a forma para não haver cópias.
 E nós passamos à vida procurando padrões de igualdade.
 Bom para a publicidade.
 Coço a cabeça e passo a mão no pouco cabelo que resta.
 Piolho?
 Não.
 Fugiram da seca causada pelo desmatamento capilar no topo da minha cuca.
 Não ta fácil para ninguém. Tudo anda pela hora da morte.
 E por falar em morte, a calvície é como a morte.
 A gente nega.
 Foge.
 Encara.
 Tenta mudar.
 E no fim se conforma.
 Quando já está praticamente careca.
 Ah, a delicia de ser careca.
 A carequisse (a calvície no ultimo estágio) não é tão incomoda quanto a calvície. Fora as mudanças climáticas que nos fazem ter que usar cobertura artificial na cabeça, a carequisse tem lá seus pontos positivos.
 Quando eu passei a raspar a cabeça completamente não ouvi mais piadas sobre calvice ou carequisse. Recebo até elogios das mulheres em vez de criticas sobre cabelos.
 Ser careca é legal.
 Gastar menos xampu e não precisar pentear o cabelo.
 Meu personagem de quadrinhos sem cabelo é mais fácil de desenhar.
 E agora me destaco na multidão não só pela altura.
- To te esperando... Isso... To do lado de um careca altão aqui, não tem erro.
 No começo ser calvo era um tormento.
 Tentei esconder, usar boné, capuz de blusa. Ficava sem jeito para falar com as mulheres... Droga, até hoje eu não tenho jeito... Vou ter que arranjar outra desculpa...
 Voltando a calvície, é difícil aceitar.
 Eu costumava ir ao babeiro a cada dois meses ou três meses. E a calvície em vez de me fazer aumentar esse intervalo me fez diminuir. É estranho ter menos cabelo que os outros e ter que cortar mais vezes. Tanto que hoje tenho uma maquininha de cortar cabelo em casa só para não precisar encarar a fila do barbeiro todos os sábados.
 Mas a preocupação foi diminuindo cada dia mais, com o passar do tempo ando ligando cada vez menos para a calvície.
 Ela vive na minha cabeça, mas e daí?  Um dia ela se enche e vai embora.
 Meu cabelo volta a crescer onde não cresce.
 Ou eu fico careca de vez.

 Paciência.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Recheio

Recheio

Corpo
Alma
Cérebro
Mente
Bolacha
Morango
Caixão
Cadáver
Ônibus
Gente

Sanduíche
Presunto
Coração
Ódio
Amor
Incerteza
Estojo
Caneta
Borracha
Receio

Vida
Alegria
Sono
Sonho
Frango
Farofa
Conta
Divida
Trabalho
Anseio

Geladeira
Comida
Cabeça
Pensamento
Estomago
Fome
Nariz
Cheiro
Ouvido
Barulho
Pulmão
Vento

Pão
Manteiga
Bolso
Minhas mãos
Banco
Dinheiro
Sonho
Desejo
Vida
Dúvida
Morte
Certeza

