Sentado com um amigo
na entrada do mercado converso animadamente sem me preocupar com o tempo.
Pessoas adentram o mercado
e algum tempo depois saem abarrotadas de sacolas e dividas nos cartões.
Uma moça com
guarda-chuva está parada a espera de alguém há algum tempo.
Continuamos a
conversa com uma ou outra olhada para a moça de guarda chuva.
Passados uns dez
minutos ele vem até nós e pergunta as horas.
Ela é gatinha –
Penso.
Meu amigo lhe diz as
horas, aproveitando o mote ela educadamente pede para usar o celular.
O celular dele estava
sem créditos, prontamente ofereço o meu.
- Porque as pessoas não andam mais com cartões telefônicos?
O celular em vez de acudir emergências agora só serve para joguinhos e bater
papo furado. E quando a gente realmente precisa deles a bateria acaba ou os acabam
os créditos. – Pensei – Ela é gostosa – Pensei de novo.
Enquanto ela fala ao
celular da uma bronca no pai e o mistério é revela. Ela estava esperando o pai
vir buscá-la de carro.
Ela agradece devolve
o celular e fica por perto, talvez esperando que um de nós puxe assunto ou peça
o número dela em troca como a maioria dos caras faz.
Mas isso não
acontece.
Porque somos tímidos?
Talvez.
Mas às vezes me
pergunto se toda a mulher bonita que vemos é uma “presa” em potencial.
Nós homens somos
influenciados desde pequenos com a visão do mundo como um grande açougue em que
as mulheres são como peças de carne só esperando para serem degustadas.
Não que eu pense de
forma tão distante disso. Na mente de cada um é permitido pensar o que quisermos.
Agora o que desses pensamentos vão se concretizar em ações é que o deve ser
moderado. Talvez por isso sejamos humanos. Não seguimos somente os instintos
cegamente. Temos a capacidade de questionar.
Vestidinho, all star
sem meia, cabelinho chanel... Ela é uma gracinha – Continuo pensando.
De repente ela se
afasta em direção a um carro que para na rua e entra.
Nós continuamos sentados
no mesmo lugar, agora comentando sobre o fato.
Se era uma
oportunidade ou mero acaso eu não faço idéia.
Sei que às vezes eu
penso demais. Ou de menos. Quem sabe.
Passados alguns
quartos de hora entra em cena um sujeito maltrapilho. Ele fica por ali pedindo
uma “ajudinha” para os clientes que saem do mercado em direção a suas casas
quentinhas e confortáveis com mantimentos para uma farta refeição. E o homem
ali pedindo ajuda para onde voltará? Para a rua? A noite é fria e chuvosa.
Ninguém lhe da atenção. Ele se dirige de forma alegre e mesmo não recebendo
nada agradece.
As pessoas continuam
passando, somente nós e o maltrapilho são personagens fixos na cena.
Algumas lhe dão
atenção, outras não.
Ele canta, brinca,
parece feliz.
Comento sobre o fato
discretamente com meu amigo.
Um sujeito com as
mãos cheias de sacolas passa e o homem lhe pede uma “ajudinha”, o sujeito lhe responde de forma grosseira e ao
mesmo tempo realista e sincera.
- É seu filho da puta! Toma vergonha nessa sua cara, deixa
sua filha sozinha em casa para vir aqui pedir dinheiro para tomar cachaça! Eu
sei que você mora ali embaixo, tu não me engana não seu filho da puta!
E segue rumo ao ponto
de ônibus.
Comentando sobre o
acontecido rimos descaradamente.
O maltrapilho agora
desmascarado se irrita e começa a falar um monte de coisas que não damos
atenção, até perceber que ele fala conosco.
Quantas vezes não
somos enganados pelas aparências, falando de corrupção a nível nacional esquecendo-se
que existem corruptos em todo o lugar e que até nós mesmos somos corruptos.
O sujeito xinga e
fala um monte de coisas sem sentido como se nossa gargalhada fosse o real motivo
da sua vergonha.
Eu sei que não é
cordial rir da desgraça alheia.
Ou apontar o dedo
quando não somos tão melhores assim que os outros.
Mas infelizmente eu
não posso mudar o mundo, quando muito minhas atitudes. O mundo está aí do jeito
que está ou você mergulha nele no meio de toda a bosta ou fica olhando de fora,
sozinho.
Nos retiramos da cena
e o sujeito continua a xingar de longe.
Nos dirigimos para
nossas casas, quentinhas e cheias de mantimentos para uma farta refeição.
O sujeito eu não sei
que fim levou.
Só sei que minha consciência
está tranquila.
Porque a mocinha
aparentava ter menos de 18.
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