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segunda-feira, 27 de julho de 2015

Elefante

 Uma formiguinha não se dava com as outras da sua espécie.
 Trabalhar, trabalhar e trabalhar até morrer era só o que as outras sabiam fazer, mas ela não.
 Ela preferia apreciar a beleza das coisas, olhar as estrelas, sentir o cheiro das flores...
 Se não temos fome porque precisamos juntar comida o tempo todo? Pensava.
 O formigueiro onde ela morava era como os outros. Modelos perfeitos de indústria.
 Cada uma com sua função definida já no nascimento.
 Uma vantagem nisso é que elas não precisavam escolher a faculdade.
 Elas nascem para uma função.
 A executam a vida toda.
 E morrem.
 Simples.
 Sem dúvidas.
 Sem questões.
 Sem sexo.
 Porque o sexo ainda é um privilégio somente da realeza entre as formigas.
 A rainha nasce para procriar e as operarias para executar.
 Como minúsculas maquininhas.

 Perto dali vivia uma manada de elefantes.
 Enormes.
 Robustos.
 Desajeitados.
 E ali um dos elefantes também não se dava tão bem com os outros.
 Por mais que os elefantes tenham certa tolerância com os demais.
 As regras de convívio em sociedade ainda os regem.
 Uma delas é a normalidade.
 Elefantes nascem, crescem, procriam e morrem.
 Jamais um elefante normal morreria sem acasalar e ter filhos.
 Diziam que os mamutes foram extintos por isso.
 Começaram a dar prioridade para outras coisas.
 Se esqueceram dos valores da família.
 E se dispersaram pelo mundo, solitários.
 Atrás de questões existenciais ou grandes aventuras.
 Até que não sobrou nenhum.
 Por isso a regra agora é que os elefantes têm de ser unir.
 A família vem antes de tudo.
 Mas com nosso amigo era diferente.
 Ele admirava os mamutes e sua coragem de viajar mundo afora, mesmo com todos os perigos que os levaram a completa extinção.
 Os mais velhos tentavam educa-lo, faze-lo pensar como um elefante e não como um mamute.
 Não tinha jeito.
 Era um sonhador.
 E também um covarde.
 Não tinha coragem para deixar a manada e sair por aí sozinho.
 No máximo ás vezes se afastava dos outros para ficar sozinho na floresta.
 Sozinho ele admirava a beleza das coisas, borboletas, as flores, a luz do sol entre as arvores...

 As formigas sabiam da existência dos elefantes, mas não os conheciam pessoalmente, pois corriam desesperadas em busca de abrigo quando eles se aproximavam afinal cada passada era como um terremoto escala cinco para elas.
 Já os elefantes sabiam da existência das formigas, mas não as conheciam porque do alto de suas cabeças era quase impossível notar algo tão minúsculo. Tudo o que sabiam é que eram algo como pequenos pontos pretos.
 Nosso elefante sonhador estava em seu recanto secreto.
 Passava a tromba por entre as flores para cheirá-las.
 Foi quando sentiu que alguma coisa fazia cócegas na ponta do seu comprido nariz paquiderme.
 Levou a tromba até seu campo de visão.
 Se surpreendeu ao ver uma minúscula formiguinha encolhida e assustada.
- Tenha calma... É... É... O que é você?
- QUEM? O QUE? QUEM DISSE ISSO?
- Hora, eu disse.
 A formiga abriu os olhos e se deparou com um grande “olhão” que olhava fixamente para ela.
- EU SOU UMA FORMIGA, E VOCÊ? É UM GIGANTE?
- Sou um elefante, cara formiga. Encantado.
- O PRAZER É MEU SENHOR ELEFANTE.
- Não precisa gritar. Minhas orelhas são enormes, por isso te ouço muito bem.
- Oh, me desculpe.
- E o que uma moça tão pequena faz sozinha aqui no meio das flores?
- Ficando sozinha. Aqui é meu lugar secreto. Bom. Agora não é mais já que você me descobriu. Venho aqui para ficar longe da minha família. Eles só pensam em trabalhar, trabalhar e trabalhar o tempo todo. Alguns nem sequer dormem!
- Que coincidência, este também é o meu lugar secreto, que agora não é mais secreto porque você também me descobriu. E temos mais que isso em comum. Também vim aqui para ficar sozinho e longe da minha família. Eles só dizem que tenho que casar e ter filhos antes que eu morra. Vitima de caçadores de marfim ou na boca dos leões!
- AAAAH! Não grite! Quer explodir meus ouvidos?!
- Minhas desculpas senhorita.
- Tudo bem. Mas tente na gritar mais tudo bem?
- Farei o possível.
- Que engraçado. Somos tão diferentes e temos tanto em comum.
- Tem razão. Mesmo sendo pouco, tenho mais em comum com você do que com os outros elefantes.
- E eu mais com você do que com as outras formigas. Se você fosse uma formiga eu me casaria com você.
- E se você fosse uma aliá, eu me casaria com você.
- Aliá?
- Sim, aliá, um elefante fêmea.
- Ou sim. Rs. Entre as formigas somos apenas formigas. Sem gênero ou sexo. Somos dividas somente por classes. Operárias, soldados, rainha.
- Entre os elefantes somos divididos por gênero, machos e fêmeas. Isso é o que nos define por natureza, machos são de um jeito e fêmeas de outro, machos certas obrigações e fêmeas outras. Quase como vocês formigas.
- Tem razão.
  Por um instante eles não dizem nada.
  Mas não param de se olhar com ternura.
 A formiga é quem quebra o silêncio.
- Escuta, porque nós não nos casamos?
 O elefante sorriu.
- Hora, seria uma honra casar com uma moça tão bela como você.
- Então estamos de acordo? – Disse a formiga meio sem jeito.
- Pois a partir de agora eu nos declaro noivos.
 Ambos sorriem.
 O elefante volta para a manada feliz e sorridente.
 A mãe pergunta:
 - Porque está tão feliz.
- Tenho uma noiva, mamãe!
- Que maravilha filho! E quem é a sortuda?
- Uma linda formiguinha mamãe!
- O QUE!?
 A mãe do elefante quase teve um ataque e teve de ser socorrida as pressas.