Recheio

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Existência

Rápido rápido rápido ali. Esquerda, direita, reto, vamos lá eu não posso morrer agora!
 Isso.
 Aqui embaixo.
 Ufa!
 Um abrigo seguro.
 Não sei por quanto tempo.
 Eles estão alerta.
 As luzes não se apagam mais, não sei se vou sobreviver.
 São dois gigantes, não consigo mensurar o tamanho deles, talvez sejam uma centena de vezes maiores do que eu. Suas passadas fazem tremer o chão.
 O macho empunha nas patas superiores uma coisa que eles usam nas patas inferiores.
 A fêmea emite um som estridente e ensurdecedor. Ela empunha um objeto com uma das patas superiores, assim como o macho, mas a coisa dela é um tipo de arma cilíndrica que expele gás letal.
 Tenho que me acalmar, respirar fundo e pensar em uma saída.
 Vasculham todos os lugares, são predadores ferozes. Não desistirão até me encontrar.
 Será o fim?
 Por gerações nossos ancestrais contaram histórias sobre eles.
 Desde que chegamos a este planeta.
 No começo eles não passavam de um tipo de macaco.
 Lentamente foram mudando de forma.
 Perderam a pelagem.
 Ficaram cada vez maiores.
 Mais espertos.
 Sempre unidos em bandos, cada vez mais numerosos.
 Nossos inimigos mortais.
 Os gigantes.
 Eles se espalharam por todo o planeta.
 O que nos salvou da completa extinção foi nossa habilidade de camuflagem e a capacidade de reprodução em massa.
 Caso contrário agora seriamos apenas história.
 Com seu tamanho colossal e sua força descomunal eles quase nos dizimaram.
 Os poucos dos nossos que restaram se reproduziram silenciosamente e planejaram o contra ataque.
 Através de mutações genéticas criamos asas em nossos corpos na tentativa de combatê-los pelo ar.
 Não deu certo.
 Nosso vôo desajeitado e tonto serve apenas para uma fuga de emergência.
 Em vez de guerra poderíamos tentar a comunicação direta.
 Talvez alguém até tenha tentado em um passado remoto.
 Mas se os gigantes não são diplomáticos até com os semelhantes, porque seriam conosco?
 Os cachorros se renderam a eles, afinal a evolução não os favoreceu com um instinto de igualdade e sim de submissão.
 Os gatos foram os mais bem sucedidos nessa guerra.
 Os gigantes pensam que são donos do gato, mas o fato é que os gatos adotaram os gigantes como seus servos. Os gigantes são controlados pelo gato. Basta o gato dizer um a e eles atendem todos os seus caprichos.
 Poderíamos ter evoluído para algo similar ao gato.
 Seria bom.
 Droga!
 Fui descoberta!
 Não tenho escapatória!
AAAAAAH!
 Fui atingida em cheio por um objeto gigantesco.
 Meu corpo está em pedaços...
 Só minha cabeça permanece inteira.
 A dor é descomunal.
 Agora só me resta agonizar.
 Quero perder a consciência o quanto antes.
 De nada me adiantaram as asas.
 Ou até mesmo à imunidade a radiação.
 Se eles não nos atacam com bombas atômicas e sim com chineladas!
 PAU!

 - Morre barata filha da puta!

