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domingo, 21 de junho de 2015

A cabeça

 Luciana estava afoita para ir ao banheiro, rezando para o elevador chegar rápido ao andar dela. Assim que a porta do elevador se abriu ela saiu apressada já com a chave do apartamento em mãos. Largou a bolsa e as chaves em cima da mesa assim que entrou no banheiro trancou a porta e quase morreu de susto ao levantar a tampa da privada e ouvir um “boa tarde” de uma cabeça de um homem que estava dentro da privada.
- AAAAA!
- Por favor dona, não em cima de mim.
- O que é isso?! – Gritou Luciana apavorada.
- Olha nem mesmo eu sei muito bem como vim para aqui na sua privada dona. Só por favor, não faz em cima de mim ta?
- E como diabos você foi para ai!?
- Eu estava andando na rua e cai em um bueiro. Então a procura superfície eu cheguei aqui na sua privada. Só que eu fiquei entalado.
- Olha moço o senhor da licença um minutinho ta.
- Tem toda.
  Luciana sai apressada do banheiro e vai até o apartamento vizinho.
- Boa tarde.
- Boa tarde vizinha, o que a trás aqui? – Disse alegremente Dona Silvana do 208.
- Eu poderia usar o seu banheiro? É que o meu esta com um problema no encanamento e...
- Mas é claro minha filha, pode ir lá.
 Luciana entrou e se aliviou usando o banheiro da vizinha. Tempo esse para se refazer do susto e pensar no tamanho da bizarrice que acabara de presenciar em seu banheiro.
 Depois de resolver o que veio fazer no apartamento vizinho, agradeceu a gentileza da moradora e voltou para o seu apartamento.
 Hesitou por um momento. Tinha mesmo um sujeito dentro do seu vaso sanitário? Ou era só coisa da cabeça dela? Será que ele já tinha ido embora? Ou ia morar ali para sempre? Ela teria que receber as visitas dele em seu banheiro. E quem sabe até a família dele insistisse para habitar o pequeno cubículo só para não ficar longe do pai. No pior dos casos ela venderia o apartamento para eles, mas como viveriam sem poder usar o banheiro? Usariam o do vizinho o resto da vida?
 Respirou fundo, tomou coragem e adentrou o banheiro.
 O homem, ou ao menos a cabeça que era a parte visível dele, ainda continuava no vaso.
- Escuta, esse banheiro é meu! – Disse Luciana imponente.
- Sim dona.
- Você nunca ouviu falar em privacidade? Em propriedade privada?
- Sim, entendo que a privada seja sua senhorita. Mas eu juro. Eu juro que foi um acidente! – O homem baubuçiava.
- Ahã. E quem garante que você não é só uma alucinação da minha cabeça? Ou algum tarado que se enfiou aí só para me espiar.
- A senhora está me acusando? Eu já disse que vim parar aqui por mera casualidade! E se pudesse escolher eu escolheria uma privada mais limpinha pelo menos!
 Luciana ficou possessa.
- Muito me admira o senhor invadindo o banheiro dos outros sem permissão! Já sei! Você é um ladrão. Um ladrão que entra nas casas dos outros pela privada para roubar. Pois bem feito que ficou entalado aí.
- Moça... Senhorita...Você ainda não percebeu a gravidade da coisa? Eu cai em um bueiro! Um bueiro no meio da rua e vim parar aqui na sua privada! Isso é impossível de acontecer!
- Pensa que me engana não é seu ladrão tarado! Pois bem, você vai sair daí por onde entrou!
 Luciana aciona a descarga e empurra o sujeito vaso a dentro com a vassourinha do banheiro.
- Para com isso! Para! A senhora ta me machucando! Ai!
 Com muito esforço e muitos litros de água desperdiçados a cabeça desce descarga a baixo.

 Luciana questiona se havia mesmo um corpo ligado a aquela cabeça se perguntando sobre o que havia ocorrido ali. Na quarta ela contaria para o seu terapeuta. Mas de uma coisa ela tinha certeza. Ninguém fala mal da limpeza do banheiro dela, ah isso não.

