"

terça-feira, 31 de março de 2015

As crônicas de Valdir Pereira : O homem com cabeça de Pipa

   Nilson se levantou como fazia todas as manhãs.
 Vestiu-se, calçou os chinelos, deu um cagão, lavou a cara e foi tomar café.
 Pegou o leite, colocou na caneca, da caneca colocou na panelinha e levou a panelinha ao fogo.
 Pegou também a manteiga colocou em cima da mesa, bateu a porta da geladeira e ao abrir o armário se deu conta que não havia mais pão.
 Espreguiçou, suspirou, pegou as chaves, umas moedas, desligou o fogo e foi à padaria.
 Era época de férias, a molecada andava por cima dos telhados e nas ruas soltando pipas. Todas com o pescoço esticado e olhar fixo no céu.
 Nilson seguia a caminho da padaria distraído e quando dobrou a esquina zaz. Uma linha com cerol corta-lhe a garganta.
 Mais que isso! Decepa-lhe a cabeça fora e essa caiu rolando pela calçada!
 Alguns pedestres corriam tão afoitos para não perder o ônibus que nem pararam para ajudar Nilson.
 Outros gritavam “alguém pega a cabeça do homem”, que a essa altura já havia rolado para dentro do bueiro.
 Nilson, agora sem cabeça tateia o chão às cegas até que encontra algo e apalpa.
 Trac trac trac.
 - Parece feito de papel - pensa.
 Sem muita escolha, pega o objeto e o coloca em cima do pescoço para usar como uma cabeça provisória.
 Tateando mais um pouco se dá conta que era uma pipa (Teria certeza ao chegar em casa e olhar no espelho).
 Perguntou para alguns homens que olhavam a cena de cima de uma laje.
- Vocês viram onde foi parar minha cabeça?
- Ih seu moço. Tua cabeça saiu rolando e caiu ali no bueiro. Já deve ta longe já.
 Um dos homens continua, agora em tom de chacota enquanto o outro não se contém de rir:
- Mas essa aí é mais maneira pô! Hahaha!
- Puta merda! - Praguejou Nilson sem dar atenção a piada - Logo hoje eu perco a cabeça, periquito que me pariu viu!! Bem que minha mãe sempre avisou que cerol não era coisa que prestava.... Que um dia eu ia me machucar por conta de pipa.... Que essa coisa de imortalidade não me deixava invulnerável a tudo! Me perdoe mãe, mas que boca do caralho a senhora tinha viu!
 E agora?
 Agora?
 Agora bola para frente, pau no gato, não adianta chorar pelo leite derramado, ou no caso, pela cabeça decapitada.
 O que está feito está feito.
 Nilson agora que se contente com uma cabeça de pipa que é melhor do que cabeça nenhuma.
 Mas não pensem que ele levou isso numa boa não.
 Mesmo podendo trocar de cabeça quando bem quisesse ele continuou a usar uma cabeça de pipa.
 E digo mais, ainda jurou vingança a todos os “pipeiros” que até hoje escutam e temem a lenda do terrível homem com cabeça de pipa.
 Da janela de sua casa que fica no alto do morro, ele fica empinando sua “cabeça” todos os dias depois do almoço - para não perder o Chaves - até de tardezinha.
 Mesmo sem usar cerol ele corta as linhas das outras pipas e até manipula os ventos para levar as pipas aonde quer, para que os garotos hipnotizados pela dança das pipas se distraiam e com uma pisada em falso caiam da laje ou correndo atrás de pipa sejam atropelados pelos carros...ou pelos ônibus, de preferência.
 E ai de quem usar cerol!
 Ele vai atrás do sujeito e corta lhe e cabeça com linha de pipa beeeeem devagaaarinho...
 Dizem que ele tem uma coleção de cabeças de meninos, todas embaladas em saquinhos do mercado e guardadas em caixas de papelão em uma geladeirinha de bar na garagem de casa.
 E ele vai continuar cortando cabeças fora até achar quem cortou a dele!
- Cê ta louco tio? Pega nada não usar um cerolzinho...
- Quando você morrer por causa disso muleque, não vai achar ruim heim. Depois o cabeça de Pipa te pega e tua mãe vai chorar lá em cima do caixão! – Disse Valdir Pereira, tomando a lata de linha de um garoto, que logo depois vai se queixar com o pai no bar.
- Bom, talvez eu tenha salvo mais um motoqueiro de ser decapitado e a vida desse guri aí...
 Pensava Valdir Pereira enquanto olhava para uma pipa vermelha feito sangue cruzando o céu a procura de novas vítimas, imersa no balé de pipas que enfeitava o céu alaranjado, ao entardecer de Americanópolis.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Tic! Tac!

