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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Latinha

Durante o dia todo, todos os dias, os ônibus chegam e partem do ponto final em frente à padaria.
 O fiscal e os motoristas fazem daquele local uma morada temporária até o fim dos seus turnos. E quando todos se vão a única moradora fixa do ponto de ônibus permanece lá.
 Uma vira lata preta.
 Ela não tem nome, afinal, até onde eu sei os cachorros não dão nome uns aos outros. Porém os funcionários da empresa de ônibus a chamam de latinha.
 Dão-lhe comida atenção e sempre arranjam uma caixa de papelão nova para servir-lhe de abrigo.
 Começo de noite.
 Mais um ônibus lotado chega ao ponto. As pessoas se preparam para descer quando um sujeito se aproximando do veículo anuncia:
- Desce, desce, desce que eu vou taca fogo no busão!
 Já foi subindo no coletivo com um galão de gasolina e a arma em punho.
- Aí “moto”, fica na sua meirmão! - Disse rendendo o motorista - Vai todo mundo virar churrasquinho!
 Um vulto preto entra correndo pela porta do ônibus e CRAU! Latinha dá uma mordida bem no saco do bandido que cai no chão de tanta dor. Tempo de o motorista dar um tapa no botão de acionamento das portas e os passageiros começarem a sair em pânico.
 A cachorra rosnando em fúria não largava o bandido por nada. E esse mesmo atordoado pela dor ainda consegue alcançar a arma e PAU!
 Um tiro abre um buraco na cabeça da cachorra.
 O galão de gasolina que ele trazia, na confusão já estava no chão e a gasolina se espalhara.
 A essa altura todos já estão fora do coletivo, mas o homem ainda está armado.
 Chuta o cadáver da cachorra que esvaia em sangue, levanta urrando de dor.
 Desce do ônibus com a arma em punho olhando para todos os lados procurando seu comparsa que já havia fugiu.
 Possesso de raiva mira no cadáver da cachorra que jazia perto da porta e da mais um tiro.
 PAU!
 A bala ricocheteia no chão metálico do ônibus e provoca uma pequena fagulha
 A gasolina que já havia se espalhado pelo chão se incendeia e “VLUF”! Uma nuvem de fogo se forma no ar. Fogo que também atingiu o meliante que não havia notado que estava com as calças empapadas de gasolina.
 Larga a arma enquanto tenta tirar as calças em chamas desesperado, ignorando até a dor colossal que sentia em seus testículos.
 A polícia chega a tempo de acudir o meliante antes de leva-lo preso.
 Quem não teve a mesma sorte foi a cachorrinha latinha.

 Com seu ato heróico salvou algumas vidas em troca da própria.
 O fato foi noticiado na televisão, latinha foi considerada heroína.
 Porém, até onde eu sei os cachorros não se importam em ser notícia.
 E naquela noite os cães do bairro uivaram gemidos tristes, como se soubessem que um dos seus, havia partido.