Palavreando

O português dito de forma polida é bonito. Eu, tu, ele, nós, vós, eles. Soa bonito, eu sei. Mas no dia a dia é imprático.
 Imagine a situação:
- Olá meu caro senhor, tu podes me ofertar um dúzia destes belos pães salgados para o meu desjejum e de meus familiares?
- Mas é claro que sim bom freguês. E vossa senhoria deseja algo mais deste humilde serviçal?
 Porra, a menos que você esteja comprando pão na idade média não tem como falar assim, é impossível.
 E falando em porra, os palavrões são um bom exemplo de simplificação e praticidade na língua portuguesa. Assim como as gírias, que podem ser interpretados como dialetos regionais.
- Aí macho, me passa aquele bagulho ali faiz favor.
- Que bagulho mano?
- Aquela parada ali macho.
- Ah, a chave de catraca?
- Issaí porra.
 Sempre tomando o cuidado de não dizer bagulho, parada, ou “paradinha” perto da policia. Sabemos o que paradinha ou bagulho podem significar aos ouvidos de um homem da lei.
 Quanto aos palavrões. E eu não estou falando de nomes de cidade como Pindamonhangaba ou Itaquaquecetuba. Ou até mesmo carrilhão, que mesmo sendo uma palavra curta soa grande como um trovão! Que é outro palavrão. Me refiro aqui a palavras de baixo calão. Calão! Qualquer coisa com ão no final tende a soar como algo grande. Trovão! Tensão! Tesão! Caminhão! Plantão!
 Voltando ao palavrão. Este é uma forma simplificada de descrever praticamente tudo com síntese e economia de saliva gasta em explicações ou palavras mais complexas.
 Por exemplo: O palavrão pode descrever uma coisa.
- Que merda é essa?
 Você sabe que eu não estou me referindo a merda no sentido literal. Porque se alguém cagasse no chão provavelmente eu diria indignado:
- Mas que porra é essa?
 Com a entonação correta o PALAVRÃO (Ão! Ão! Ão!), pode descrever minha opinião quanto a atitude alheia.
- Caralho mano, você é foda heim! – Com entonação desgostosa, demonstrando desaprovação pelo feito alheio.
- Caralho mano, você é foda heim! – Com entonação de chacota, demonstrando admiração pelo feito alheio. 
  No tempo em que não havia uma forma de comunicação efetiva e comum entre os humanos, como podíamos demonstrar o completo desprezo e ódio por alguém a fim de deixar clara a intenção?
 Talvez pela entonação. Ou não. Afinal um russo ou um alemão falando com você alegremente pode soar como se ele estivesse querendo saber se sua mãe é uma puta quando ele só está perguntando onde fica o metrô.
 - Brochinconks paróvis brussssca lênin barurkinin?
 - É a sua oh filho da puta!
 Para isso os antigos inventaram um gesto universal que é dar o dedo do meio. Acho que até em marte se você mostrar somente o dedo do meio levantado os ets vão entender que você ta mandado eles se foderem. Ou os ets com seus dedos enormes, compridos, grossos e claramente maiores que o seu, vão entender que você está afirmando que o seu pinto é pitico e fininho feito o seu dedo do meio. Aí o jeito é partir pra guerra atômica ou usar seu sabre de luz para lhes fazer entender mensagem.
 Porque não dá pra xingar bonito, ou xingar polidamente. Xingar é xingar e pronto. Foda-se
 - Eu te desprezo. Não sinto mais a vontade de ter sua presença a meu lado. Me sinto magoado e ofendido com sua atitude.
- Porra, manda tomar no cú logo caralho!
 Ou dá pra ser ainda mais prático e dar o dedo. A representação clara do vai se fuder.
 Afinal o sorriso pode ser falso, o obrigado pode não ser sinal de gratidão, a declaração apaixonada só um pretexto para a transa ou ainda esconder um milhão de outras intenções. Mas o foda-se amiguinhos.
 Com foda-se não tem erro.

 O foda-se é sempre sincero. 

sábado, 20 de junho de 2015

Quermesse

Junho, mês de festas juninas, milho, quentão, fogueira, bandeirinhas coloridas e dos covitinhos:
- Vamo ali na quermesse?
- Não.
- Bora lá, bora lá. Se pá tem umas mina!
 E você vai, não vai? Vai, eu sei que vai. Afinal não queremos ficar de fora da patota não é mesmo?
 Você vai e quando chega lá todo mundo ta se amassando com alguma guria e você lá plantando no sereno, frio e duro feito um picolé. O fiel retrato da felicidade em pessoa.
 Tem milho verde? Tem. Tem paçoquinha? Tem. Tem vinho quente? Tem. Tudo a 15 reais cada, mas tem. É que agora a moda é a quermesse gourmet.
 E tem pescaria? Lógico que tem. E como premio ainda tem o mesmo briquendinho de plástico fulero da loja de um real. Mas o que temos a perder não é? O que são dez reais comparados ao prazer de tentar pescar um peixinho de plástico enterrado na areia?
 Olha só que barato, você conseguiu! Eba! Pescou um peixinho visando um caminhãzinho de gás de brinquedo e no fim ganha um belo conjunto de “tapoés”.
  Tudo ao som do piroliloliloli, pipiroliloliloli, piroliloliloli, pipiroliloliloli... Se você não identificou a canção é o hino nacional da quermesse. Você sabe do muito bem do que eu to falando. Ah sabe.
 Hora da quadrilha ia ia!
 Pula fogueira ia ia!
 Olha a policia ia ia!
 Todo mundo preso por formação de quadrilha, formação de cartel de paçoquinha e por vender muamba da 25 sem nota ia ia!
 E é por isso que eu vou passar a noite aqui na cadeia hoje ia ia.
 Mas temos que pensar positivo, não é mesmo? Ia ia.

