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sexta-feira, 5 de junho de 2015

Mercado

 Sentado com um amigo na entrada do mercado converso animadamente sem me preocupar com o tempo.
 Pessoas adentram o mercado e algum tempo depois saem abarrotadas de sacolas e dividas nos cartões.
 Uma moça com guarda-chuva está parada a espera de alguém há algum tempo.
 Continuamos a conversa com uma ou outra olhada para a moça de guarda chuva.
 Passados uns dez minutos ele vem até nós e pergunta as horas.
 Ela é gatinha – Penso.
 Meu amigo lhe diz as horas, aproveitando o mote ela educadamente pede para usar o celular.
 O celular dele estava sem créditos, prontamente ofereço o meu.
- Porque as pessoas não andam mais com cartões telefônicos? O celular em vez de acudir emergências agora só serve para joguinhos e bater papo furado. E quando a gente realmente precisa deles a bateria acaba ou os acabam os créditos. – Pensei – Ela é gostosa – Pensei de novo.
 Enquanto ela fala ao celular da uma bronca no pai e o mistério é revela. Ela estava esperando o pai vir buscá-la de carro.
 Ela agradece devolve o celular e fica por perto, talvez esperando que um de nós puxe assunto ou peça o número dela em troca como a maioria dos caras faz.
 Mas isso não acontece.
 Porque somos tímidos?
 Talvez.
 Mas às vezes me pergunto se toda a mulher bonita que vemos é uma “presa” em potencial.
 Nós homens somos influenciados desde pequenos com a visão do mundo como um grande açougue em que as mulheres são como peças de carne só esperando para serem degustadas.
 Não que eu pense de forma tão distante disso. Na mente de cada um é permitido pensar o que quisermos. Agora o que desses pensamentos vão se concretizar em ações é que o deve ser moderado. Talvez por isso sejamos humanos. Não seguimos somente os instintos cegamente. Temos a capacidade de questionar.
 Vestidinho, all star sem meia, cabelinho chanel... Ela é uma gracinha – Continuo pensando.
 De repente ela se afasta em direção a um carro que para na rua e entra.
 Nós continuamos sentados no mesmo lugar, agora comentando sobre o fato.
 Se era uma oportunidade ou mero acaso eu não faço idéia.
 Sei que às vezes eu penso demais. Ou de menos. Quem sabe.
 Passados alguns quartos de hora entra em cena um sujeito maltrapilho. Ele fica por ali pedindo uma “ajudinha” para os clientes que saem do mercado em direção a suas casas quentinhas e confortáveis com mantimentos para uma farta refeição. E o homem ali pedindo ajuda para onde voltará? Para a rua? A noite é fria e chuvosa. Ninguém lhe da atenção. Ele se dirige de forma alegre e mesmo não recebendo nada agradece.
 As pessoas continuam passando, somente nós e o maltrapilho são personagens fixos na cena.
 Algumas lhe dão atenção, outras não.
 Ele canta, brinca, parece feliz.
 Comento sobre o fato discretamente com meu amigo.
 Um sujeito com as mãos cheias de sacolas passa e o homem lhe pede uma “ajudinha”,  o sujeito lhe responde de forma grosseira e ao mesmo tempo realista e sincera.
- É seu filho da puta! Toma vergonha nessa sua cara, deixa sua filha sozinha em casa para vir aqui pedir dinheiro para tomar cachaça! Eu sei que você mora ali embaixo, tu não me engana não seu filho da puta!
 E segue rumo ao ponto de ônibus.
 Comentando sobre o acontecido rimos descaradamente.
 O maltrapilho agora desmascarado se irrita e começa a falar um monte de coisas que não damos atenção, até perceber que ele fala conosco.
 Quantas vezes não somos enganados pelas aparências, falando de corrupção a nível nacional esquecendo-se que existem corruptos em todo o lugar e que até nós mesmos somos corruptos.
 O sujeito xinga e fala um monte de coisas sem sentido como se nossa gargalhada fosse o real motivo da sua vergonha.
 Eu sei que não é cordial rir da desgraça alheia.
 Ou apontar o dedo quando não somos tão melhores assim que os outros.
 Mas infelizmente eu não posso mudar o mundo, quando muito minhas atitudes. O mundo está aí do jeito que está ou você mergulha nele no meio de toda a bosta ou fica olhando de fora, sozinho.
 Nos retiramos da cena e o sujeito continua a xingar de longe.
 Nos dirigimos para nossas casas, quentinhas e cheias de mantimentos para uma farta refeição.
 O sujeito eu não sei que fim levou.
 Só sei que minha consciência está tranquila.
 Porque a mocinha aparentava ter menos de 18.

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