sábado, 25 de abril de 2015

Suicida

 Decidiu que a vida não valia mais a pena e resolveu se matar por isso lá estava ele sentado na mureta do viaduto.
 Outro homem se aproxima, contempla o horizonte com seu semblante amargurado e cinzento.
- Você não vai me impedir! Se chegar mais perto eu pulo!
- Ta bom, vai. Não é meu parente mesmo. – Responde o homem acendendo um cigarro.
- Olha que eu vou mesmo! Minha vida não vale nada. – O pretendente a suicida começa a desabafar - Minha mulher me trocou por outro, a empresa me mandou embora. Não me resta mais nada nesse mundo! A vida que eu construí com tanta dedicação. Anos de estudo. Faculdade! Tudo para que?  Para ser descartado feito papel higiênico usado. Vê? PAPEL HIGIÊNICO USADO! Porque até o cocô tem serventia nesse mundo. Mas papel Higiênico usado? Não! Quando ta limpo ainda serve pra limpar a bunda, e depois? Depois é lixo. E é o que eu sou agora, um papel higiênico usado!
- Ta, ta. Não me torra o saco e pula logo. – Diz o outro após soltar uma baforada de fumaça pelo nariz.
- Mas sabe, podia tudo ter sido diferente. A minha vida. Eu troquei minha vida pela carreira. Meu sonho, eu abri mão até do meu sonho de ser artista, pela empresa. Entrei lá como oficce boy e cheguei a gerente de área. Sabe o que é isso?
- Não, e não me interessa. – Diz o outro dando uma tragada, sem tirar os olhos do horizonte.
- Um dos cargos de chefia mais importantes! Mais um ano eu ia chegar à diretoria! Mas não. Preferem um cara novinho, só porque ele fala inglês sabe? Você fala inglês?
- Não.
- E a minha mulher? Quantas fodas e noitadas eu perdi? Quantos amores? Eu! Eu que me descobri gay! Reprimi minha satisfação sexual para não fazer feio aos olhos da sociedade. Eu me casei com uma mulher mesmo desejando não só um, mas vários homens! Dei minha vida pelo meu casamento, trabalhei igual um condenado para dar a ela do bom e do melhor. E como ela me retribuiu? Com um par de chifres. UM PAR DE CHIFRES! E ainda me disse que eu tenho pinto pequeno. Você acha que eu tenho pinto pequeno? Olha!
- Virá essa merdinha pra lá oh “fila da puta”!
- Merdinha? Eu sabia. Eu sabia, ela me deixou porque eu tenho pinto pequeno! Elas dizem que tamanho não importa. Mentira! Agora sou corno, desempregado e tenho pinto pequeno!
 O outro dá uma tragada profunda seguida de uma baforada de fumaça visível no sereno da madrugada.
- Olha, eu ia ficar quieto só pra ver você se estatelar feito bosta lá embaixo, mas vou te contar uma coisa. Eu tenho câncer no reto. E não é do tipo que da pra curar. E do tipo que vai me matar! – Ele olha para o pretendente a suicida - Imagine o que resta de dignidade para um homem que não pode cagar sem urrar de dor. Antes eu ia ao banheiro na santa paz, na sagrada solidão, na divina privacidade do banheiro e agora, agora eu não consigo mais ter o prazer de uma cagada! Eu to condenado. Eu vou morrer! E sem nunca mais dar uma cagadinha sem urrar de dor.
 O suicida olha perplexo.
- Pois é. – Continuou o homem - O que você perdeu você pode reconquistar. O que você perdeu da pra repor. E a minha vida? Quem vai repor? Deus? Eu não acredito nessas merda de reencarnação e o escambal. Se matar é simples, o problema é quando você não morre. O problema é quando você descobre que a morte está fungando no seu cangote, jogando sua vida pelo ralo e você não pode fazer porra nenhuma a não ser acender um cigarro e esperar a próxima sessão de dor e sofrimento.
- Mas... O que eu tenho? Eu perdi tudo!
- Você tem duas opções. Levantar e ir à luta. Ou se estatelar lá embaixo feito bosta. O que vai ser?
- Eu...eu...
- Já imaginou a dor do seu crânio estourando na pancada? O sangue escorrendo pela calçada? Os cachorros comendo seus miolos e a multidão de curiosos em volta? E não se esqueça da televisão, ah aqueles amam uma tragédia. Só aproveita que a fama dura pouco. E daqui um mês ninguém vai nem saber quem era você. Sua mulher vai estar dando pra outro feliz da vida. Sua empresa já achou uma nova engrenagem para substituir você. E você lá no caixão sendo comido pelos bichos achando que sua falta faz alguma diferença pro mundo. – Mais uma tragada - Faz um favor, levanta daí e vai viver a merda da sua vida ou se joga logo antes que eu vá aí e te empurre.
- Porra cara...Caralho – disse o suicida em prantos – Você me convenceu cara. Eu tenho muito pra viver. Eu posso dar a volta por cima. Ir em frente.
 O suicida se vira para passar para dentro da murada e de repente um escorregão fatal.
 AAAAAAAAAAAAAAAA!
 O outro vê a cena sem se manifestar.
 Um estrondo rompe o silêncio da madrugada despertando os mendigos debaixo do viadulto.
 O outro olha no celular a hora, o dia já vai amanhecer, joga a bituca de cigarro no chão e sai andando sem alterar seu semblante.
 Caminha em direção ao hospital para ver a cara de piedade do médico incapaz de salvar sua vida.
 Vê um cachorro cagando na calçada.