 Com o conjuntinho novo de “tapoé” da pra ostentar uma marmitinha mais bacana na firma segunda feira né... Ia ia.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Insignificância

 A Terra é sisuda, áspera, borbulhante e infernal no seu interior. A Terra é masculina. O mar é volúvel, às vezes tão convidativo, às vezes tão temível. O mar é sem forma, hora liquido hora congelado, às vezes quente, às vezes frio. O mar é feminino.
 E por mais que coexistam praticamente um dentro do outro a terra e o mar não são amantes. Não são casados. São só bons amigos.
 Porque o mar, o mar ama o sol. O sol o aquece, leva o mar até as nuvens para depois ele se desfazer em chuva, culminado em um lindo arco íris. Quando há chuva com sol o mar e sol estão se amando. Por isso o arco íris aparece no final. Representando a delicia do orgasmo.
 Um dia o céu estava escuro, cheio de nuvens pretas e trovoadas fortes. Era o mar em forma de nuvem que lamuriava e chorava em forma de chuva.
- O que aconteceu? - Perguntou a terra a seu amigo.
- Eu quero poder ficar mais perto do meu amor terra, quero poder chegar mais perto do meu amado sol.
- Mas se você chegar mais perto mar, o sol vai te matar. Como tudo que se aproxima demais dele. Seu sol brilha esplendoroso no céu, porém o preço para tal majestade é a solidão.
- Por isso mesmo terra. Eu tenho a você que é minha amiga. Você tem a lua, que é sua amada, mas ele não tem ninguém. Eu me sacrificaria só para poder chegar perto do meu amado sol. Você não faria o mesmo pela sua lua?
- Te entendo mar. Mas não se esqueça que somos casa para muitas vidas. Seria egoísmo de nossa parte sacrificar a todos só pelos nossos desejos, não acha?
- Egoísmo? Pelos animais tudo bem, eu concordo. Mas pelos homens jamais. Eles é que estão nos matando, só para satisfazerem a si mesmos. Eles vão e vem há milhares de anos.
- E por milhares de anos nós resistimos não é?
- E eu me pergunto até quando vamos aguentar.
...
- Sabe se for para eu morrer um dia que seja me jogando nos braços do meu amado sol. Que se dane o resto. Que se danem as dúvidas. Que se danem os humanos. Eles que vão para Marte, que agora não passa de um cadáver do que já foi um dia.
- Sabe mar, você tem toda a razão.
...
 Cientistas afirmam que a cada ano o planeta Terra está se aproximando cada vez mais do sol. No ritmo atual em alguns séculos o planeta poderá se tornar inabitável.
- Obrigado velha amiga. Por ser minha cúmplice. Agora minha morte finalmente terá um sentido. E obrigado a você também amiga lua por vir conosco nessa jornada.
- Eu não iria a lugar nenhum sem minha amada terra mar. A lugar nenhum!
 Assim a passos mínimos eles seguiram vagando pelo espaço.
 E depois de muito tempo a terra se chocou com o sol.
 O mar morreu antes disso.
 No fim não conseguiu chegar aos braços de seu amado.
 Mas ao menos morreu tentando.
...

 Me fascinam aqueles pontinhos distantes lá no espaço. Que histórias terão sido contadas ali? Será que houve vida por lá? Quem seriam estes seres? Tantas questões...Tantas questões... Pensava um homenzinho verde olhando as pequenas e insignificantes luzinhas no céu, aonde um dia nosso minúsculo sistema solar existiu.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Valdir Pereira e os chapeuzinhos de aniversário.

