Uma formiguinha não
se dava com as outras da sua espécie.
Trabalhar, trabalhar
e trabalhar até morrer era só o que as outras sabiam fazer, mas ela não.
Ela preferia apreciar
a beleza das coisas, olhar as estrelas, sentir o cheiro das flores...
Se não temos fome
porque precisamos juntar comida o tempo todo? Pensava.
O formigueiro onde
ela morava era como os outros. Modelos perfeitos de indústria.
Cada uma com sua
função definida já no nascimento.
Uma vantagem nisso é
que elas não precisavam escolher a faculdade.
Elas nascem para uma
função.
A executam a vida
toda.
E morrem.
Simples.
Sem dúvidas.
Sem questões.
Sem sexo.
Porque o sexo ainda é
um privilégio somente da realeza entre as formigas.
A rainha nasce para
procriar e as operarias para executar.
Como minúsculas
maquininhas.
Perto dali vivia uma
manada de elefantes.
Enormes.
Robustos.
Desajeitados.
E ali um dos
elefantes também não se dava tão bem com os outros.
Por mais que os
elefantes tenham certa tolerância com os demais.
As regras de convívio
em sociedade ainda os regem.
Uma delas é a
normalidade.
Elefantes nascem,
crescem, procriam e morrem.
Jamais um elefante
normal morreria sem acasalar e ter filhos.
Diziam que os mamutes
foram extintos por isso.
Começaram a dar
prioridade para outras coisas.
Se esqueceram dos
valores da família.
E se dispersaram pelo
mundo, solitários.
Atrás de questões
existenciais ou grandes aventuras.
Até que não sobrou
nenhum.
Por isso a regra
agora é que os elefantes têm de ser unir.
A família vem antes
de tudo.
Mas com nosso amigo
era diferente.
Ele admirava os mamutes
e sua coragem de viajar mundo afora, mesmo com todos os perigos que os levaram
a completa extinção.
Os mais velhos
tentavam educa-lo, faze-lo pensar como um elefante e não como um mamute.
Não tinha jeito.
Era um sonhador.
E também um covarde.
Não tinha coragem
para deixar a manada e sair por aí sozinho.
No máximo ás vezes se
afastava dos outros para ficar sozinho na floresta.
Sozinho ele admirava a
beleza das coisas, borboletas, as flores, a luz do sol entre as arvores...
As formigas sabiam da
existência dos elefantes, mas não os conheciam pessoalmente, pois corriam desesperadas
em busca de abrigo quando eles se aproximavam afinal cada passada era como um
terremoto escala cinco para elas.
Já os elefantes sabiam
da existência das formigas, mas não as conheciam porque do alto de suas cabeças
era quase impossível notar algo tão minúsculo. Tudo o que sabiam é que eram
algo como pequenos pontos pretos.
Nosso elefante
sonhador estava em seu recanto secreto.
Passava a tromba por
entre as flores para cheirá-las.
Foi quando sentiu que
alguma coisa fazia cócegas na ponta do seu comprido nariz paquiderme.
Levou a tromba até
seu campo de visão.
Se surpreendeu ao ver
uma minúscula formiguinha encolhida e assustada.
- Tenha calma... É... É... O que é você?
- QUEM? O QUE? QUEM DISSE ISSO?
- Hora, eu disse.
A formiga abriu os
olhos e se deparou com um grande “olhão” que olhava fixamente para ela.
- EU SOU UMA FORMIGA, E VOCÊ? É UM GIGANTE?
- Sou um elefante, cara formiga. Encantado.
- O PRAZER É MEU SENHOR ELEFANTE.
- Não precisa gritar. Minhas orelhas são enormes, por isso te
ouço muito bem.
- Oh, me desculpe.
- E o que uma moça tão pequena faz sozinha aqui no meio das
flores?
- Ficando sozinha. Aqui é meu lugar secreto. Bom. Agora não
é mais já que você me descobriu. Venho aqui para ficar longe da minha família.
Eles só pensam em trabalhar, trabalhar e trabalhar o tempo todo. Alguns nem sequer
dormem!
- Que coincidência, este também é o meu lugar secreto, que
agora não é mais secreto porque você também me descobriu. E temos mais que isso
em comum. Também
vim aqui para ficar sozinho e longe da minha família. Eles só dizem que tenho
que casar e ter filhos antes que eu morra. Vitima de caçadores de marfim ou na
boca dos leões!