 - Feliz é você cachorro!

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Às vezes dá vontade.

Sexta feira começo de noite e eu no ônibus cheio.
 Pelo menos eu estou sentado, pensei.
 Quando uma moça entra com uma caixa de esfirras nas mãos e senta alguns bancos à frente.
 Seria só mais uma passageira não fossem as esfirras.
Volta e meia é a mesma coisa, eu com fome e entra um com esfirra no busão, devia ser proibido entra com esfirra no ônibus. Sente só esse cheiro impestiando tudo.
 Da vontade de comprar também só para ter o prazer de fazer isso.
 Por pura maldade.
 Todo mundo com fome e da-lhe eu entrando no ônibus com uma caixinha de esfirra na mão.
 Olha que coisa linda!
 Todos famintos querendo chegar em casa rápido, pensando na comida da mulher ou que vão ter que preparar a própria. Salivando com água na boca e eu de boa com minha caixinha de esfirras exalando o cheiro da fome no ar.
 E digo mais.
 Não vou nem esperar chegar em casa.
 Vou comer no busão mesmo!
 Só para ver os olhares compridos dos outros com inveja!
 E que essa moça esteja no ônibus nesse dia, só para saber o que eu estou passando agora!
 Eu faço, ah eu faço!

 Segunda de manhã, eu saio de casa.
- Putz, pisei na merda...Tsc! Caralho!
 Volto para dentro de casa para trocar de tênis.
 A noite chegando em casa encontro a vizinha passeando com o cachorro. O criminoso volta a cena do crime, e ainda estava cometendo o mesmo delito de novo.
- Poxa, mas bem no meu portão? – Reclamo.
- Desculpa moço, é que ele só faz na rua sabe.
- Tudo bem, mas você podia andar com um saquinho pra recolher o cocô não?
 Ela dá um sorriso amarelo, se desculpa de novo e vai para a casa dela.
 Na manhã seguinte, saio de casa e uma visita me aguarda no portão.
 Outros montinhos de cocô do cachorro da vizinha.
 Isso é folga demais.
 Agora só falta ela tocar a campainha para eu ir recolher.
 Continuei irritado, mas relevei.
- Nossa que calçada porca. Imagina dentro de casa.
 Dizia mãe da dona do cachorro para outra vizinha da laje ao lado.
 Ouvir isso foi a gota da água.
 Eu estava atrasado e não tinha dado a minha cagada matinal, resolvi usar isso a meu favor.
 Abaixei as calças, agachei na calçada da vizinha e o resto você já pode imaginar.
 E depois ainda toquei a campainha deixando um bilhetinho.
 “Desculpa, mas é que eu só faço na rua sabe”.
 Nunca mais encontrei cocô na minha calçada.

 Cocô não, mas coisa pior sim.
 Chegando em casa um carro com som alto incomodava a todos na rua.
 E o bonito ainda estava estacionado bem na minha calçada.
 Olhei feio para as pessoas em volta do carro que me ignoraram.
 Resolvi que não ia me irritar com isso.
 Abri o portão e entrei em casa com toda a calma e tranqüilidade do mundo.
 E vocês nem sabem o que aconteceu?
 Minha geladeira caiu da laje de casa bem cima do carro.
 Que chateação... Amanhã vou ter que comprar uma nova.
 E o pior...
 É que não matou ninguém.


 Sabemos que eu não faria isso realmente, mas que dá uma vontade. Tem hora que dá!

domingo, 19 de abril de 2015

Um Valdir Pereira e um cigarro.