- Faz um pedido e assopra as velinhas.
 Fuuuuuu!
 Balões coloridos, docinhos em forminhas de papel, pão de forma com patê, bolo com recheio doce de leite, balas de coco embaladas em papel crepom, essas e outras guloseimas cobriam a mesa de aniversário.
 Essa foi a ultima lembrança de Gilmar antes de morrer.
 Sua morte ainda é cercada de mistérios. No velório todos comentavam.
- Mas porque ele deu de usar aquele chapeuzinho de aniversário?
- Vai saber...
- Crise da meia idade?
- Pode ser...
 Gilmar tinha cinqüenta e dois anos de idade, dois filhos, mulher, casa própria, emprego estável, contas em dia, era um cidadão comum.
 Desde que fez cinqüenta anos começou a se preocupar mais com a saúde, fazer exercícios físicos, dieta saudável, estava tentando parar de beber e de fumar.
 Era conhecido por não ter um temperamento forte.
 Seu ultimo aniversário fora semana passada.
 Desde os doze ele não tinha festas de aniversário e com o passar dos anos foi ligando cada vez menos para aniversários. Cada ano que passava menos ele se importava.
 Talvez fosse porque o trabalho lhe tomasse muito tempo da vida, até mais do que os aniversários que em uma virada de segundo do relógio nos tomam mais um ano de vida.
 Porém semana passada ao chegar em casa ele foi surpreendido pela família, balões coloridos pela sala, guloseimas sobre a mesa e um estrondoso SURPRESA! O receberam para sua festa de cinqüenta e dois anos.
 A mulher, os filhos, os netos todos reunidos em volta da mesa.
 Ele se lembrou da ultima festa de aniversário, há mais de quarenta anos atrás, ficou emocionado.
- Não chora vovô – Disse sua netinha Lívia de cinco anos.
 Uma das noras em tom de brincadeira colocou um chapeuzinho de aniversário em Gilmar, afinal todos estavam usando também.
 Comeram doces, cantaram parabéns e cortaram o bolo.
 Depois de algumas horas havia somente bexigas murchas, alguns copos vazios sobre os móveis e o seu Gilmar sozinho ali parado no meio da sala pensando sobre a sua vida.
Sobre tudo que havia realizado nestes quarenta anos. Filhos. Casamento. Carreira...
Deu-se por satisfeito e foi tomar banho para dormir.
 Ao passar pela porta sentiu que algo bateu raspou no batente, era o chapeuzinho de aniversário. Tirou-o e deixou em cima da mesa.
 Na manhã seguinte levantou-se para trabalhar como fazia todas as manhãs pontualmente as 6 da manhã.
- Só você mesmo Gilmar.
- O que? – Perguntou Gilmar ainda sonolento.
- Rs – A mulher riu virando para o lado e voltando ao sono.
 Eu heim – pensou Gilmar.
 Ao chegar ao trabalho ele percebeu que algo estava fora do normal.
- Bom dia seu Gilmar. Rss – Uma funcionária disse segurando o riso.
 Gilmar continuou estranhando, todos olhavam para ele naquela manhã de sexta feira e depois disfarçavam ou deixavam escapar ao menos um sorrisinho de leve.
 Foi para sua sala.
 Ficou pensativo.
 Sob olhares e risinhos foi ao banheiro para ver se havia algo de errado.
 Olhou-se de cima a baixo no espelho procurando algo de anormal. Da sola dos pés para ver se não havia cocô de cachorro até a própria bunda para constatar que não estava cagado.
 Não viu nada de anormal.
 Voltou para a sala.
 Dessa vez os olhares já não o seguiam com tanta curiosidade.
 Mas ainda assim alguns olhavam para ele.
- Dona Ivete – Disse no telefone - venha a minha sala.
- Com licença seu Gilmar – Disse Ivete adentrando a sala do chefe.
 Ela se segurava para não rir.
- Dona Ivete, tem algo de estranho nessa empresa hoje. Você sabe me dizer porque todos estão me olhando? Por acaso tem algo estranho comigo?
- Bom seu Gilmar, acho que é por causa da sua brincadeira. A propósito, feliz aniversário.
- Brincadeira? E como você sabe sobre meu aniversário?
