- Faz um pedido e assopra as velinhas.
Fuuuuuu!
Balões coloridos,
docinhos em forminhas de papel, pão de forma com patê, bolo com recheio doce de
leite, balas de coco embaladas em papel crepom, essas e outras guloseimas
cobriam a mesa de aniversário.
Essa foi a ultima
lembrança de Gilmar antes de morrer.
Sua morte ainda é
cercada de mistérios. No velório todos comentavam.
- Mas porque ele deu de usar aquele chapeuzinho de
aniversário?
- Vai saber...
- Crise da meia idade?
- Pode ser...
Gilmar tinha cinqüenta
e dois anos de idade, dois filhos, mulher, casa própria, emprego estável,
contas em dia, era um cidadão comum.
Desde que fez
cinqüenta anos começou a se preocupar mais com a saúde, fazer exercícios físicos,
dieta saudável, estava tentando parar de beber e de fumar.
Era conhecido por não
ter um temperamento forte.
Seu ultimo
aniversário fora semana passada.
Desde os doze ele não
tinha festas de aniversário e com o passar dos anos foi ligando cada vez menos
para aniversários. Cada ano que passava menos ele se importava.
Talvez fosse porque o
trabalho lhe tomasse muito tempo da vida, até mais do que os aniversários que
em uma virada de segundo do relógio nos tomam mais um ano de vida.
Porém semana passada
ao chegar em casa ele foi surpreendido pela família, balões coloridos pela
sala, guloseimas sobre a mesa e um estrondoso SURPRESA! O receberam para sua
festa de cinqüenta e dois anos.
A mulher, os filhos,
os netos todos reunidos em volta da mesa.
Ele se lembrou da
ultima festa de aniversário, há mais de quarenta anos atrás, ficou emocionado.
- Não chora vovô – Disse sua netinha Lívia de cinco anos.
Uma das noras em tom
de brincadeira colocou um chapeuzinho de aniversário em Gilmar, afinal todos estavam
usando também.
Comeram doces,
cantaram parabéns e cortaram o bolo.
Depois de algumas
horas havia somente bexigas murchas, alguns copos vazios sobre os móveis e o
seu Gilmar sozinho ali parado no meio da sala pensando sobre a sua vida.
Sobre tudo que havia realizado nestes quarenta anos. Filhos.
Casamento. Carreira...
Deu-se por satisfeito e foi tomar banho para dormir.
Ao passar pela porta
sentiu que algo bateu raspou no batente, era o chapeuzinho de aniversário.
Tirou-o e deixou em cima da mesa.
Na manhã seguinte
levantou-se para trabalhar como fazia todas as manhãs pontualmente as 6 da
manhã.
- Só você mesmo Gilmar.
- O que? – Perguntou Gilmar ainda sonolento.
- Rs – A mulher riu virando para o lado e voltando ao sono.
Eu heim – pensou
Gilmar.
Ao chegar ao trabalho
ele percebeu que algo estava fora do normal.
- Bom dia seu Gilmar. Rss – Uma funcionária disse segurando
o riso.
Gilmar continuou
estranhando, todos olhavam para ele naquela manhã de sexta feira e depois
disfarçavam ou deixavam escapar ao menos um sorrisinho de leve.
Foi para sua sala.
Ficou pensativo.
Sob olhares e
risinhos foi ao banheiro para ver se havia algo de errado.
Olhou-se de cima a
baixo no espelho procurando algo de anormal. Da sola dos pés para ver se não
havia cocô de cachorro até a própria bunda para constatar que não estava
cagado.
Não viu nada de
anormal.
Voltou para a sala.
Dessa vez os olhares
já não o seguiam com tanta curiosidade.
Mas ainda assim
alguns olhavam para ele.
- Dona Ivete – Disse no telefone - venha a minha sala.
- Com licença seu Gilmar – Disse Ivete adentrando a sala do
chefe.
Ela se segurava para
não rir.
- Dona Ivete, tem algo de estranho nessa empresa hoje. Você
sabe me dizer porque todos estão me olhando? Por acaso tem algo estranho comigo?
- Bom seu Gilmar, acho que é por causa da sua brincadeira. A
propósito, feliz aniversário.
- Brincadeira? E como você sabe sobre meu aniversário?
- Não é aniversário do senhor?
- Sim, foi ontem, mas...
- Então por isso o senhor está com esse chapeuzinho de aniversário
não é?
- Chapéu?