07h00min
 Celular desperta. Ring! Ring!
 Bom dia para você também senhor celular, dormiu bem? Ah, esqueci que você não precisa! Por isso que me acorda!
07h05min
Ring! Ring
Só mais cinco minutos!
 07h10min
Tá bom, tá bom, to indo.
 07h15min
 Tomo café... Sono.
 08h00min
 Atrasado.
 08h15min
 Transito.
 09h10min
 Cara feia do chefe.
...
 Agora aqueles mesmos minutos que passavam correndo feito loucos, simplesmente param.
 Acho que o relógio dorme quando estou no trabalho. Cada minuto é tão apreciado por ele como por mim durante o meu sono.
 E esse o maldito passa a noite acordado, trabalhando feito condenado pra compensar o dia parado. Mal durmo, pisco e já estou acordado de novo.
 Fazer o que.
...
 09h14min
 Quero um caixão com relógio.
 Só para rir da cara dele pelo resto da eternidade.
 Por puro sarcasmo!
 Afinal quando a gente ta morto a ultima preocupação é com o tempo.
 Tempo é só pra quem ta vivo.
 09h16min
 Entre a vida e a morte, a única coisa que temos certeza é o tempo. Nem a morte é certa.
 A gente só não sabe por que ninguém volta pra contar como é estar morto.
 09h20min
 E quando volta a gente acha que é fantasma e procura um exorcista.
 09h21min
 Mais um minuto
 09h22min
 Saco.
 09h30min
 Falta muito para as 6 horas?
 10h00min
 Eu vou jogar na loteria, ficar milionário! E não vou usar mais relógio! Viverei uma vida sem tempo.
 10h05min
 Falta muito para as 6 horas?
 10h07min
 Saco.
...
13h00min
 Pi! Pi! Pi!
 A marmita fica aí esquentando e girando até zerar o timmer do microondas, sei não.
 Com esse calor que ta, a gente girando na Terra sem sair do lugar, e cada vez esquentando mais...
 Será que a terra é uma grande marmita?
 Pi! Pi!pi!
 Se for, o anuncio do fim do mundo será marcado por esse apito de microondas.
...
 17h01min
 Esse negócio que no Japão agora é 5 da manhã é conversa.
 Vou ligar para um japonês e constatar que lá também são 5 da tarde! Entre 5 e 6 da tarde se passam 12 horas no inervá-lo de uma. Por isso as noites são tão rápidas, tanto aqui como lá.
 17h58min
 Livre!
 17h59min
 Cabrum!
 18h00min
 Chove.

 Saco...

domingo, 29 de março de 2015

Pedalada

Julia pedalava pela avenida movimentada.
Fechadas de carros e xingamentos eram parte de sua rotina.
Os outros sempre questionavam, porque você não vai de ônibus?
Pedalar é mais econômico.
Você devia comprar um carro.
Bicicleta não polui.
Passou mais um ou dois anos se deslocando para onde podia com sua velha magrela.
Até que em uma segunda feira, quem a via passar pedalando todas as manhãs, deu por sua falta. Não só na segunda, mas nos dias seguintes também - para alegria de alguns motoristas encapsulados em suas fortalezas sobre 4 rodas.
....
O trânsito estava engarrafado.