- Não é aniversário do senhor?
- Sim, foi ontem, mas...
- Então por isso o senhor está com esse chapeuzinho de aniversário não é?
- Chapéu?
- Sim. Na sua cabeça.
 Gilmar tateou a cabeça calva com as próprias mãos. Tinha certeza de não ter visto nada no espelho do banheiro. E ainda mais de ter tirado o chapeuzinho cretino ontem após a festa.
- Tem certeza dona Ivete?
- Sim senhor. O senhor não está vendo?
 Gilmar pensou por um instante.
 Se ele falasse que não, ou seria dado como louco ou como brincalhão.
 Dos males o menor – Pensou.
- Ah sim, hehehe é só uma brincadeirinha para descontrair – Respondeu em tom jocoso.
 A secretária sai da sala.
 E agora? – Gilmar pensou.
 Ele tateou a careca novamente por alguns minutos tendo a certeza de que não havia nada no topo da sua cabeça. Olhou seu reflexo na janela e também não viu nada de chapéu.
- Ou todo mundo está maluco ou eu estou!
 Ligou para a mulher.
- Eunice, que fim levaram aqueles chapeuzinhos da festa de ontem?
- Alguns eu dei para as crianças brincarem e o resto eu joguei no lixo. Menos o que você estava usando de manhã, não me diz que você foi trabalhar com ele na cabeça Gilmar hahahaha!
- Eu? Ta doida mulher?! – Respondeu Gilmar tentando disfarçar o nervosismo.
 Desligou o telefone e permaneceu em sua sala.
 O telefone toca.
- Seu Gilmar, a sala de conferencia está liberada para a reunião das dez da manhã.
- Dona Ivete, pode cancelar. Eu não estou me sentindo muito bem.
- Sim senhor. O senhor precisa de alguma coisa? Está tudo bem?
- Não, não. Obrigado dona Ivete.
 Gilmar estava em pânico.
 Ou aquilo era uma brincadeira coletiva ou ele realmente havia surtado.
 Mas todos combinarem de imaginar que ele estava com chapeuzinho de aniversário? Isso é no mínimo estranho.
 Muito estranho.
 Só podia ser uma brincadeira de mau gosto. E ele já imaginava quem poderia ter tido a idéia da brincadeira.
 Pegou o telefone.
- Dona Ivete cancele minha agenda para hoje, eu vou voltar para casa.
- Sim senhor.
 Saiu da sala e foi em direção a portaria da empresa.
 No caminho escutava o zum zum zum e sabia que estavam falando dele.
 Que brincadeira de mau gosto. Onde já se viu. Fingir que alguém usa um chapéu imaginário. Tsc. Só falta ser pegadinha.
- Feliz aniversário seu Gilmar – Disse o porteiro na saída.
- Você não me engana! Você é só mais um deles! – Respondeu Gilmar.
- Que mau humor – Resmungou o porteiro enquanto Gilmar se afastava.
Gilmar foi até o estacionamento do outro lado da rua pegar o carro. O atendente lhe saúda.
- Feliz aniversário patrão.
- Para você também. – Disse Gilmar em tom de chacota.
 É só mais um desses idiotas - Pensou.
 Entrou no carro e saiu a caminho de casa.
- Voltei Eunice.
- Ué. O que tá fazendo em casa essa hora? Te mandaram embora é? E tira esse chapeuzinho que você ta ridículo Gilmar.
- Você também né? Tudo parte dessa brincadeira besta. Vocês estão fazendo isso para eu pagar de otário né?
- Quem ta de brincadeira é você! Onde já se viu um homem da sua idade ficar andando por aí com chapeuzinho de aniversário. O que deu em você heim?
- Em mim nada. O que deu é em você e no pessoal do escritório. Tá todo mundo me gozando e falando feliz aniversário só porque eu estou usando um chapéu de aniversário imaginário. Admite que vocês tão de gozação para cima de mim!
- Você tá doido Gilmar! Você que me sai de casa com chapeuzinho de festa de criança e encrenca com os outros? Quer começar a brincadeira e depois não agüenta é?
- Chapéu? QUE MERDA DE CHAPÉU?! Eu não to com porra de chapéu nenhum na cabeça mulher!
- Além de xarope, agora tá cego. Só pode. Olha aí na sua cabeça velho doido!
- Mas não tem nada! – Gritou Gilmar apalpando a própria cabeça.
