São as águas de março fechando o verão, inundando São Paulo
e espalhando o caos.
Sofá novo na casas
baiano quebra rápido e só dura um ano, compre agora e pague só quando a policia
vier tomar o seus bens!
- Celinha olha só meu
jogo de sofá novo!
- Que lindo Anita.
Aquele sofá velho ninguém merecia né?
- Pois é amiga, já
mandei o Arnaldo jogar aquele trambolho na rua, ali perto do “córgo”.
- Aí algum favelado leva embora né?
- Aí algum favelado leva embora né?
- Pois é. De bagulho já
basta o meu marido hahahaha.
- Hahahaha
...
- Beleza Felipe larga
esse trambolho aí mesmo.
- De boa Arnaldão.
- Vamo, eu pago a
cervejinha.
- Opa.
...
O dia se vai a noite
cai.
E durante a madrugada
um estanho ser brota das águas sujas do córrego.
Puxa o sofá para
dentro das águas e some na escuridão.
E de manhã o sofá já
não está mais lá.
- Viu Arnaldo eu
disse que alguém ia levar embora – Disse Anita.
- Devem ter levado
para a favela lá em cima – Respondeu Arnaldo.
Um homem de cabelos
brancos, longos e presos, sobretudo verde, aborda o casal que estava indo
trabalhar.
- Então foram vocês
que jogaram o sofá ali.
- Fui eu e daí? –
Retrucou Arnaldo.
- Senhor, o senhor
sabe que isso da enchente não sabe?
- Dá nada não rapaz,
alguém já levou aquele pau veio embora, não ta dentro do “córgo” não.
- Olha eu vou pedir
que nunca jogue nada na rua de novo, a chuva leva tudo para os bueiro entope e o
final a gente já sabe...
- Ih lá vem outro com
conversinha... Eu pago imposto pro gari varrer a rua meu filho! – Disse Anita.
- O problema não é só
a falta de bons modos, os senhores já ouviram falar da sociedade do bueiro?
- Já sim. Tem rato,
barata, a sua mãe hahahaha!
E com a deixa os dois
saíram caminhando.
- Tsc. A gente ainda
tenta ser educado, mas povinho é uma merda mesmo! Bom, vamos ao trabalho.
Dito isto ele saltou
a mureta do córrego e desceu até a água.
Foi seguindo até a
galeria e apesar do fedor insuportável respirou fundo uma ultima vez, dali para
frente o fedor só ia piorar.
...
Sua fiel lanterninha
nunca fora tão útil, o breu dentro da galeria era intenso.
Os canos foram
ficando cada vez mais estreitos, ele se abaixava e ia seguindo.
A água corrente sob
seus pés não apagava os rastros, mas as marcas nas paredes indicavam que algo
havia passado por ali sendo arrastado.
Andou mais alguns metros.
Sons de pegadas a sua
frente.
Apagou a lanterna.
Avançou sorrateiro.
- Ah! Te peguei.
- Me solta! Me solta!
– Um ser falava enquanto se debatia.
- Me leve até o
líder! E eu não te farei mal.
- Tudo bem, tudo bem.
Venha comigo.
Valdir Pereira acendeu a lanterna e pode ver a criatura.
Era um ser com pele
muito clara, com características anfíbias, tinha mãos é pés palmados e andava
em pé como um homem, porém tinha a metade do tamanho de um. Talvez por isso não tenha partido para um
combate corporal.
Foram adentrando as
galerias, até que por fim chegaram a um grande salão, canos de esgoto saiam das
paredes, dentro deles podiam se ver pequenos olhos vermelhos brilhando na
escuridão.
Um dos seres veio ao
encontro de Valdir Pereira e seu guia.
- Vejam se não é Valdir
Pereira. – Disse o ser, que pela empáfia parecia ser o líder.
- Caçador de bruxas,
vampiros, lobisomens e bizarrices em geral. Valdir
Pereira é meu nome.
- Muito bem, muito
bem. Já sabemos bem quem é você, agora diga por que veio até nós, a sociedade
do bueiro.
- Vocês andam dando
sumisso nas coisas que os humanos jogam nos bueiros e córregos não é verdade?
- Summisso? Como
ousa? Estamos fazendo o que os tolos não sabem. Reutilizar as coisas!
- Será mesmo? Isso
não está me cheirando bem. – Disse Valdir Pereira com cara de nojo.
- Hahahaha e o que
cheira bem aqui? Ou até mesmo lá em cima, Valdir Pereira! Vamos, eu vou lhe provar
que não estamos fazendo mal algum.
Eles foram seguindo
por uma serie de galerias, onde podia se podia ver certa organização social. Haviam
seres sentados em sofás, outros usando maquinas velhas de lavar como abrigo e
até um velho fusca servia como moradia para alguns deles.
- Eu sempre pensei
que a sociedade do bueiro vivia dentro das águas?
- Somos híbridos, evoluímos
com o tempo para nos adaptar a viver tanto dentro como fora da água.
- Ok. Apesar de algo
ainda cheirar mal por aqui, parece que está tudo em ordem.
- Muito bem, muito
bem. Tem uma saída logo ali que da na marginal pinheiros e...
- Líder! Líder! – Um
dos seres vinha gritando de uma galeria. Sem saber o que se passava ali. – O
plano de tampar todos os bueiros da cidade está pronto para ser executado!
Assim que viu o olhar
colérico do líder ele parou de falar.
- Há! Eu sabia! –
Gritou Valdir Pereira – São vocês os responsáveis pelas enchentes!
- Desgraçado, mas
agora você não pode mais deter nosso plano! Com todos os bueiros entupidos... Com
apenas uma chuvinha São Paulo estará pronta para nós! Poderemos finalmente
entrar em shoppings, lojas e mercados! Ter acesso a todas as coisas que os
humanos tem! A Tudo que vimos nos folhetinhos de propaganda! Até sofás novos
das casas baiano!
- E para isso
precisam inundar tudo?
- Nós só podemos
viver perto das águas poluídas Valdir Pereira, e com as enchentes São Paulo
seria nosso habitat perfeito! Afinal somos lentos para andar e ótimos para
nadar!
- Engenhoso,
engenhoso. Porém seu plano tem uma pequena falha!
- Como?! Nosso plano
é perfeito!
- Ah não é não, tem
uma falha sim.
- Diga-nos agora Valdir
Pereira!
- Bom...
Valdir Pereira disse
somente isso e se pos a correr feito louco para a saída. Chegando ao ambiente
externo ele sabia que estaria salvo.
E assim aconteceu.
Valdir Pereira saiu em
uma calçada da Marginal Pinheiros por um bueiro. A sociedade do bueiro não o
perseguiria a luz do dia.
- Arf! Arf! Ar!
Arf! Eu nunca achei que ia sentir falta
do cheiro de fumaça dessa cidade...
Valdir Pereira estava
a salvo, fedendo a cocô, mas a salvo.
...
- Onde está a falha!
- Eu não sei líder!
Eu não sei!
- Desentupam cada
bueiro! Testaremos um por um para provar que nosso plano é infalível!
E até hoje a
sociedade do bueiro está testando todos os bueiros da cidade, entopem um,
desentopem outros, vão causando enchentes até que chegara o dia em que se darão
conta que seu plano não tem falhas.
E com colabores como
os humanos.
Bem.
Lixo para eles usarem
é o que não vai faltar.
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