 Everton trabalha no banco, fez faculdade de economia, tem mulher, três filhos e um maço de cigarros no bolso.
 Começou a fumar lá pelos quinze anos de idade.
 Afinal quem não queria o glamour de segurar um cigarrinho entre os dedos, ou bancar o fodão olhando como cara de mau enquanto fala e acende o cigarro na boca.
 Irresistível não?
 Agora cá está ele com 35 anos, gerente de banco, nunca parou de fumar.
 No começo eram um ou dois cigarrinhos por dia, fumava socialmente como costumam dizer. Hoje dois maços ao dia é pouco. Acende um cigarro a cada quinze minutos se deixar.
 Acorda fuma. Toma café fuma. Entra no carro fuma. Antes de trabalhar fuma. Toma mais café, fuma. E por aí vai.
 Usa o estresse da profissão como desculpa para seu habito não saudável.
 Porém de uma semana para cá a coisa foi ficando cada dia pior.
 Acorda fuma. Fuma, toma café, fuma de novo. Mal termina um acende outro. A mulher está preocupada.
- Everton ce tá fumando demais, nem eu agüento mais esse fedo de cigarro dentro de casa, mais um pouco e chamam o bombeiro por causa de tanta fumaça.
 - Não enche mulher.
 E acende mais um.
 Seu supervisor no banco teve de intervir.
- Everton, você não trabalha mais cara. A cada dez minutos sai pra fumar. Assim eu vou ter que te afastar. Procura um médico cara.
 Everton fervia por dentro como água pra fazer café (e até essa metáfora deu-lhe vontade de fumar).
 Com sua respiração ofegante e voz rouca ele respondeu.
-Tá bom chefe. Tá bom. Cof! Cof!
 Se no trabalho estava ruim em casa ele ia de mal a pior, há dois meses não transava com a mulher. Faltava fôlego até para subir um lance de degraus quanto mais para praticar sexo. A mulher propôs que ele ficasse por baixo, mas na hora H seu amigo falhou. Estava mais mole que gelatina.
 Preocupado ele acendeu outro cigarro, depois mais um e mais um, não dormiu aquela noite. Lá pela seis da manhã cochilou um pouco.
 Acordou com a mulher em pânico e um cheiro de queimado no ar.
- Everton seu pá tá em brasa!
- Eita. Pega um balde da água rápido!
 As crianças vieram correndo ver o que estava acontecendo com o pai.
- Pai, pai!
- Não olha filho! Não olha!
 A mulher chega com um balde de água e chuaaa! Despeja em cima do pé em brasa.
 De nada adianta, um fumaceiro sobe e o pé continua em brasa, só que agora parecia queimar ainda mais rápido! Já começou a subir para canela e o pé já se desfaz feito cinza.
 O estranho é que Everton não sentia dor, mas que o pé estava queimando estava.
 A fumaça escura vai tomando conta do quarto, o homem vê seus membros inferiores se desfazendo em cinzas.
- Saiam daqui! E chamem os bombeiros! Cof! Cof! Você vão desmaiar– Gritou Everton com sua voz rouca, desmaiando logo em seguida devido a fumaça.
- Socorro! Socorro! - A mulher gritava ainda de camisola na calçada – Chamem os bombeiros, meu marido tá pegando fogo!
 Um homem vem correndo do nada e entra na casa enfumaçada. Deixa uma sacola com pão e leite que trazia da padaria caída no caminho.
 Adentra a cozinha e vê que a fumaça vem do andar de cima.
 Pega um pote de vidro em cima do armário e sobe correndo as escadas.
 Entra no quarto sem ver quase nada por conta da fumaça, a não ser pequenas chamas que ardiam em cima do colchão queimado recoberto por cinzas.
- Vamos! Eu sei que você tá aí! Cof! Cof!
- Hahahaha vejam se não é Valdir Pereira!
- Eu mesmo! Cof! Cof!
- O que foi não agüenta uma fumacinha meu velho?
- Cof! Cof! Não, eu prefiro ar puro! – Diz Valdir Pereira quase engasgando.
- Tudo bem, eu já acabei por aqui, fumei o tiozinho até o talo!
- Como é que é? Cof! Cof!
- Eu disse que eu fumei o cidadão aí.
- Chega mais perto! Cof! Não to ouvindo! Cof! Cof!
- Desgraça... EU DISSE QUE...AAAAAA!
- Um diabo do fumo! – Disse Valdir Pereira rosqueando a tampa do pote de vidro em suas mãos.
 Toc! Toc! Um capetinha feito de fumaça preta gritava dentro do vidro algo inaudível.
 Provavelmente algo como: “Maldito seja Valdir Pereira!”.
 Com o pote em mãos, Valdir Pereira desceu as escadas e foi para o quintal atrás de ar puro.
- Não há mais nada a fazer. Cof! Cof! Ele foi fumado.
- Fumado! Como?!
- Ele acumulou tanta nicotina e fumaça de cigarro dentro do corpo que acabou atraindo uma coisa que eu chamo de diabo do fumo. É uma criatura que costuma andar atrás dos ônibus e caminhões velhos para comer fumaça de escapamento. E seu marido, creio eu, um fumante excessivo. É uma iguaria muito apreciada por diabos do fumo.
- Meu marido fumou tanto que virou cigarro!?
- Tecnicamente sim, um cigarro humano.
- Aaaaaaaa! – A mulher abraçou as crianças aos prantos.
 Valdir Pereira se abaixou e pegou sua sacola com pão e leite no chão. Ao longe já dava para ouvir a sirene dos bombeiros. Ele não podia fazer mais nada.
 Em casa Valdir Pereira daria um fim ao diabo do fumo. Porém este era só um, sabe-se lá quantos mais existem a solta por aí.
 Nossa atmosfera poluída é um banquete infinito para eles. E os fumantes são um aperitivo a parte.
Quando não morrem antes.