domingo, 24 de maio de 2015

Banheiro ocupado

 Estou apertado.
 A porta do banheiro está fechada.
 Uma voz lá dentro fala alegremente e ninguém responde.
 Ou a voz fala ao celular ou o cara é tão chato que discute até com o próprio cocô.
 Sei lá.
 Eu sei que eu quero é cagar.
 Pelo tom da voz parece que o dono se esqueceu do tempo. Se morrer aí dentro, ao menos morre feliz. Sentado no trono, ligando para o amigo e falando bosta.
 Falando bosta pela boca e soltando pela bunda rs...Que merda...
 Continuo me segurando.
 Então você viu o preço da passagem lá? – A voz continua.
 Fala um pouco, fica em silêncio alguns segundos e desanda a falar de novo.
 Quem está do outro lado da linha ouvindo a voz com eco sequer imagina que o outro está no banheiro.
 O anonimato do celular nos possibilita fazer um monte de outras coisas enquanto conversamos desde que não façamos barulho.
 É quase como poder ficar invisível.
 Todo mundo um dia já quis ser invisível, mas alguém já pensou que alguém invisível ainda faz barulho?
 Um sujeito invisível tem que andar por aí pelado para não ser identificado, ou com roupas que fiquem invisíveis junto com ele. Imagine ficar invisível e poder andar pelado por aí sem ser visto... Deve ser muito constrangedor... Ou excitante... Vai saber.
 Mas e quando da vontade de peidar e aquele peidinho discreto acaba virando um estrondo?
 Já pensou?
 Uma cobra chega sorrateiramente para apresar um ratinho, silenciosa, imperceptível, invisível aos sentidos da presa. Ela avança e na hora do bote... Puuuum! Aquele peidinho rasgado rompe o silêncio alto como um trovão, alertando a presa e arruinando a captura. A cobra volta para casa chateada e com fome. O ratinho ganha mais um ou dois dias de vida. O tempo para ele espalhar a história de que se safou da morte porque a cobra peidou na hora do bote.
 A cobra vai virar motivo de piada na selva, principalmente entre as outras cobras. Se a cena fosse parar na internet todo mundo só lembraria por uma semana ou menos. Mas para o azar da cobra a falta de assunto na selva fará a piada render risadas por uns bons meses.
 O peido é uma das maiores provas de amor que existe. Porque só amando muito outra pessoa pra dormir junto com ela mais de uma vez mesmo sabendo que ela também peida debaixo da coberta.
 Tudo bem, é um gesto deselegante, mas certas deselegâncias só a intimidade permite, não dá pra ser certinho o tempo todo.
 Afinal se podemos expelir todo tipo de gás venenoso no ar, destruir a camada de ozônio e tudo mais, porque só o peidinho inocente, não poluente, natural, quando expelido perto do outro ainda é considerado falta de educação?
 As pessoas deveriam se desculpar ao acender cigarros, ao dar partida em carros ou ao acender as chaminés das fabricas também.
 É que nem em banheiro publico, ou no trabalho. A gente fica se segurando para não peidar alto. E quando escapa um peido alto, a gente fica em silencio, prestando atenção no sons  para saber se tem alguém do lado de fora. 
 Pior é quando tem e a pessoa não vai embora.
 Aí é engolir o orgulho e sair da casinha para dar de cara com o chefe.
 E fingir que nada aconteceu. 
- Ah, então é você que tava aí é?
 Como a gente é besta.
 Como se os outros seres humanos não fizessem cocô ou peidassem. 
 Inclusive as mulheres. 
 Finalmente o som da descarga soa.
 A voz ainda continua falando.
 Com uma mão segura o telefone e com outra limpa a bunda. Isso sim que é falta de educação!
 Ao menos lave as mãos antes de sair – penso - e se possível o telefone também. Acho que é para isso que inventaram esses telefones a prova da água, para serem usados no banheiro não na piscina. Ao menos eles sobrevivem aos eventuais mergulhos na privada. 
 Será que um dia inventam um prova de chatos? Duvido. Ninguém ia poder usar.
 A voz não para de falar por um minuto.
 Um sujeito sai do banheiro falando ao telefone.
 Entro apressado, tranco a porta, abaixo as calças, me sento na privada e aí finalmente vem aquela sensação de alivio.
 Por alguns minutos fico sentando apreciando a solidão e a privacidade. Longe do mundo caótico. Das vozes. E dos olhares alheios.
 O silêncio predomina.
 Rompido somente por um ou outro peidinho de alivio.
 Mas é natural.