- Sim. Na sua cabeça.
Gilmar tateou a
cabeça calva com as próprias mãos. Tinha certeza de não ter visto nada no
espelho do banheiro. E ainda mais de ter tirado o chapeuzinho cretino ontem
após a festa.
- Tem certeza dona Ivete?
- Sim senhor. O senhor não está vendo?
Gilmar pensou por um
instante.
Se ele falasse que
não, ou seria dado como louco ou como brincalhão.
Dos males o menor –
Pensou.
- Ah sim, hehehe é só uma brincadeirinha para descontrair –
Respondeu em tom jocoso.
A secretária sai da
sala.
E agora? – Gilmar
pensou.
Ele tateou a careca novamente
por alguns minutos tendo a certeza de que não havia nada no topo da sua cabeça.
Olhou seu reflexo na janela e também não viu nada de chapéu.
- Ou todo mundo está maluco ou eu estou!
Ligou para a mulher.
- Eunice, que fim levaram aqueles chapeuzinhos da festa de
ontem?
- Alguns eu dei para as crianças brincarem e o resto eu
joguei no lixo. Menos o que você estava usando de manhã, não me diz que você
foi trabalhar com ele na cabeça Gilmar hahahaha!
- Eu? Ta doida mulher?! – Respondeu Gilmar tentando
disfarçar o nervosismo.
Desligou o telefone e
permaneceu em sua sala.
O telefone toca.
- Seu Gilmar, a sala de conferencia está liberada para a
reunião das dez da manhã.
- Dona Ivete, pode cancelar. Eu não estou me sentindo muito
bem.
- Sim senhor. O senhor precisa de alguma coisa? Está tudo
bem?
- Não, não. Obrigado dona Ivete.
Gilmar estava em
pânico.
Ou aquilo era uma
brincadeira coletiva ou ele realmente havia surtado.
Mas todos combinarem
de imaginar que ele estava com chapeuzinho de aniversário? Isso é no mínimo
estranho.
Muito estranho.
Só podia ser uma
brincadeira de mau gosto. E ele já imaginava quem poderia ter tido a idéia da
brincadeira.
Pegou o telefone.
- Dona Ivete cancele minha agenda para hoje, eu vou voltar
para casa.
- Sim senhor.
Saiu da sala e foi em
direção a portaria da empresa.
No caminho escutava o
zum zum zum e sabia que estavam falando dele.
Que brincadeira de
mau gosto. Onde já se viu. Fingir que alguém usa um chapéu imaginário. Tsc. Só
falta ser pegadinha.
- Feliz aniversário seu Gilmar – Disse o porteiro na saída.
- Você não me engana! Você é só mais um deles! – Respondeu
Gilmar.
- Que mau humor – Resmungou o porteiro enquanto Gilmar se
afastava.
Gilmar foi até o estacionamento do outro lado da rua pegar o
carro. O atendente lhe saúda.
- Feliz aniversário patrão.
- Para você também. – Disse Gilmar em tom de chacota.
É só mais um desses
idiotas - Pensou.
Entrou no carro e
saiu a caminho de casa.
- Voltei Eunice.
- Ué. O que tá fazendo em casa essa hora? Te mandaram embora
é? E tira esse chapeuzinho que você ta ridículo Gilmar.
- Você também né? Tudo parte dessa brincadeira besta. Vocês
estão fazendo isso para eu pagar de otário né?
- Quem ta de brincadeira é você! Onde já se viu um homem da
sua idade ficar andando por aí com chapeuzinho de aniversário. O que deu em
você heim?
- Em mim nada. O que deu é em você e no pessoal do
escritório. Tá todo mundo me gozando e falando feliz aniversário só porque eu
estou usando um chapéu de aniversário imaginário. Admite que vocês tão de
gozação para cima de mim!
- Você tá doido Gilmar! Você que me sai de casa com
chapeuzinho de festa de criança e encrenca com os outros? Quer começar a brincadeira
e depois não agüenta é?
- Chapéu? QUE MERDA DE CHAPÉU?! Eu não to com porra de
chapéu nenhum na cabeça mulher!
- Além de xarope, agora tá cego. Só pode. Olha aí na sua
cabeça velho doido!
- Mas não tem nada! – Gritou Gilmar apalpando a própria
cabeça.
- Gilmar, brincadeira tem hora.
- Ta, se tem chapéu na minha cabeça vem aqui e tira. Duvido.
