Chegar para um calvo
ou careca e falar com ele justamente sobre seus problemas capilares é
deselegante. Deselegante e chato.
Assim como
comentários sobre estatura, gostos pessoais, jeito de se vestir, entre outros.
Ta bom eu sei que
isso é mote para puxar conversa assim como futebol ou a novela.
Mas que é chato é.
Desde meus doze,
treze anos escuto as profecias da minha avó de que um dia eu ia ficar careca. A
vovó sabe das coisas, hoje eu sou um belíssimo calvo de meia idade.
Por isso ouvir piadinhas
e comentários agora é quase inevitável.
- Olha ta ficando careca heim!
- Olha não é da sua conta! – respondo mentalmente.
A calvície é como um
monstro, que ataca diretamente nossa auto-estima. E no caso das mulheres talvez
mais ainda.
A imagem do cabelo
está para a feminilidade como a do pelo para a virilidade.
Mulheres são
cabeludas e homens peludos.
No mundo perfeito e
do senso comum obviamente.
Porque cabelo e pelo
todo mundo tem.
Pode cortar aparar ou
depilar que não adianta, a natureza nos fez assim.
Por isso a perda de
um ou de outro é considerada algo anormal.
Previsões cientificas
dizem que no futuro os humanos não terão mais pelos.
No futuro bem
distante.
No qual eu
provavelmente já estarei morto.
Ao menos o barbeador já
é mais rápido que a evolução.
Então... Não estou
ficando careca, estou à frente do meu tempo.
Só o resto do meu corpo
é quem não concorda com isso.
O que me falta no
topo da cabeça sobra no resto.
Isso me faz pensar em
um colega que tem pouquíssimo pelo e de como
ele sofria e ainda deve sofrer com as piadas alheias.
Eu ao contrário sofro
por ser peludo.
- Tony Ramos!
- Urso!
- Felpudo!
É... Deus é um artesão
que faz cada peça única e depois quebra a forma para não haver cópias.
E nós passamos à vida
procurando padrões de igualdade.
Bom para a
publicidade.
Coço a cabeça e passo
a mão no pouco cabelo que resta.
Piolho?
Não.
Fugiram da seca
causada pelo desmatamento capilar no topo da minha cuca.
Não ta fácil para
ninguém. Tudo anda pela hora da morte.
E por falar em morte,
a calvície é como a morte.
A gente nega.
Foge.
Encara.
Tenta mudar.
E no fim se conforma.
Quando já está
praticamente careca.
Ah, a delicia de ser
careca.
A carequisse (a calvície
no ultimo estágio) não é tão incomoda quanto a calvície. Fora as mudanças climáticas
que nos fazem ter que usar cobertura artificial na cabeça, a carequisse tem lá seus
pontos positivos.
Quando eu passei a
raspar a cabeça completamente não ouvi mais piadas sobre calvice ou carequisse.
Recebo até elogios das mulheres em vez de criticas sobre cabelos.
Ser careca é legal.
Gastar menos xampu e
não precisar pentear o cabelo.
Meu personagem de
quadrinhos sem cabelo é mais fácil de desenhar.
E agora me destaco na
multidão não só pela altura.
- To te esperando... Isso... To do lado de um careca altão aqui,
não tem erro.
No começo ser calvo era
um tormento.
Tentei esconder, usar
boné, capuz de blusa. Ficava sem jeito para falar com as mulheres... Droga, até
hoje eu não tenho jeito... Vou ter que arranjar outra desculpa...
Voltando a calvície, é
difícil aceitar.
Eu costumava ir ao
babeiro a cada dois meses ou três meses. E a calvície em vez de me fazer aumentar
esse intervalo me fez diminuir. É estranho ter menos cabelo que os outros e ter
que cortar mais vezes. Tanto que hoje tenho uma maquininha de cortar cabelo em
casa só para não precisar encarar a fila do barbeiro todos os sábados.
Mas a preocupação foi
diminuindo cada dia mais, com o passar do tempo ando ligando cada vez menos
para a calvície.
Ela vive na minha
cabeça, mas e daí? Um dia ela se enche e
vai embora.
Meu cabelo volta a
crescer onde não cresce.
Ou eu fico careca de
vez.
Paciência.