- AAAAH! Não grite! Quer explodir meus ouvidos?!
- Minhas desculpas senhorita.
- Tudo bem. Mas tente na gritar mais tudo bem?
- Farei o possível.
- Que engraçado. Somos tão diferentes e temos tanto em comum.
- Tem razão. Mesmo sendo pouco, tenho mais em comum com você
do que com os outros elefantes.
- E eu mais com você do que com as outras formigas. Se você
fosse uma formiga eu me casaria com você.
- E se você fosse uma aliá, eu me casaria com você.
- Aliá?
- Sim, aliá, um elefante fêmea.
- Ou sim. Rs. Entre as formigas somos apenas formigas. Sem
gênero ou sexo. Somos dividas somente por classes. Operárias, soldados, rainha.
- Entre os elefantes somos divididos por gênero, machos e
fêmeas. Isso é o que nos define por natureza, machos são de um jeito e fêmeas
de outro, machos certas obrigações e fêmeas outras. Quase como vocês formigas.
- Tem razão.
Por um instante eles não dizem nada.
Mas não param de se olhar com ternura.
A formiga é quem
quebra o silêncio.
- Escuta, porque nós não nos casamos?
O elefante sorriu.
- Hora, seria uma honra casar com uma moça tão bela como
você.
- Então estamos de acordo? – Disse a formiga meio sem jeito.
- Pois a partir de agora eu nos declaro noivos.
Ambos sorriem.
O elefante volta para
a manada feliz e sorridente.
A mãe pergunta:
- Porque está tão
feliz.
- Tenho uma noiva, mamãe!
- Que maravilha filho! E quem é a sortuda?
- Uma linda formiguinha mamãe!
- O QUE!?
A mãe do elefante
quase teve um ataque e teve de ser socorrida as pressas.
A formiga chegou ao
formigueiro, mas ao que parece ninguém deu por sua falta. Afinal lá dentro existam
milhares “iguais” a ela.
A noticia do noivado
correu entre os elefantes.
- Não é possível.
- Tá louco!
- Isso é o que dá ficar muito tempo sem uma fêmea.
O pai era questionado
o tempo todo;
- E aí o que vai fazer como o seu filho?
Ou era motivo de
piada.
- Seu filho heim, quem diria. Logo por uma formiga? Com
tanta aliá gostosa querendo dar pra ele aqui e quer uma formiga... E na hora do
vamo ver? Hahahaha Vai matar a bichinha!
O pai realmente não
sabia mais o que fazer.
A formiguinha voltou
ao seu local secreto que não é mais secreto no dia se seguinte na esperança de
ver seu amado.
No caminho viu seu
amado deitado a sombra de uma arvore.
Achou que ele estava
dormindo e decidiu lhe dar um susto.
A passos curtinhos
escalou ele, chegou pertinho do ouvido e...
- BUUUUU! Hahahaha!
Ela ria esperando a
reação de susto do elefante.
Mas esse não acordou.
- Ei! Acorda dorminhoco!
- Ei! Amor!
- Amoooor!?
- AMOR!?
Seus gritos de
desespero foram ficando cada vez mais cheios de dor e lagrimas.
- AMOOOOOR!
Desesperada ela
correu o mais rápido que pode de volta ao formigueiro, entrou apressada
chorando. Gritava pedindo ajuda.
As outras formigas nem
sequer deram ouvidos.
Em vez de parar seus
afazeres e ajuda-la, elas a contornavam para não atrapalhar sua marcha diária.
De repente outra
formiga entrou anunciando a descoberta.
- Descobrimos alimento! Carne fresca! Uma montanha
gigantesca de carne fresca!
- O que! Não! Vocês não podem devorá-lo! Ele é meu amor! MEU
AMOR!
Um coro com milhares
de risadas ecoou por todo o formigueiro.
Todos sabiam que só a
realeza tinha o privilégio do sexo.
A formiga ainda mais
desesperada tentou deter a fila que já começava a marchar em direção ao
alimento fresco. Foi impedida por um grupo de soldados formiga.
Eles a seguraram.
Ela se debatia com
força.
E eles a mataram sem
o menor remorso.
Afinal ela era só
mais uma dentre outras milhares.
O pai do elefante recém
assassinado transava alegremente com a mamãe elefante, ambos também sem o menor
remorso.
- No próximo a gente acerta! – Ele disse.
- Com certeza querido. – Ela gemeu.
Nenhum comentário:
Postar um comentário