- Eu tenho mais o que fazer do que ficar escutando suas
loucura Gilmar. – Disse Eunice indo cuidar dos afazeres.
- Volta aqui. Ce vai tirar esse chapéu da minha cabeça agora!
- Vai caçar o que fazer Gilmar!
Gilmar agarra o braço
da mulher com força e diz com um olhar colérico.
- Vai tirar ou não vai!?
- Gilmar você tá me machucando!
- VAI OU NÂO VAI SUA VACA DO CARALHO!
- VOCÊ TÁ ME MACHUCANDO SEU FILHO DA PUTA!
- VAI TIRAR SIM SENHORA!
Consumido pela raiva
Gilmar joga a mulher no chão para depois se dar conta do que acabara de fazer.
- Eunice! EUNICE! Acorda Eunice.
Eunice agora está
inconsciente.
Desesperado ele liga
para a emergência.
Dali alguns minutos
batem a sua porta.
É a policia, que fora
chamada pelos vizinhos que ouviram a discussão.
- Quieto aí cidadão.
- Calma seu guarda eu só.
- Eu disse pra ficar quieto.
- Sargento. Tem uma senhora desacordada aqui no quarto!
- Bate a um rádio pra ambulância soldado.
- Sim senhor.
- Quer dizer que tu sentou a bolacha na patroa né vagabundo?
- Eu... Eu... - Gilmar estava com os nervos a flor da pele.
- Não gostou do bolo de aniversário é?
- Não é meu aniversário não senhor.
- Então porque o chapeuzinho idiota vagabundo?
- Mas eu não to com chapéu senhor!
- Tá me gozando é?
- Não senhor.
- Tira o chapeuzinho e come. AGORA!
- Sim senhor.
Gilmar tenta tirar o
chapéu de aniversário, imagina estar segurando o chapéu em mãos, depois imagina
estar levando o a boca e mastigando.
- O senhor tá cego ou o que?
- Não senhor.
- Então porque não consegue tirar o chapeuzinho da cabeça?
Já sei tu é um desses doido que anda fantasiado por aí. Ainda bem que chegamos
a tempo. O que ce ia fazer? Decorar a dona com chantilly e cortar os pedaço dela
com faquinha de bolo é?
- Não, não senhor!
- Solado algema que esse aí foi pego em flagrante.
- Sim sargento.
A ambulância chega
nesse momento e socorre Eunice.
Gilmar tenta explicar
ao delegado que fora um acidente.
O caso é registrado
como agressão por motivo fútil.
Gilmar vai preso.
Na prisão os internos
tiram sarro dele o tempo.
- Feliz aniversário.
- Parabéns vovô.
Ele se contém e uma
hora não consegue mais se segurar.
- MAS EU NÃO TO USANDO CHAPÉU CARALHO!
Não se passaram dois
dias e ele foi encontrado morto em sua cela.
No velório os
parentes comentavam.
- Que coisa né. Mesmo assim vai ser enterrado com
chapeuzinho de aniversário? Será que era ultimo desejo?
- Deve estar no testamento né.
Os filhos
inconformados choram abraçados com dona Eunice.
- Tudo por causa de um chapeuzinho de aniversário... O que
foi que deu no pai de vocês! - Disse dona Eunice enquanto se desmanchava em
prantos.
Todos olhavam com
reprovação para Valdir Pereira na festinha de oito anos do seu afilhado.
- Isso é coisa que se fale aqui Valdir! – Disse a mãe do
garoto – Não liga pro seu padrinho não Juninho, ele sempre vem com essas
conversa de coisa sobrenatural e não sei o que. Coloca o chapeuzinho aqui pra
gente cantar o parabéns.
Juninho se recusou
veemente a colocar o chapeuzinho de aniversário, a mãe culpa o padrinho dele
até hoje.
Mas ambos, Valdir
Pereira e seu afilhado sabem muito bem que os diabos podem estar nos locais
mais improváveis, de vasinhos de planta e copinhos de xarope até chapeuzinhos de
aniversário.
Gilmar era um dos que
não acreditava em demônios por isso não enxergava o que estava camuflado em sua
cabeça projetando a ilusão de ser um chapeuzinho de aniversário.
Para a nossa sorte hoje
esse demônio está enterrado com o defunto, bem longe de nossas cabeças.
Mas outros casos,
mesmo que raros nunca são exceção.
Pensou Valdir Pereira
se recusando a usar chapeuzinho de aniversário e pegando mais um pratinho de
bolo.