Todos reclamando.
Nesse dia nossa amiga passaria tranqüilamente por todos a caminho do trabalho em sua bicicleta.
Porém ela a trocou por outro meio de transporte mais adequado ao trânsito.
E naquela manhã o ninguém atreveu a se opor enquanto ela passava por cima de tudo e todos com seu novo tanque de guerra.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Levitando

Ela abriu os olhos sonolentos, bocejou, espreguiçou e quando se deu conta não sentiu o colchão embaixo dela.
Virou a cabeça.
AAAAAA!
Plomp!
Caiu na cama.
- Eu...eu tava...ai meu Deus...(suspiro)...eu tava flutuando?
Ficou na cama por mais um dois minutos achando que aquilo tinha sido um sonho.
Ainda confusa, se levantou e foi para o banho.
A água morna caindo no seu corpo...era uma sensação ótima! Fechou os olhos, e nesses segundos de relaxamento ela novamente levitou no ar.
AAAAA!
Por sorte não escorregou na aterrissagem.
Enquanto se refazia do susto indagava consigo mesma.
- Eu...rs...eu posso mesmo fazer isso?
Fechou o chuveiro e voltou ao quarto sem nem ao menos se enrolar na toalha.
Sentou sobre cama, fechou os olhos, respirou fundo, e...aaah! Ela flutuou no ar.
Dessa vez consciente, ela sentiu que pairava no ar, abriu um pouquinho os olhos só para ter certeza. Ela realmente estava pairando no ar. Respirou fundo, tentando conter a euforia.
Pousou suavemente sobre a cama.
Sem conseguir conter mais a euforia ela ria sozinha.
- Mas o que as pessoas vão dizer?
- Será que vão me chamar de aberração? De possuída pelo demônio? Alias, será que ao menos vão acreditar em mim?
Pelo menos por enquanto era melhor não falar nada para ninguém.
E ela fez bem.
Pois sabemos o quanto às pessoas não gostam de algo fora do comum.
Ela seria vitima de exorcismos forçados, experiências cientificas, tema de novela (isso até que não seria ruim). Ou em seus vôos poderia se chocar com aviões, se cortar nas linhas dos pipas, cair em fios de alta tensão...E os familiares então? O que iam dizer?
- Vamo chamar a televisão, da pra ganhar uma grana preta com isso!
- Filha minha não voa por aí não! Isso não dá futuro!
- Não fala isso na empresa! Coloca tornozeleira com peso pra não sair voando sem querer. Já pensou se eles descobre e te manda embora?
E por fim ela decidiu guardar seu segredo para ela mesma.
Mas todos os dias, ela mal pode esperar para chegar em casa.
Quando chega, tranca as portas, abaixa as cortinas, tira os calçados apertados, as tornozeleiras com peso e flutua livremente entre os cômodos da casa.

É uma sensação única.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Valdir Pereira e a sociedade do Bueiro.