 Por isso eu não fumo, pensou Valdir Pereira indo para casa tomar o seu café da manhã. 

quarta-feira, 15 de abril de 2015

A semana

Terça e quarta feira estavam sentadas à mesa com cara de nada.
A quinta feira não parava de olhar para sexta, a mais desejada da semana.
Sexta é manhosa, começa o dia sonolenta e acaba virando a noite com o sábado. 
Sábado que estava de ressaca e acabou vomitando o domingo inteiro. Talvez seja por isso que o domingo está de cara feia...
Até que a segunda feira, que todos achavam que estava longe e ia chegar atrasada, chega bem no finalzinho do domingo.

 Pontualmente.
 Para avisar que amanhã, o dia é dela.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Musa

Ela está no auge dos seus 20 anos.
 Olhos azuis, cabelos loiros presos com rabo de cavalo, mechas caindo sobre seu lindo rosto.
 Pela clara e seios fartos por debaixo da roupa azul colante, tão colante que deixava a visão daquela bunda ainda mais saborosa.
 Como alguém pode ter coragem de colocar uma mulher tão linda como essa aqui? A mercê de tantos perigos? Monstros, aliens, dinossauros, seres humanos perversos...
 Não, eu não posso deixa-la mais um minuto sequer aqui em meio a esse caos.
 Perdida, sozinha, batalhando para sobreviver em um mundo estranho.
 Ela vestiu sua armadura dourada e foi à luta!
 Essa é a minha deixa, eu vou ajuda-la, salva-la de todos os perigos e no final, ah no final...

 Eu zero esse bendito jogo difícil do caralho!

sábado, 11 de abril de 2015

Tédio

Dentro do ônibus estou a salvo das conversas alheias protegido pelos meus fones de ouvido. Porém, às vezes não basta só música alta para matar o tédio, ou olhar a paisagem pela janela.
 Como não sou adepto da internet móvel, um dos meus passatempos no coletivo é inventar histórias para os passageiros.
 Vejam por exemplo aquela mulher, aquela ali que está passando na catraca. Olhos cansados, mãos calejadas, voltando de algum lugar no meio da tarde. Será que ela se chama Tereza?
 Tereza com seus 35 anos, dois filhos em idade escolar. Trabalha de empregada doméstica para sustentá-los. Separou-se do marido, Pedro Silva. Alcoólatra, passa os dias no bar e a trai com a mulher do Paulão do fim da rua. Paulão nunca desconfiou da própria mulher, ou do amigo, a rua diz que ele sabe, mas não liga. Que é um corno manso.
 Por isso Tereza saiu de casa e voltou a morar com a mãe, está juntando dinheiro todo o mês para fazer um puxadinho.
 E não quer mais saber de homem nenhum. Quer comprar um gatinho e uma máquina de lavar roupa na promoção da casa Bahia.
 Ou é o que ela quer eu pense.
 Tereza seria apenas um codinome civil? Na verdade ela é z3v85jk38, espiã do planeta Vênus que está em missão analisando os hábitos dos nativos do bairro de Americanópolis para uma possível invasão a Terra, que vai começar pelos paises do terceiro mundo. Sempre receptivos com os estrangeiros e com defesas e exércitos fracos.
 Tereza se senta no banco alto, meu olhar agora está focado em uma loira de pele bronzeada. Short branco curto, pernas grossas, chinelinho com plataforma, tatuagem perto do rego. Adora blusas de frente única e calça de cintura baixa, pois faz questão de mostrar a tatoo.
 Será que o nome dela é Flávia?
 Flavia, ou Flavinha delicia para os mais chegados, vai à academia todos os dias, cursa faculdade de administração e trabalha de recepcionista em um consultório.
 Hoje ela recebeu uma proposta indecente para fazer filme pornô. Ser desejada pelos homens, invejada por algumas mulheres, grana alta, daria para quitar a faculdade e fazer uma boa poupança. Recusou a idéia dizendo que era uma moça de família, gente descente e temente a Deus.
Porém ela não parou um instante de fantasiar com a idéia.
Flavia olha para mim de rabo de olho, desconfiada, como se soubesse o que eu estou pensando.
Por sorte é meu ponto, desço antes que ela tenha tempo de pensar alguma coisa sobre mim.

