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domingo, 21 de junho de 2015

A cabeça

 Luciana estava afoita para ir ao banheiro, rezando para o elevador chegar rápido ao andar dela. Assim que a porta do elevador se abriu ela saiu apressada já com a chave do apartamento em mãos. Largou a bolsa e as chaves em cima da mesa assim que entrou no banheiro trancou a porta e quase morreu de susto ao levantar a tampa da privada e ouvir um “boa tarde” de uma cabeça de um homem que estava dentro da privada.
- AAAAA!
- Por favor dona, não em cima de mim.
- O que é isso?! – Gritou Luciana apavorada.
- Olha nem mesmo eu sei muito bem como vim para aqui na sua privada dona. Só por favor, não faz em cima de mim ta?
- E como diabos você foi para ai!?
- Eu estava andando na rua e cai em um bueiro. Então a procura superfície eu cheguei aqui na sua privada. Só que eu fiquei entalado.
- Olha moço o senhor da licença um minutinho ta.
- Tem toda.
  Luciana sai apressada do banheiro e vai até o apartamento vizinho.
- Boa tarde.
- Boa tarde vizinha, o que a trás aqui? – Disse alegremente Dona Silvana do 208.
- Eu poderia usar o seu banheiro? É que o meu esta com um problema no encanamento e...
- Mas é claro minha filha, pode ir lá.
 Luciana entrou e se aliviou usando o banheiro da vizinha. Tempo esse para se refazer do susto e pensar no tamanho da bizarrice que acabara de presenciar em seu banheiro.
 Depois de resolver o que veio fazer no apartamento vizinho, agradeceu a gentileza da moradora e voltou para o seu apartamento.
 Hesitou por um momento. Tinha mesmo um sujeito dentro do seu vaso sanitário? Ou era só coisa da cabeça dela? Será que ele já tinha ido embora? Ou ia morar ali para sempre? Ela teria que receber as visitas dele em seu banheiro. E quem sabe até a família dele insistisse para habitar o pequeno cubículo só para não ficar longe do pai. No pior dos casos ela venderia o apartamento para eles, mas como viveriam sem poder usar o banheiro? Usariam o do vizinho o resto da vida?
 Respirou fundo, tomou coragem e adentrou o banheiro.
 O homem, ou ao menos a cabeça que era a parte visível dele, ainda continuava no vaso.
- Escuta, esse banheiro é meu! – Disse Luciana imponente.
- Sim dona.
- Você nunca ouviu falar em privacidade? Em propriedade privada?
- Sim, entendo que a privada seja sua senhorita. Mas eu juro. Eu juro que foi um acidente! – O homem baubuçiava.
- Ahã. E quem garante que você não é só uma alucinação da minha cabeça? Ou algum tarado que se enfiou aí só para me espiar.
- A senhora está me acusando? Eu já disse que vim parar aqui por mera casualidade! E se pudesse escolher eu escolheria uma privada mais limpinha pelo menos!
 Luciana ficou possessa.
- Muito me admira o senhor invadindo o banheiro dos outros sem permissão! Já sei! Você é um ladrão. Um ladrão que entra nas casas dos outros pela privada para roubar. Pois bem feito que ficou entalado aí.
- Moça... Senhorita...Você ainda não percebeu a gravidade da coisa? Eu cai em um bueiro! Um bueiro no meio da rua e vim parar aqui na sua privada! Isso é impossível de acontecer!
- Pensa que me engana não é seu ladrão tarado! Pois bem, você vai sair daí por onde entrou!
 Luciana aciona a descarga e empurra o sujeito vaso a dentro com a vassourinha do banheiro.
- Para com isso! Para! A senhora ta me machucando! Ai!
 Com muito esforço e muitos litros de água desperdiçados a cabeça desce descarga a baixo.

 Luciana questiona se havia mesmo um corpo ligado a aquela cabeça se perguntando sobre o que havia ocorrido ali. Na quarta ela contaria para o seu terapeuta. Mas de uma coisa ela tinha certeza. Ninguém fala mal da limpeza do banheiro dela, ah isso não.

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