- Gilmar, brincadeira tem hora.
- Ta, se tem chapéu na minha cabeça vem aqui e tira. Duvido.
- Eu tenho mais o que fazer do que ficar escutando suas loucura Gilmar. – Disse Eunice indo cuidar dos afazeres.
- Volta aqui. Ce vai tirar esse chapéu da minha cabeça agora!
- Vai caçar o que fazer Gilmar!
 Gilmar agarra o braço da mulher com força e diz com um olhar colérico.
- Vai tirar ou não vai!?
- Gilmar você tá me machucando!
- VAI OU NÂO VAI SUA VACA DO CARALHO!
- VOCÊ TÁ ME MACHUCANDO SEU FILHO DA PUTA!
- VAI TIRAR SIM SENHORA!
 Consumido pela raiva Gilmar joga a mulher no chão para depois se dar conta do que acabara de fazer.
- Eunice! EUNICE! Acorda Eunice.
 Eunice agora está inconsciente.
 Desesperado ele liga para a emergência.
 Dali alguns minutos batem a sua porta.
 É a policia, que fora chamada pelos vizinhos que ouviram a discussão.
- Quieto aí cidadão.
- Calma seu guarda eu só.
- Eu disse pra ficar quieto.
- Sargento. Tem uma senhora desacordada aqui no quarto!
- Bate a um rádio pra ambulância soldado.
- Sim senhor.
- Quer dizer que tu sentou a bolacha na patroa né vagabundo?
- Eu... Eu... - Gilmar estava com os nervos a flor da pele.
- Não gostou do bolo de aniversário é?
- Não é meu aniversário não senhor.
- Então porque o chapeuzinho idiota vagabundo?
- Mas eu não to com chapéu senhor!
- Tá me gozando é?
- Não senhor.
- Tira o chapeuzinho e come. AGORA!
- Sim senhor.
 Gilmar tenta tirar o chapéu de aniversário, imagina estar segurando o chapéu em mãos, depois imagina estar levando o a boca e mastigando.
- O senhor tá cego ou o que?
- Não senhor.
- Então porque não consegue tirar o chapeuzinho da cabeça? Já sei tu é um desses doido que anda fantasiado por aí. Ainda bem que chegamos a tempo. O que ce ia fazer? Decorar a dona com chantilly e cortar os pedaço dela com faquinha de bolo é?
- Não, não senhor!
- Solado algema que esse aí foi pego em flagrante.
- Sim sargento.
 A ambulância chega nesse momento e socorre Eunice.
 Gilmar tenta explicar ao delegado que fora um acidente.
 O caso é registrado como agressão por motivo fútil.
 Gilmar vai preso.
 Na prisão os internos tiram sarro dele o tempo.
- Feliz aniversário.
- Parabéns vovô.
 Ele se contém e uma hora não consegue mais se segurar.
- MAS EU NÃO TO USANDO CHAPÉU CARALHO!
 Não se passaram dois dias e ele foi encontrado morto em sua cela.
 No velório os parentes comentavam.
- Que coisa né. Mesmo assim vai ser enterrado com chapeuzinho de aniversário? Será que era ultimo desejo?
- Deve estar no testamento né.
 Os filhos inconformados choram abraçados com dona Eunice.
- Tudo por causa de um chapeuzinho de aniversário... O que foi que deu no pai de vocês! - Disse dona Eunice enquanto se desmanchava em prantos.
 Todos olhavam com reprovação para Valdir Pereira na festinha de oito anos do seu afilhado.
- Isso é coisa que se fale aqui Valdir! – Disse a mãe do garoto – Não liga pro seu padrinho não Juninho, ele sempre vem com essas conversa de coisa sobrenatural e não sei o que. Coloca o chapeuzinho aqui pra gente cantar o parabéns.
 Juninho se recusou veemente a colocar o chapeuzinho de aniversário, a mãe culpa o padrinho dele até hoje.
 Mas ambos, Valdir Pereira e seu afilhado sabem muito bem que os diabos podem estar nos locais mais improváveis, de vasinhos de planta e copinhos de xarope até chapeuzinhos de aniversário.
 Gilmar era um dos que não acreditava em demônios por isso não enxergava o que estava camuflado em sua cabeça projetando a ilusão de ser um chapeuzinho de aniversário.
 Para a nossa sorte hoje esse demônio está enterrado com o defunto, bem longe de nossas cabeças.
 Mas outros casos, mesmo que raros nunca são exceção.