E eu nem quero saber o que.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Valdir Pereira e a loira do banheiro.

Começou com um banheiro sujo.
 As bactérias se proliferavam para todos os lados.
 Dentro dos ralos, privadas, lixeirinhos e até nas frestas dos azulejos.
- Aí que nojo de banheiro! – Ela gritou agoniada – Mas eu to tão apertada que vai aqui mesmo!
- Ahhhh! Que alivio...
...
- Agora só um retoque no batom e opa...Droga, borrou...
 Ela limpou com um lencinho que trazia na bolsa.
- Pronto.
 Ploft! Jogou o lencinho amassado na lata do lixo.
 Mais uma hora se passa sem ninguém limpar o banheiro da escola.
 As bactérias chegam ao seu auge evolutivo, adquirem consciência!
 Do lixeirinho que transborda de papel higiênico o lencinho cai no chão.
 Era a informação que as bactérias precisavam DNA humano!
...
- Eiita cherinho de bosta! – Disse Sérgio da limpeza - Ta mais que na hora de dar um trato nessa bichera aqui.
 Encheu o balde e enquanto colocava desinfetante na água ela surge se erguendo do chão.
 Loira, lábios carnudos, seios volumosos.
- Professora Gisele? Desculpa, mas eu to limpando aqui.
- Não tem problema não gostoso, a sujeira me deixa ainda mais a vontade.
- Como é que é?
- Eu quero você e quero agora.
- Eita lasquera. Então venha cá venha.
 Se agarraram e se beijaram.
 Porém o homem em vez de cara de satisfação fez cara de espanto e depois nojo.
 Empurrou a loira e cuspiu uma barata de sua boca. Uma gorfada e ele vomitou baratas!
- COf! Cof! Blééérg! Sua...Cof!...Sua puta! Que merda é essa?! Bléééérg!
- Hahahaha baratas humano, esse foi o primeiro ser para o qual conseguimos evoluir.
- É a loira do banheiro! - Disse uma voz que vinha de dentro de um dos sanitários.
- Bléééérg! – O faxineiro continuava vomitando baratas – Me ajude! Por favor!
- Calma aí que a coisa aqui ta foda! – Respondeu a voz.
 A loira ria e se vangloriava.
- Agora temos DNA humano! Assim podemos nos camuflar entre vocês até que nosso DNA nos faça evoluir para uma coisa melhor e mais poderosa que sua espécie! E com nossa rápida capacidade de reprodução, seremos a raça dominante!
- Só se eu deixar bicho nojento. – Gritou Valdir Pereira saltando de dentro de um sanitário.
 Pegou o balde com desinfetante e despejou em cima da loira do banheiro, que no mesmo instante começou a derreter e se deformar exalando um fedor de esgoto misturado com aroma de pinho no ar.
- Aaaaaaa!
- Vamos saia daqui – Disse Valdir Pereira arrastando o faxineiro para fora.
 A loira do banheiro, sendo reduzida a cada instante a uma massa podre e deformada se arrastava pelo chão em direção a porta.
 Ainda bem que nosso herói nunca está despreparado para situações como essa.
- Vai uma caninha coisa nojenta?
 Nisso ele tira sua latinha de “leitinho do capeta” do bolso toma um trago e depois espirra a cachaça para todos os lados.
 Saindo pela porta acende o fósforo.
Vuuuush!
 O banheiro agora está em chamas.
- Essa técnica é conhecida como vassoura de fogo! - Se vangloriou Valdir Pereira.
- E você seu inútil! O que custa fazer a porcaria do seu trabalho direito?
- Mas eu faço doutor! Cof! Cof! Acontece que esse aluno nojento mija e caga tudo fora do vaso. E não é só aqui não... Vai em qualquer lugar com banheiro público que as pessoa é o mesmo nojo! Cof! Cof! Blééérg! Pitu! – Cuspiu uma barata.
- Tem razão xará, aqui, tome isso.
- Leitinho do capeta?
- Quer jeito melhor de limpar esse seu estomago cheio de bichera?
 E os dois ficaram sentados no corredor apreciando um trago enquanto o banheiro se consumia em chamas dando fim a existência da loira do banheiro.