sábado, 23 de maio de 2015

Sapato

Sapato

Chinelo
Tênis
Sandália

Sapato

Obstáculo
Pedra
Calçada
Lama
Barro
Ensopado

Sapato

Calo
Bolha
Inchaço
Micose
Frieira

Sapato

Pé
Chute
Passo
Pisada
Bicuda

Sapato

Cadarço
Meia
Chulé
Palmilha
Calçado

Sapato

Sola
Cola
Graxa
Buraco
Remendo
Furado

Sapato

Mocassim
Butina
Bota
Galocha
All Star
Salto alto

Sapato

Laceado
Pequeno
Folgado
Grande
Apertado

Sapato

Novo
Velho
Usado
Dado
Comprado
Ganhando
Roubado


Sapato

quinta-feira, 21 de maio de 2015

O baú

Um homem velho e cansado da vida pedia todos os dias a Deus que o levasse embora.
 Pediu tão insistentemente que Deus se encheu e atendeu ao pedido dele.
 E veio buscá-lo pessoalmente.
 O espírito do sujeito estava em pé ao lado do corpo, seu anjo da guarda estava ali também.
 Deus o chamou e os três saíram do quarto deixando somente o cadáver vazio do homem sobre a cama.
 Saíram da casa e seguiram caminhando ruma ao horizonte, Deus no meio o homem de um lado e o anjo do outro.
 Não falaram nada por algum tempo.
 O homem notou que o anjo carregava um pequeno baú nas mãos.
 Não aguentando de curiosidade o homem perguntou o que havia no baú.
 Deus respondeu prontamente:
- Neste baú está tudo de mais precioso que você vai levar desta vida.
 O homem ficou surpreso. Depois pensativo. Encheu-se de coragem e perguntou.
- O que eu tinha de mais precioso na vida era a minha fortuna, a conquistei com muita dedicação e trabalho duro... E isso que está no baú?
 Deus respondeu:
- Não. Dinheiro só tem valor no mundo dos homens. Fora dele, notas e moedas de ouro são apenas papel e metal.
 Silêncio novamente.
 O homem toma coragem novamente e questiona.
- O que está no baú, são minhas alianças de casamento? Minha mulher virá comigo?
 Deus respondeu:
- Não. Você se casou só no papel. Não no coração.
- Mas eu provi tudo que minha mulher precisava. A ela nada faltou. Tudo que o dinheiro pode comprar eu dei a ela. Tudo do bom e do melhor.
- Tudo não. Você não deu o que ela mais queria.
- E o que era?
- Você.
-...
- Você nunca se entregou a ela completamente. Todo o tempo que você teve foi dedicado ao trabalho. Você não dedicou tempo a ela, para conversar, amar, usufruir da sua riqueza junto dela. Ela não queria só jóias caras. Acima de tudo ela queria você junto dela. Mesmo que você tivesse sido um miserável ela te amaria da mesma forma, com o mesmo carinho e consideração.
 Mais uma vez, silêncio.
- Então o que está no baú é o meu conhecimento?
- Seu conhecimento só tinha serventia onde você estava. Você treinou sua mente e seu corpo para lidar com o mundo onde você vivia. Mas não estamos mais lá, não é mesmo? Seu conhecimento ficou onde ele é útil. Aqui seu conhecimento de nada serve.
 O homem sentiu medo.
- Então o que está no baú é a minha alma! Afinal nada mais me resta.
- Não. Sua alma é minha. Eu apenas a emprestei para você usufruir. Como eu sou tudo e tudo sou eu. Tenho direito pleno sobre todas as coisas. E sua alma não é exceção.
 O homem não se conteve mais e avançou para cima do anjo, derrubou-o tirando o baú das mãos dele.
 Deus disse que não havia necessidade disso, se ele quisesse o baú era só pedir.
 O homem sentiu-se envergonhando.
 Deus sorriu em vez de se zangar.
- Pode abrir o baú se você quer tanto assim.
 O homem abriu o baú e foi tomado por um arrependimento sem tamanho.

 O baú estava vazio.

domingo, 17 de maio de 2015

Cocô alegria!

 Empresas já criaram iogurte para ajudar a fazer cocô, cheirinho para disfarçar o odor e a última e mais estranha de todas:
 Pílulas para fazer cocô colorido. 
Imagino a propaganda bizarra.
 Cansado de cocô marrom e comum? Constrangido por deixar aquele toloquinho sem graça na privada entupida? Chega de passar momentos como esses. Tome as pílulas cocô alegria!
 Com cocô alegria sua cagada agora é uma festa.
 Basta tomar antes da refeição para fazer incríveis cocôs coloridos feito confete!
 As crianças vão adorar.

 As mulheres vão poder cagar cada dia em uma cor diferente combinando com o esmalte!
 E os homens vão falar que isso é coisa de fresco, mas vão adorar o quando o cocô sair nas cores do time do coração.
 Cocô alegria mais cor do seu dia!

