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segunda-feira, 23 de março de 2015

Valdir Pereira e a sociedade do Bueiro.

 São as águas de março fechando o verão, inundando São Paulo e espalhando o caos.
 Sofá novo na casas baiano quebra rápido e só dura um ano, compre agora e pague só quando a policia vier tomar o seus bens!
 - Celinha olha só meu jogo de sofá novo!
 - Que lindo Anita. Aquele sofá velho ninguém merecia né?
 - Pois é amiga, já mandei o Arnaldo jogar aquele trambolho na rua, ali perto do “córgo”. 
- Aí algum favelado leva embora né?
 - Pois é. De bagulho já basta o meu marido hahahaha.
 - Hahahaha
...
 - Beleza Felipe larga esse trambolho aí mesmo.
 - De boa Arnaldão.
 - Vamo, eu pago a cervejinha.
 - Opa.
...
 O dia se vai a noite cai.
 E durante a madrugada um estanho ser brota das águas sujas do córrego.
 Puxa o sofá para dentro das águas e some na escuridão.
 E de manhã o sofá já não está mais lá.
 - Viu Arnaldo eu disse que alguém ia levar embora – Disse Anita.
 - Devem ter levado para a favela lá em cima – Respondeu Arnaldo.
 Um homem de cabelos brancos, longos e presos, sobretudo verde, aborda o casal que estava indo trabalhar.
 - Então foram vocês que jogaram o sofá ali.
 - Fui eu e daí? – Retrucou Arnaldo.
 - Senhor, o senhor sabe que isso da enchente não sabe?
 - Dá nada não rapaz, alguém já levou aquele pau veio embora, não ta dentro do “córgo” não.
 - Olha eu vou pedir que nunca jogue nada na rua de novo, a chuva leva tudo para os bueiro entope e o final a gente já sabe...
 - Ih lá vem outro com conversinha... Eu pago imposto pro gari varrer a rua meu filho! – Disse Anita.
 - O problema não é só a falta de bons modos, os senhores já ouviram falar da sociedade do bueiro?
 - Já sim. Tem rato, barata, a sua mãe hahahaha!
 E com a deixa os dois saíram caminhando.
 - Tsc. A gente ainda tenta ser educado, mas povinho é uma merda mesmo! Bom, vamos ao trabalho.
 Dito isto ele saltou a mureta do córrego e desceu até a água.
 Foi seguindo até a galeria e apesar do fedor insuportável respirou fundo uma ultima vez, dali para frente o fedor só ia piorar.
...
 Sua fiel lanterninha nunca fora tão útil, o breu dentro da galeria era intenso.
 Os canos foram ficando cada vez mais estreitos, ele se abaixava e ia seguindo.
 A água corrente sob seus pés não apagava os rastros, mas as marcas nas paredes indicavam que algo havia passado por ali sendo arrastado.
 Andou mais alguns metros.
 Sons de pegadas a sua frente.
 Apagou a lanterna.
 Avançou sorrateiro.
 - Ah! Te peguei.
 - Me solta! Me solta! – Um ser falava enquanto se debatia.
 - Me leve até o líder! E eu não te farei mal.
 - Tudo bem, tudo bem. Venha comigo.
Valdir Pereira acendeu a lanterna e pode ver a criatura.
 Era um ser com pele muito clara, com características anfíbias, tinha mãos é pés palmados e andava em pé como um homem, porém tinha a metade do tamanho de um.  Talvez por isso não tenha partido para um combate corporal.
 Foram adentrando as galerias, até que por fim chegaram a um grande salão, canos de esgoto saiam das paredes, dentro deles podiam se ver pequenos olhos vermelhos brilhando na escuridão.
 Um dos seres veio ao encontro de Valdir Pereira e seu guia.
 - Vejam se não é Valdir Pereira. – Disse o ser, que pela empáfia parecia ser o líder.
 - Caçador de bruxas, vampiros, lobisomens e bizarrices em geral. Valdir Pereira é meu nome.
 - Muito bem, muito bem. Já sabemos bem quem é você, agora diga por que veio até nós, a sociedade do bueiro.
 - Vocês andam dando sumisso nas coisas que os humanos jogam nos bueiros e córregos não é verdade?
 - Summisso? Como ousa? Estamos fazendo o que os tolos não sabem. Reutilizar as coisas!
 - Será mesmo? Isso não está me cheirando bem. – Disse Valdir Pereira com cara de nojo.
 - Hahahaha e o que cheira bem aqui? Ou até mesmo lá em cima, Valdir Pereira! Vamos, eu vou lhe provar que não estamos fazendo mal algum.
 Eles foram seguindo por uma serie de galerias, onde podia se podia ver certa organização social. Haviam seres sentados em sofás, outros usando maquinas velhas de lavar como abrigo e até um velho fusca servia como moradia para alguns deles.
 - Eu sempre pensei que a sociedade do bueiro vivia dentro das águas?
 - Somos híbridos, evoluímos com o tempo para nos adaptar a viver tanto dentro como fora da água.
 - Ok. Apesar de algo ainda cheirar mal por aqui, parece que está tudo em ordem.
 - Muito bem, muito bem. Tem uma saída logo ali que da na marginal pinheiros e...
 - Líder! Líder! – Um dos seres vinha gritando de uma galeria. Sem saber o que se passava ali. – O plano de tampar todos os bueiros da cidade está pronto para ser executado!
 Assim que viu o olhar colérico do líder ele parou de falar.
 - Há! Eu sabia! – Gritou Valdir Pereira – São vocês os responsáveis pelas enchentes!
 - Desgraçado, mas agora você não pode mais deter nosso plano! Com todos os bueiros entupidos... Com apenas uma chuvinha São Paulo estará pronta para nós! Poderemos finalmente entrar em shoppings, lojas e mercados! Ter acesso a todas as coisas que os humanos tem! A Tudo que vimos nos folhetinhos de propaganda! Até sofás novos das casas baiano!
 - E para isso precisam inundar tudo?
 - Nós só podemos viver perto das águas poluídas Valdir Pereira, e com as enchentes São Paulo seria nosso habitat perfeito! Afinal somos lentos para andar e ótimos para nadar!
 - Engenhoso, engenhoso. Porém seu plano tem uma pequena falha!
 - Como?! Nosso plano é perfeito!
 - Ah não é não, tem uma falha sim.
 - Diga-nos agora Valdir Pereira!
 - Bom...
 Valdir Pereira disse somente isso e se pos a correr feito louco para a saída. Chegando ao ambiente externo ele sabia que estaria salvo.
 E assim aconteceu.
 Valdir Pereira saiu em uma calçada da Marginal Pinheiros por um bueiro. A sociedade do bueiro não o perseguiria a luz do dia.
 - Arf! Arf! Ar! Arf!  Eu nunca achei que ia sentir falta do cheiro de fumaça dessa cidade...
 Valdir Pereira estava a salvo, fedendo a cocô, mas a salvo.
...
 - Onde está a falha!
 - Eu não sei líder! Eu não sei!
 - Desentupam cada bueiro! Testaremos um por um para provar que nosso plano é infalível!
 E até hoje a sociedade do bueiro está testando todos os bueiros da cidade, entopem um, desentopem outros, vão causando enchentes até que chegara o dia em que se darão conta que seu plano não tem falhas.
 E com colabores como os humanos.
 Bem.
 Lixo para eles usarem é o que não vai faltar.

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