 Mas não a imundice humana - Pensou Valdir Pereira.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Epitáfio

Sempre gosto de pensar no que vão escrever na minha lapide, deixo aqui algumas sugestões.

Aqui jaz Rafael Grande:
Nasceu pequeno e morreu gigante.

Aqui jaz Rafael Grande:
Só vai saber como estou quando você também estiver aqui.

Aqui jaz Rafael Grande:
Então existe mesmo caixão tamanho gigante...

Aqui jaz Rafael Grande:
Podiam ter usado a caixa da geladeira, eu não ia me importar.

Aqui jaz Rafael Grande:
. (ponto final)

Aqui jaz Rafael Grande:
Ta morto, mas ta pago.

Aqui jaz Rafael Grande:
Era minha vida mesmo ou eu era só figurante no sonho de alguém? Agora eu sei.

Aqui jaz Rafael Grande:
Sua chamada está sendo encaminhada para o caixão de mensagens.

Aqui jaz Rafael Grande:
Sorria, to te vendo do além.

Aqui jaz Rafael Grande:
Não está. Quer deixar recado?

Aqui jaz Rafael Grande:
Fim.

Aqui jaz Rafael Grande:
Continua na próxima encarnação.

Aqui jaz Rafael Grande:
Ta lotado.

Aqui jaz Rafael Grande:
Não tem ninguém aqui com esse nome; Mentira tem sim.


terça-feira, 7 de abril de 2015

Ademar

 Ademar tinha um hobby no mínimo curioso, pegar filas.
 Vivia sozinho, tinha renda de casas de aluguel e muito tempo livre.
 Por isso durante a semana acordava cedo tomava café e logo ia para a rua atrás de uma fila. Seja pelo que fosse. Fila do ônibus, mercado, banco... E mesmo que ele não entrasse no local na sua vez ou usufruísse do serviço oferecido, entrava na fila.
- Com licença essa fila é pra que?
- É pra vaga de emprego.
- Ah... 
-...
- Quanta gente, né?
- É emprego ta difícil hoje em dia.
- Pois é ainda mais com essa crise.
 E o papo seguia até que fosse a vez de Ademar, que gentilmente cedia seu lugar a pessoa de trás e saia da fila.
 Muito desse costume de Ademar vinha da sua falta de amigos. Afinal filas são uma fonte de tédio e sempre tem alguém disposto a papear pra matar o tempo de espera.
 Os assuntos são os mais variados, doenças, política, futebol. Por isso Ademar está sempre antenado nas notícias e pensa até em ver a novela das nove para não faltar assunto.
 Hoje é dia de médico. Horas de espera, exames, demora... Uma festa para Ademar. 
 Só não é melhor que dia de ir ao banco. Ele até está cogitando virar oficce boy só para pegar mais filas.
 Mas Ademar está relutante por que com essa febre dos smarthfones todos na fila ficam isolados no seu mundo, ouvindo música, papeando no zap zap ou viciados em joguinhos.
 Aí fica difícil puxar conversa com alguém.
 Pra salvação de quem como eu não gosta desses chatos de fila.