 São as águas de março fechando o verão, inundando São Paulo e espalhando o caos.
 Sofá novo na casas baiano quebra rápido e só dura um ano, compre agora e pague só quando a policia vier tomar o seus bens!
 - Celinha olha só meu jogo de sofá novo!
 - Que lindo Anita. Aquele sofá velho ninguém merecia né?
 - Pois é amiga, já mandei o Arnaldo jogar aquele trambolho na rua, ali perto do “córgo”. 
- Aí algum favelado leva embora né?
 - Pois é. De bagulho já basta o meu marido hahahaha.
 - Hahahaha
...
 - Beleza Felipe larga esse trambolho aí mesmo.
 - De boa Arnaldão.
 - Vamo, eu pago a cervejinha.
 - Opa.
...
 O dia se vai a noite cai.
 E durante a madrugada um estanho ser brota das águas sujas do córrego.
 Puxa o sofá para dentro das águas e some na escuridão.
 E de manhã o sofá já não está mais lá.
 - Viu Arnaldo eu disse que alguém ia levar embora – Disse Anita.
 - Devem ter levado para a favela lá em cima – Respondeu Arnaldo.
 Um homem de cabelos brancos, longos e presos, sobretudo verde, aborda o casal que estava indo trabalhar.
 - Então foram vocês que jogaram o sofá ali.
 - Fui eu e daí? – Retrucou Arnaldo.
 - Senhor, o senhor sabe que isso da enchente não sabe?
 - Dá nada não rapaz, alguém já levou aquele pau veio embora, não ta dentro do “córgo” não.
 - Olha eu vou pedir que nunca jogue nada na rua de novo, a chuva leva tudo para os bueiro entope e o final a gente já sabe...
 - Ih lá vem outro com conversinha... Eu pago imposto pro gari varrer a rua meu filho! – Disse Anita.
 - O problema não é só a falta de bons modos, os senhores já ouviram falar da sociedade do bueiro?
 - Já sim. Tem rato, barata, a sua mãe hahahaha!
 E com a deixa os dois saíram caminhando.
 - Tsc. A gente ainda tenta ser educado, mas povinho é uma merda mesmo! Bom, vamos ao trabalho.
 Dito isto ele saltou a mureta do córrego e desceu até a água.
 Foi seguindo até a galeria e apesar do fedor insuportável respirou fundo uma ultima vez, dali para frente o fedor só ia piorar.
...
 Sua fiel lanterninha nunca fora tão útil, o breu dentro da galeria era intenso.
 Os canos foram ficando cada vez mais estreitos, ele se abaixava e ia seguindo.
 A água corrente sob seus pés não apagava os rastros, mas as marcas nas paredes indicavam que algo havia passado por ali sendo arrastado.
 Andou mais alguns metros.
 Sons de pegadas a sua frente.
 Apagou a lanterna.
 Avançou sorrateiro.
 - Ah! Te peguei.
 - Me solta! Me solta! – Um ser falava enquanto se debatia.
 - Me leve até o líder! E eu não te farei mal.
 - Tudo bem, tudo bem. Venha comigo.
Valdir Pereira acendeu a lanterna e pode ver a criatura.
 Era um ser com pele muito clara, com características anfíbias, tinha mãos é pés palmados e andava em pé como um homem, porém tinha a metade do tamanho de um.  Talvez por isso não tenha partido para um combate corporal.
 Foram adentrando as galerias, até que por fim chegaram a um grande salão, canos de esgoto saiam das paredes, dentro deles podiam se ver pequenos olhos vermelhos brilhando na escuridão.
 Um dos seres veio ao encontro de Valdir Pereira e seu guia.
 - Vejam se não é Valdir Pereira. – Disse o ser, que pela empáfia parecia ser o líder.
 - Caçador de bruxas, vampiros, lobisomens e bizarrices em geral. Valdir Pereira é meu nome.
 - Muito bem, muito bem. Já sabemos bem quem é você, agora diga por que veio até nós, a sociedade do bueiro.
 - Vocês andam dando sumisso nas coisas que os humanos jogam nos bueiros e córregos não é verdade?
 - Summisso? Como ousa? Estamos fazendo o que os tolos não sabem. Reutilizar as coisas!
 - Será mesmo? Isso não está me cheirando bem. – Disse Valdir Pereira com cara de nojo.
 - Hahahaha e o que cheira bem aqui? Ou até mesmo lá em cima, Valdir Pereira! Vamos, eu vou lhe provar que não estamos fazendo mal algum.
 Eles foram seguindo por uma serie de galerias, onde podia se podia ver certa organização social. Haviam seres sentados em sofás, outros usando maquinas velhas de lavar como abrigo e até um velho fusca servia como moradia para alguns deles.
 - Eu sempre pensei que a sociedade do bueiro vivia dentro das águas?
 - Somos híbridos, evoluímos com o tempo para nos adaptar a viver tanto dentro como fora da água.
 - Ok. Apesar de algo ainda cheirar mal por aqui, parece que está tudo em ordem.
 - Muito bem, muito bem. Tem uma saída logo ali que da na marginal pinheiros e...
 - Líder! Líder! – Um dos seres vinha gritando de uma galeria. Sem saber o que se passava ali. – O plano de tampar todos os bueiros da cidade está pronto para ser executado!
 Assim que viu o olhar colérico do líder ele parou de falar.
 - Há! Eu sabia! – Gritou Valdir Pereira – São vocês os responsáveis pelas enchentes!
 - Desgraçado, mas agora você não pode mais deter nosso plano! Com todos os bueiros entupidos... Com apenas uma chuvinha São Paulo estará pronta para nós! Poderemos finalmente entrar em shoppings, lojas e mercados! Ter acesso a todas as coisas que os humanos tem! A Tudo que vimos nos folhetinhos de propaganda! Até sofás novos das casas baiano!
 - E para isso precisam inundar tudo?
 - Nós só podemos viver perto das águas poluídas Valdir Pereira, e com as enchentes São Paulo seria nosso habitat perfeito! Afinal somos lentos para andar e ótimos para nadar!
 - Engenhoso, engenhoso. Porém seu plano tem uma pequena falha!
 - Como?! Nosso plano é perfeito!
 - Ah não é não, tem uma falha sim.
 - Diga-nos agora Valdir Pereira!
 - Bom...
 Valdir Pereira disse somente isso e se pos a correr feito louco para a saída. Chegando ao ambiente externo ele sabia que estaria salvo.
 E assim aconteceu.
 Valdir Pereira saiu em uma calçada da Marginal Pinheiros por um bueiro. A sociedade do bueiro não o perseguiria a luz do dia.
 - Arf! Arf! Ar! Arf!  Eu nunca achei que ia sentir falta do cheiro de fumaça dessa cidade...
 Valdir Pereira estava a salvo, fedendo a cocô, mas a salvo.
...
 - Onde está a falha!
 - Eu não sei líder! Eu não sei!
 - Desentupam cada bueiro! Testaremos um por um para provar que nosso plano é infalível!
 E até hoje a sociedade do bueiro está testando todos os bueiros da cidade, entopem um, desentopem outros, vão causando enchentes até que chegara o dia em que se darão conta que seu plano não tem falhas.
 E com colabores como os humanos.
 Bem.
 Lixo para eles usarem é o que não vai faltar.