 Pensou Valdir Pereira se recusando a usar chapeuzinho de aniversário e pegando mais um pratinho de bolo.

domingo, 14 de junho de 2015

Café

Ela adoça o café, o marido reclama.
Ela não adoça o café, o marido reclama.
Ela muda de marca de café, o marido reclama.
Ela volta para a marca antiga, o marido reclama.

Ela coloca veneno de rato no café, o marido não reclama... Mais.

Um casal apaixonado

 Um casal apaixonado. Dois pombinhos. Olhares cálidos. Sorrisos tímidos. Mimos. Carinhos. Juras de amor ao pé do ouvido.
 Estão em uma praça.
 Os carros passam. O barulho passa. As pessoas passam. O tempo passa. Mas para eles o momento é eterno.
 Eles só existem ali um para o outro. E para mais nada.Para o amor até o tempo para.
 Os passarinhos catam. As folhas das arvores dançam. Tudo é perfeito.
 Até a pontaria de um tiro de cocô certeiro bem na cabeça do amado.

- Pra aprender a não me trocar por qualquer vadia por aí seu filho da puta! - Resmunga uma outra pomba raivosa pousando no fio do poste vizinho.

Desejo

Seu maior desejo na vida era ver a vizinha pelada.
 Quando ela entrava no banho da janela de casa ele ouvia o som do chuveiro, sua imaginação ia longe.
 Um dia não agüentou mais ficar só imaginando e tomou coragem.
 Era sábado à tarde, ela estava sozinha na casa dela e ele na dele.
 Ele ouviu o som do chuveiro, pegou um baquinho capenga e correu para o quintal.
 Já em cima do banquinho botou a cabeça por cima do muro e contente viu o basculante entre aberto exalando vapor para fora.
 Ah, só uma frestinha! – pensa.
 Entortou a cabeça. Deitou a para um lado. Depois deitou a para o outro. Abaixou um pouquinho. Cerrou o olho esquerdo.
 Quase lá... Quase lá...
 De repente ele se assusta com o som de chave no portão e perde o equilíbrio. O banquinho tomba e ele racha a cabeça no chão duro.
 A mulher o encontra imerso em uma poça de sangue e quase tem um ataque.

 Até hoje ela não faz a menor idéia do que o marido estava aprontando.

O assalto

 Adonias andava pela rua distraído.
 Um sujeito se aproxima dele com a arma de raios em punho e anuncia:
- Isso é um assalto!
 Adonias levanta as mãos e ao se virar da de cara com um alienígena.
- Vai, vai, vai! Passa o planeta! Passa o planeta!
- Hã? Ta maluco?! O planeta não é meu não!
- Como não?! Como não?! O planeta terra pertence ao ser humano! A raça dominante!
- Não, não parceiro. O terreno aqui é tudo propriedade de Deus. A gente mora de aqui de favor.
- Ah é? E onde que eu acho esse tal de Deus?
- Bom, dizem que Deus ta no céu.
- Beleza, valeu a informação parceiro e... Desculpa o engano aí viu.
- Tudo bem. Sem problemas.
 Alguns instantes depois uma nave levanta vôo saindo detrás do supermercado. Vai ganhando altitude e explode no ar ao se chocar com um foker 100 que vinha voando do Rio para São Paulo.
 Adonias volta a freqüentar a missa no domingo seguinte. 

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Dia dos namorados

Dia dos namorados (para os namorados)

 Neste dia nós, não os solteiros, mas os namorados. Nos sentimos um pouquinho mais ansiosos.
 Eu sei, dia de namorar é todo dia.
 Mas com o diabo dessa correria, o tempo voa e nos esquecemos disso. Falta tempo. Falta vontade. Falta desejo. Falta tesão. Nem que seja só um dia, mas falta.
 Somos humanos. Não maquinas. Por isso amamos. Porque o amor é imperfeito. E cada um pode consertá-lo a maneira que achar melhor.
 Hoje acordamos ansiosos. Pensamos nas surpresas. Nos sorrisos. Nos beijos. Nos abraços. Na delicia do orgasmo. Na satisfação do sono a dois.
 Eu sei, dia de namorar é todo dia. Então que o tempo pare no dia doze de junho. Ou melhor, que dia doze de junho seja todo dia.
 Que eu sempre faça surpresas para ela e receba o dobro em troca. Que eu sempre a ame e a deseje, mesmo olhando para outras. Porque mesmo pensando nas outras, no fim eu sei que eu quero ser só dela.
 Não digo todos os dias, mas que tenhamos orgasmos juntos mais vezes por semana.
 Que o sábado ou uma quarta feira sejam dias de ficar abraçado fazendo hora na cama.
 Que as segundas sejam apenas um novo dia e não um tormento, só por eu estar com ela.
 Hoje é dia dos namorados, dia do comercio, das coisas caras. Mas dia de namorar... Ah, dia de namorar é qualquer dia!


Dia dos namorados (para os solteiros)

 Neste dia nós, não os namorados, mas os solteiros. Damos risada dos otários pagando caro em tudo.
 Mesmo com aquela pontinha de ciúme.
 Fazer o que.
 Ficar pensando na minha paixão platônica? Lembrar que meu habitat natural é a gélida e cruel friend zone? Conjugar o verbo transar no meu próprio tempo verbal? Seria algo mais ou menos assim?
 Eu transo (e ninguém acredita), você transa (não comigo), ela transa (com outro), nós transamos (na minha imaginação), vocês transam (e não me deixam nem espiar), eles transam (afinal agora os tempos são outros).
 Pensando bem... Melhor não.
 Melhor pensar positivo porque estar sozinho tem suas vantagens.
 Dentre elas:
 Economia, sem lugares chatos para ir (só pra agradar a moça), não se importar com chulé, banho, suor ou peidar alto.
 Ter mais espaço na porra da cama de solteiro.
 Jogar vídeo game até os dedos caírem.
 Ver pornô sem culpa.