 A formiga chegou ao formigueiro, mas ao que parece ninguém deu por sua falta. Afinal lá dentro existam milhares “iguais” a ela.
 A noticia do noivado correu entre os elefantes.
- Não é possível.
- Tá louco!
- Isso é o que dá ficar muito tempo sem uma fêmea.
 O pai era questionado o tempo todo;
- E aí o que vai fazer como o seu filho?
 Ou era motivo de piada.
- Seu filho heim, quem diria. Logo por uma formiga? Com tanta aliá gostosa querendo dar pra ele aqui e quer uma formiga... E na hora do vamo ver? Hahahaha Vai matar a bichinha!
 O pai realmente não sabia mais o que fazer.
 A formiguinha voltou ao seu local secreto que não é mais secreto no dia se seguinte na esperança de ver seu amado.
 No caminho viu seu amado deitado a sombra de uma arvore.
 Achou que ele estava dormindo e decidiu lhe dar um susto.
 A passos curtinhos escalou ele, chegou pertinho do ouvido e...
- BUUUUU! Hahahaha!
 Ela ria esperando a reação de susto do elefante.
 Mas esse não acordou.
- Ei! Acorda dorminhoco!
- Ei! Amor!
- Amoooor!?
- AMOR!?
 Seus gritos de desespero foram ficando cada vez mais cheios de dor e lagrimas.
 - AMOOOOOR!
 Desesperada ela correu o mais rápido que pode de volta ao formigueiro, entrou apressada chorando. Gritava pedindo ajuda.
 As outras formigas nem sequer deram ouvidos.
 Em vez de parar seus afazeres e ajuda-la, elas a contornavam para não atrapalhar sua marcha diária.
 De repente outra formiga entrou anunciando a descoberta.
- Descobrimos alimento! Carne fresca! Uma montanha gigantesca de carne fresca!
- O que! Não! Vocês não podem devorá-lo! Ele é meu amor! MEU AMOR!
 Um coro com milhares de risadas ecoou por todo o formigueiro.
 Todos sabiam que só a realeza tinha o privilégio do sexo.
 A formiga ainda mais desesperada tentou deter a fila que já começava a marchar em direção ao alimento fresco. Foi impedida por um grupo de soldados formiga.
 Eles a seguraram.
 Ela se debatia com força.
 E eles a mataram sem o menor remorso.
 Afinal ela era só mais uma dentre outras milhares.
 O pai do elefante recém assassinado transava alegremente com a mamãe elefante, ambos também sem o menor remorso.
- No próximo a gente acerta! – Ele disse.

- Com certeza querido. – Ela gemeu.

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