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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Valdir Pereira vai a feira

 O sol nem saiu ainda e os caminhões mercedez carregados de caixotes começam a chegar com seu ronco rompendo o silencio da madrugada.
 Então sol nasce e aquece a manhã de domingo.
 Aos poucos as pessoas despertam.
 Celso como todos os domingos de manhã pega a sacola e vai a feira cumprir seu ritual, comprar frutas, verduras e depois tomar um suculento caldo de cana.
 - Mas que laranja doce!
 - Olha essa melancia!
 Dentre os gritos dos feirantes ele vai enchendo a sacola.
 Já com a sacola cheia ele sobe a rua.
 A japonesa do caldo de cana o recebe com a simpatia de sempre.
  - Bom dia, com limão, puro ou abacaxi?
- Bom dia, me vê um grande, puro.
 Apreciava cada gota do doce néctar com satisfação até que o copo ficou vazio.
 Empunhou sua sacola e foi para casa.
 ...
 Durante o almoço Celso passava a mão na barba cerrada constantemente enquanto olhava para o nada. Parecia agoniado.
- Ta tudo bem Celso? – Indagou Silvana, sua mulher.
- Hum? Sim, sim.
 Sua barba coçava mais que o normal.
 - Seu rosto ta vermelho... Ta com alguma alergia?
 - Deve ser essa barba ta coçando feito sarna.
- Também, você faz de qualquer jeito, não passa nem um creme de vez em quando.
 A mulher odiava aquela cara áspera arranhando ela na hora dos beijos e das caricias, e vendo uma boa oportunidade não hesitou.
 - Sabe amor, porque você não tira essa barba... E aí eu te dou um presentinho em troca... – Disse lançando um olhar e um sorriso que davam muito bem a entender o que seria o “presentinho”.
 Celso se animou, afinal fazia tempo que a patroa andava meio distante.
 E mais tarde depois do almoço, os dois estavam sozinhos em casa assistindo filme ruim na televisão...
 - Amor vou tomar um banho. – Disse se espreguiçando.
 - Vai lá, ursão. – Retrucou ela em tom de brincadeira e dando um tapa na bunda dele. – Se você se comportar bem eu posso até interromper você.
 - Nossa, como eu ia ficar chateado. – Ele respondeu de forma irônica.
 Os dois riram.
 Essa era a deixa, ele correu animado para o banheiro já pensando todo o tipo de sacanagem, até que adentrou e se deparou com o espelho.
 Ficou olhando uns bons segundos admirando sua característica barba. Se sentia incomodado com a coceira, mas outra sensação também tomou conta dele naquele momento, uma repentina aversão a pelos. Abriu o armarinho do banheiro pegou o barbeador e com um sorriso no rosto espalhou creme de barbear pela cara.
 Cada passada do barbeador no rosto lhe dava um alivio sem tamanho por estar se livrando dos pelos na cara.
 Quando terminou seu rosto estava liso como bumbum de nenê. Mas algo ainda lhe incomodava. Seus cabelos castanhos e crespos que cobriam sua cabeça.
 Recobriu a cabeça com espuma e em algumas passadas estava careca como o Lex Luthor.
 Estava aliviado, mas ainda não se dava por satisfeito.
 Seu peitoral também era recoberto de pelo como um casaco felpudo. Se ensaboou e se depilou com a maior felicidade do mundo como nunca se vira naquele homem.
 E assim se sucederam as costas, as pernas e todo o resto até finalizar com os cílios que ele arrancou um por um com uma pinça da esposa.
 Terminado o filme, a mulher se levantou e resolveu conferir se o marido ainda estava na ducha.
 Quando chegou na porta do banheiro se deparou com Celso nu, com sangue escorrendo dos cortes pelo corpo todo, completamente despelado e com um sorriso digno de ganhador de loteria na cara.
 - Celso! Que...Que...Que MERDA É ESSA!?
 Ele olhou para ela por alguns segundo em silencio e sorrindo mostrou o barbeador em punho.
 - Você vai ficar linda!
  Avançou para cima da mulher que gritou em pânico.
 Horas depois a policia chamada pelos vizinhos arromba a casa e a encontra Silvana desacordada com um machucado na cabeça da pancada, completamente nua e  despelada.
 Seu cabelos lisos e pretos se foram.
 Tempos depois ela descobriria que eles nunca mais cresceriam, bem como o resto dos pelos de seu corpo.
 Celso está foragido até hoje.
...
 Porém existem varias lendas de um sujeito despelado que anda por aí atacando qualquer ser vivo e arrancando-lhe os pelos... Para sempre.
 O que explica a calvície de muitos homens.
 Alguns o chamam de o despelador.
 Mas o que poucos sabem, é que acausa da desgraça desse sujeito foi caldo de cana contaminado com um vírus raro que é transmitido pelas fezes do terrível besouro barbeiro.
 Se ele soubesse que o limão é um truque antigo para acabar com esse vírus nunca teria tomado caldo de cana puro.
 - E é por isso hoje eu vou ficar só no pastel – disse Valdir Pereira – Enchendo o pastel com vinagrete.
 Sem se dar conta que aquilo também era um veneno.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Facebruto