Milho

 Hoje vi uma barraquinha “delicias do milho verde”.
 Milho verde? E existe milho maduro? Acredito que sim. Mas até onde eu sei o milho é amarelo.
 O milho, milho verde, ou para mim amarelo. É cultivado desde os tempos em que a humanidade ainda estava aprendendo a conviver em sociedade.
 Antes convivíamos em pequenos bandos migrando atrás de comida, depois aprendemos a cultivar o solo. Além das raízes das plantas também firmamos no solo as nossas.
 A partir daí mudaram-se os costumes, rituais, pensamentos... Criamos animais. Inclusive aves. Que domesticadas evoluíram até chegar as atuais galinhas que comem... milho. Não sei se é o mesmo milho verde da barraquinha “delicias do milho verde”, mas é milho.
 Interessante como a evolução fez do dinossauro a atual galinha... Mal posso esperar para ver como seremos daqui a alguns milhões de anos.
 O cultivo de cereais, milho e outros grãos atraiu para junto dos humanos o rato. Esses por sua vez atraíram o seu predador natural, o gato. O gato que hoje está presente nas redes sociais em fotos que agradam os humanos que freqüentam a web e a barraquinha “delicias do milho verde”.
 Penso se o dono da barraquinha “delicias do milho verde” é um milionário. É? Talvez. Afinal troca seus milhões (milhos grandes) por outros milhões (monetários) o dia todo. Todos os dias.
 O milho. Que é vendido em sacas verdes na beira da estrada ou perto de casa, no sacolão. Que é uma loja e não uma sacola gigante.
  E assim eu, humano, resultado da evolução, favorecido pela agricultura, predador de galinhas, dono de gato e cliente do sacolão, vou à barraquinha das delicias do milho verde comer milho cozido. Que vai ser mastigado, triturado e digerido.
 Exceto por aquele grãzinho que vai ser descoberto pouco antes da descarga.
 Esse grão sobrevivente encontrará o fim do ciclo.
 Voltará a terra e se tornará no fim, um outro pé de milho.
 Dando continuidade as gerações de pés de milho daqui para o futuro.

 Para os quais um dia, serviremos de adubo.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Quem sou eu?

Para o banco, correntista.
Para o governo, cidadão.
Para as contas, negativado.

Para a policia, trabalhador.
Para a empresa, colaborador.
Para os que tem faculdade, menos.
Para o balconista da padaria, o próximo.
Para o do boteco, doutor.

Para o hospital, paciente.
Para os amigos, especial.
Para os leitores, escritor.
Para o gato, semelhante.
Para a minha mãe, lindo.
Para as baratas, feio.

Para os tênis, pés.
Para a privada, bunda.
Para a ciência, homo sapiens.
Para os carros, obstáculo.
Para o semelhante, desconhecido.
Para o universo, o caos.

Para a comida, um fim nobre.
Para o marketing, publico alvo.
Para o vizinhos, vizinho.
Para o avião, pequeno.
Para a mosca, gigante.
Para o oceano, insignificante.

Para os ets, descoberta.
Para a fila, mais um.
Para o pássaro na gaiola, o carcereiro.
Para o pássaro fora da gaiola, o encarcerado.

Para os que estão contra mim, inconveniente.
Para os que estão a meu favor, esperança.
Para o meu pai, filho.
Para o meu filho, pai.

Para o córrego, esgoto.
Para a minha mulher, amor.
Para o espelho, o contrário.
Para o mundo, um lunático.
Para a lua, um terráqueo.

Para Deus, único.


E para mim mesmo... Um mistério.

domingo, 3 de maio de 2015

Domingueiros

Eu fico olhando o gato

Para o gato todo dia é domingo

Todo dia é dia de dormir gostoso
Todo dia é dia de não olhar para o tempo
Todo dia é dia de almoçar sem pressa
E todas as noites são sem hora para dormir

