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domingo, 24 de maio de 2015

Banheiro ocupado

 Estou apertado.
 A porta do banheiro está fechada.
 Uma voz lá dentro fala alegremente e ninguém responde.
 Ou a voz fala ao celular ou o cara é tão chato que discute até com o próprio cocô.
 Sei lá.
 Eu sei que eu quero é cagar.
 Pelo tom da voz parece que o dono se esqueceu do tempo. Se morrer aí dentro, ao menos morre feliz. Sentado no trono, ligando para o amigo e falando bosta.
 Falando bosta pela boca e soltando pela bunda rs...Que merda...
 Continuo me segurando.
 Então você viu o preço da passagem lá? – A voz continua.
 Fala um pouco, fica em silêncio alguns segundos e desanda a falar de novo.
 Quem está do outro lado da linha ouvindo a voz com eco sequer imagina que o outro está no banheiro.
 O anonimato do celular nos possibilita fazer um monte de outras coisas enquanto conversamos desde que não façamos barulho.
 É quase como poder ficar invisível.
 Todo mundo um dia já quis ser invisível, mas alguém já pensou que alguém invisível ainda faz barulho?
 Um sujeito invisível tem que andar por aí pelado para não ser identificado, ou com roupas que fiquem invisíveis junto com ele. Imagine ficar invisível e poder andar pelado por aí sem ser visto... Deve ser muito constrangedor... Ou excitante... Vai saber.
 Mas e quando da vontade de peidar e aquele peidinho discreto acaba virando um estrondo?
 Já pensou?
 Uma cobra chega sorrateiramente para apresar um ratinho, silenciosa, imperceptível, invisível aos sentidos da presa. Ela avança e na hora do bote... Puuuum! Aquele peidinho rasgado rompe o silêncio alto como um trovão, alertando a presa e arruinando a captura. A cobra volta para casa chateada e com fome. O ratinho ganha mais um ou dois dias de vida. O tempo para ele espalhar a história de que se safou da morte porque a cobra peidou na hora do bote.
 A cobra vai virar motivo de piada na selva, principalmente entre as outras cobras. Se a cena fosse parar na internet todo mundo só lembraria por uma semana ou menos. Mas para o azar da cobra a falta de assunto na selva fará a piada render risadas por uns bons meses.
 O peido é uma das maiores provas de amor que existe. Porque só amando muito outra pessoa pra dormir junto com ela mais de uma vez mesmo sabendo que ela também peida debaixo da coberta.
 Tudo bem, é um gesto deselegante, mas certas deselegâncias só a intimidade permite, não dá pra ser certinho o tempo todo.
 Afinal se podemos expelir todo tipo de gás venenoso no ar, destruir a camada de ozônio e tudo mais, porque só o peidinho inocente, não poluente, natural, quando expelido perto do outro ainda é considerado falta de educação?
 As pessoas deveriam se desculpar ao acender cigarros, ao dar partida em carros ou ao acender as chaminés das fabricas também.
 É que nem em banheiro publico, ou no trabalho. A gente fica se segurando para não peidar alto. E quando escapa um peido alto, a gente fica em silencio, prestando atenção no sons  para saber se tem alguém do lado de fora. 
 Pior é quando tem e a pessoa não vai embora.
 Aí é engolir o orgulho e sair da casinha para dar de cara com o chefe.
 E fingir que nada aconteceu. 
- Ah, então é você que tava aí é?
 Como a gente é besta.
 Como se os outros seres humanos não fizessem cocô ou peidassem. 
 Inclusive as mulheres. 
 Finalmente o som da descarga soa.
 A voz ainda continua falando.
 Com uma mão segura o telefone e com outra limpa a bunda. Isso sim que é falta de educação!
 Ao menos lave as mãos antes de sair – penso - e se possível o telefone também. Acho que é para isso que inventaram esses telefones a prova da água, para serem usados no banheiro não na piscina. Ao menos eles sobrevivem aos eventuais mergulhos na privada. 
 Será que um dia inventam um prova de chatos? Duvido. Ninguém ia poder usar.
 A voz não para de falar por um minuto.
 Um sujeito sai do banheiro falando ao telefone.
 Entro apressado, tranco a porta, abaixo as calças, me sento na privada e aí finalmente vem aquela sensação de alivio.
 Por alguns minutos fico sentando apreciando a solidão e a privacidade. Longe do mundo caótico. Das vozes. E dos olhares alheios.
 O silêncio predomina.
 Rompido somente por um ou outro peidinho de alivio.
 Mas é natural.

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