 Dizem que o facebruto é coisa pra curiar a vida alheia
 E é.
 E isso é um prato cheio para o narcisismo.
 Na vida somos como atores interpretando em um grande palco. E ter uma dezena de seguidores é como ter uma platéia para assistir o espetáculo.
 - 3000 mil amigos? Meu Deus como eu sou importante!
 3000 mil amigos cuidando da própria vida e uns três no máximo que realmente se importam com o glorioso showzinho da sua vida cotidiana.
 Redes sociais são uma alegoria do mundo real (afinal não criamos nada do zero) ter um perfil no facebruto, instragando, é como ter seu palquinho virtual. Nos torna celebridades do cotidiano. Da aquela sensação que somos tão importantes. Talvez por isso essa necessidade de todos dizerem alguma coisa o tempo todo.
 Mas ao passo que todo mundo diz tudo o tempo todo ninguém escuta nada.
 É tanta informação, ficamos o tempo todo postando conteúdo e curtindo o showzinho no palco ao lado que não temos tempo de ser platéia, ou ser roteirista, ou ensaiar, ou simplesmente ficar quieto. Existe uma necessidade quase obsessiva de dizer/mostrar alguma coisa sempre que possível.
 A prova disso?
 Tira o botão like e o de compartilhar para ver no que dá.
 Só de dificultar em 5 segundos o processo de uma postagem nos faria pensar se o que estamos fazendo é realmente útil. Tem uma meia dúzia que faz as montagem de frase mais foto e resto do mundo curte e compartilha e só propaga o discurso alheio como sendo dele.
 O like e compartilhar na maioria das vezes são apertados no impulso. Em uma coisa que nos interessou ali por um instante e daqui dois minutos a gente já nem lembra o que era.
 O facebruto é uma cópia do mundo real, agora imaginemos o contrário.
 Uma pessoa da lugar a um idoso no metrô, as pessoas dão um “like” ? Um joinha? Não. É o que se espera de qualquer ser humano descente.
 Mas dentro da pessoa fica a satisfação de estar fazendo algo bom, ou estar puto porque perdeu o assento.
 E ela não faz isso esperando aplausos ou tapinhas nas costas dos outros passageiros, tipo cachorro esperando o biscoito de recompensa quando faz o truquinho.
 Será que nos tornamos isso?
 Agora imagina que ridículo seria se todos andassem pela rua recitando frases de efeito?
 - Bom dia.
 - Eu defendo os gays e você deve respeita-los também!
 - Eu sou dono do meu destino e por isso faço sempre o melhor todos os dias. Vai querer quantos pães?
 - Deus não existe, o que existe é a ciência. Me vê dez.
 Tipo quando alguém vem empurrar para você a palavra da outra religião sem a sua permissão ou falar de crime enquanto você toma café da manhã.
 É um saco.
 - Mas ali é o meu espaço. Lê quem quer!
 E depois que você bloqueia fulano.
 Ele fica ofendido.
 Fazer o que.
 “É como atravessar a rua só para evitar o chato.
 Mas às vezes não tem rua para atravessar.
 E o encontro se torna inevitável.”


(A ultima citação eu li pela voz do Rogério Skylab, mas sei que é de outro autor.)