domingo, 22 de março de 2015

Carminha

 Dona Dalva já estava com os seus 70 anos. Aposentada. O marido já falecido. Os filhos casados. Ela sozinha.
 Sua única companhia era uma plantinha que vivia em um vasinho, dona Dalva a chamava de Carminha.
 Falava com a plantinha para amenizar da solidão.
 João leite. Vivia de pequenos bicos. A mulher o deixara por outro. Nunca teve filhos.
 Acordava todos os dias de manhã cedo com a vizinha tagarelando.
 Aí Carminha. É sério Carminha? Será que vai chover Carminha?
 E quando não tinha nenhum serviço pra fazer ia para o bar logo cedo.
 Bebia para esquecer a solidão.
 Mas hoje ele não foi ao bar.
 Pos a cabeça por cima do muro e avistou sua vizinha Dalva falando com sua Carminha.
 Puta que o pariu, essa veia filha da puta ta falando com a planta de novo. Todo dia é carminha isso, Carminha aquilo, Carminha vai toma no cú, Carminha não sei o que...
 Dona Dalva distraída com seu papo animado com Carminha nunca notara, mas o vizinho vivia de butuca espionando o quintal dela, às vezes o dia todo.
 Nossa como essas rosas estão bonitas, né Carminha?
 Não precisa ficar com ciúmes, você é meu xodózinho Carminha.
 Ce viu? Hoje o Herculano vai descobrir quem matou o pai dele, a novela ta pegando fogo.
 Que foi Carminha?
 É?
 Ai eu também acho Carminha.
 Caralho...Sua véia filha da puta... - murmurou João Leite cerrando os dentes.
 Hora do banho Carminha – disse Dona Dalva regando a plantinha alegremente.
 A água ta boa Carminha?
 Mano que veia louca do CARAIO!
 PAU!
 ...
 Um tiro certeiro atravessou a cabeça da pobre Dona Dalva que caiu no chão no mesmo instante. A poça de sangue se misturava com a água escorrendo do regador.
 João leite pulou o muro com arma já na cintura.
 Parou na frente da planta.
 Finalmente Carminha.
 Finalmente.


 Agora somos só eu e você meu amor!