 Dia dos namorados é um dia por ano.
 Já o dia de ser feliz, dia de ser feliz é todo dia.


sexta-feira, 5 de junho de 2015

Mercado

 Sentado com um amigo na entrada do mercado converso animadamente sem me preocupar com o tempo.
 Pessoas adentram o mercado e algum tempo depois saem abarrotadas de sacolas e dividas nos cartões.
 Uma moça com guarda-chuva está parada a espera de alguém há algum tempo.
 Continuamos a conversa com uma ou outra olhada para a moça de guarda chuva.
 Passados uns dez minutos ele vem até nós e pergunta as horas.
 Ela é gatinha – Penso.
 Meu amigo lhe diz as horas, aproveitando o mote ela educadamente pede para usar o celular.
 O celular dele estava sem créditos, prontamente ofereço o meu.
- Porque as pessoas não andam mais com cartões telefônicos? O celular em vez de acudir emergências agora só serve para joguinhos e bater papo furado. E quando a gente realmente precisa deles a bateria acaba ou os acabam os créditos. – Pensei – Ela é gostosa – Pensei de novo.
 Enquanto ela fala ao celular da uma bronca no pai e o mistério é revela. Ela estava esperando o pai vir buscá-la de carro.
 Ela agradece devolve o celular e fica por perto, talvez esperando que um de nós puxe assunto ou peça o número dela em troca como a maioria dos caras faz.
 Mas isso não acontece.
 Porque somos tímidos?
 Talvez.
 Mas às vezes me pergunto se toda a mulher bonita que vemos é uma “presa” em potencial.
 Nós homens somos influenciados desde pequenos com a visão do mundo como um grande açougue em que as mulheres são como peças de carne só esperando para serem degustadas.
 Não que eu pense de forma tão distante disso. Na mente de cada um é permitido pensar o que quisermos. Agora o que desses pensamentos vão se concretizar em ações é que o deve ser moderado. Talvez por isso sejamos humanos. Não seguimos somente os instintos cegamente. Temos a capacidade de questionar.
 Vestidinho, all star sem meia, cabelinho chanel... Ela é uma gracinha – Continuo pensando.
 De repente ela se afasta em direção a um carro que para na rua e entra.
 Nós continuamos sentados no mesmo lugar, agora comentando sobre o fato.
 Se era uma oportunidade ou mero acaso eu não faço idéia.
 Sei que às vezes eu penso demais. Ou de menos. Quem sabe.
 Passados alguns quartos de hora entra em cena um sujeito maltrapilho. Ele fica por ali pedindo uma “ajudinha” para os clientes que saem do mercado em direção a suas casas quentinhas e confortáveis com mantimentos para uma farta refeição. E o homem ali pedindo ajuda para onde voltará? Para a rua? A noite é fria e chuvosa. Ninguém lhe da atenção. Ele se dirige de forma alegre e mesmo não recebendo nada agradece.
 As pessoas continuam passando, somente nós e o maltrapilho são personagens fixos na cena.
 Algumas lhe dão atenção, outras não.
 Ele canta, brinca, parece feliz.
 Comento sobre o fato discretamente com meu amigo.
 Um sujeito com as mãos cheias de sacolas passa e o homem lhe pede uma “ajudinha”,  o sujeito lhe responde de forma grosseira e ao mesmo tempo realista e sincera.
- É seu filho da puta! Toma vergonha nessa sua cara, deixa sua filha sozinha em casa para vir aqui pedir dinheiro para tomar cachaça! Eu sei que você mora ali embaixo, tu não me engana não seu filho da puta!
 E segue rumo ao ponto de ônibus.
 Comentando sobre o acontecido rimos descaradamente.
 O maltrapilho agora desmascarado se irrita e começa a falar um monte de coisas que não damos atenção, até perceber que ele fala conosco.
 Quantas vezes não somos enganados pelas aparências, falando de corrupção a nível nacional esquecendo-se que existem corruptos em todo o lugar e que até nós mesmos somos corruptos.
 O sujeito xinga e fala um monte de coisas sem sentido como se nossa gargalhada fosse o real motivo da sua vergonha.
 Eu sei que não é cordial rir da desgraça alheia.
 Ou apontar o dedo quando não somos tão melhores assim que os outros.
 Mas infelizmente eu não posso mudar o mundo, quando muito minhas atitudes. O mundo está aí do jeito que está ou você mergulha nele no meio de toda a bosta ou fica olhando de fora, sozinho.
 Nos retiramos da cena e o sujeito continua a xingar de longe.
 Nos dirigimos para nossas casas, quentinhas e cheias de mantimentos para uma farta refeição.
 O sujeito eu não sei que fim levou.
 Só sei que minha consciência está tranquila.
 Porque a mocinha aparentava ter menos de 18.