Como as madrugadas


De sábado para domingo

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Lulu

  Sérgio queria ter dinheiro, mulheres e tudo o que a televisão ensina que precisamos para sermos felizes... Até manteiga aerada.
 Pesquisou em livros satanistas como fazer um ritual para evocar o demônio.
 E lá estava ele sentado no chão do quarto, as janelas e cortinas fechadas. Velas acesas e um símbolo ancestral desenhado no chão.
 Furou o dedo para oferecer seu sangue ao demo.
- Vinde até mim mestre das profundezas!
- Vinde até mim mestre das profundezas!
 Mal começou a repetir pela terceira vez e lá estava um homem de terno sentado na cama dele.
- Chamou?
- Vo vo você é mesmo o demônio?
- Sim. Sou eu, Lúcifer. Lulu para os íntimos.
- Senhor das trevas! Lorde das profundezas!
- Tá tá tá não precisa ficar bajulando não. Fala logo o que você quer porque eu tenho mais o que fazer.
- Eu? Eu quero muito dinheiro!
- Joga na mega sena.
- Loteria? Então o senhor me fará o vencedor?
- Eu não, milagre é com o departamento de cima. Escuta, tu já experimentou arrumar um emprego? De vendedor ou em telemarketing? Essa é mais minha praia, com uns anos eu te consigo até um cargo de chefia...
- Senhor Lúcifer eu também quero mulheres! Eu quero orgias e sexo até cansar!
- Bem. Com dinheiro tudo se compra. Mas a internet ainda ta aí né. Internet, mãozinha. Sacou né? É o jeitinho mais garantido para se acabar no sexo. Tem de tudo. Até com girafa se procurar bem.
- Senhor Lúcifer eu quero poder!
- Pra entrar nos vingadores, liga da justiça ou o que? Se até o homem aranha ta penando imagina tu. Os cara são fresco fio. Não serve aí uma pontinha na novela das oito ou do canal 7?
- Estou disposto a vender minha a alma a você pelo resto da eternidade! E você me vem com brincadeirinha?!
- Ihhhh. Alma ta em baixa no mercado fio. Até umas igreja tão comigo. Alma é o que não falta. Tem gente vendendo a alma para até pra pagar a conta de luz e você aí se achando muita bosta. Vai ter que oferecer coisa melhor fio.
- Mas...
- Lembra da primeira proposta? Do telemarketing? Aliás, sendo qualquer coisa na área de vendas... Melhor ainda, cartão de crédito! Tu arranjas um trampo de vendedor de cartão de crédito, vende cartão pra umas duas dúzia de fudido aí, que eu cuido da tua carreira. Topas?
- Bom, é que tem pra hoje... Mas eu pensei que...
- Pensou que o diabo fosse mais poderoso, mais blá blá blá, fio a crise ta foda. Tudo que falam de mim aí é estratégia do pessoal do marketing. Sem eles as igreja tava vazia, televisão e internet ninguém usava, fast food ninguém comia e eu tava era fudido. Então, fechou?
- Tudo bem. Eu aceito o pacto. Minha alma é tua senhor das trevas!
- Lulu.
- Tudo bem, Lulu.
- Mas calma aí que ainda tem a parte burocrática.
- Burocrática?
- É. O que? Achou que a ia ter um ritual cheio firulinha, luz roxa, fumaça, foguinho? Eu tenho que garantir o meu lado. O cara me vende a alma e quando ta chegando à hora de eu buscar ele. O dito se arrepende e Deus perdoa e blá blá blá. E quem sai fudido na história? Eu. Sempre eu. E lê rápido essa bosta de contrato que eu to com pressa.
- Acho que ta tudo ok. Mas pera aí... Tem letra pequenininha aqui.
- Não é nada não, ignora. Assina aí vai.
- Calma.
- Ihhhhh.
 “Em caso de arrependimento verdadeiro esse contrato será anulado automaticamente.”
  Sérgio pensa:
  Estorei! Posso fazer a pá de merda que depois me arrependo e vou pro céu he he. Vou assinar agorinha!
- Oh seu diabo, alias Lulu, vou fechar contigo!
- Vai o caralho. Sei muito bem o que tu ta pensando! “Vou fazer merdinha a vida toda, passo um tempinho no inferno que depois Deus perdoa.” Da isso aqui. Tu é fria o filha da puta.
- Pêra aí seu diabo! Lulu! Volta aqui Lulu!
- Não não, sai fora rapaz. Os seres humanos já vão se fuder por conta própria, não precisam de mim mais não, eu vou é tirar umas férias que eu ganho mais!
 E o diabo some em uma nuvem preta.