Seu Jóca - Jóquinha para os conhecidos - é dono de uma casa de ração para animais na periferia de uma grande cidade.
Os pássaros são sua paixão. Conhece centenas de espécies, sabe imitar uma porção de cantos. Tanto que as crianças sempre que vão buscar algo em sua loja pedem:
- Seu Jóca imita meu passarinho.
Disse um menino que estava comprando ração para canário.
E seu Jóca assoviava docemente o canto de um canário belga.
Jóca tinha um habito incomum, comia sementes de girassol torradas com sal.
As pessoas do bairro - que geralmente não sabem fazer outra coisa melhor do que meter o nariz na vida alheia - quando viam seu Jóca sentado na porta da loja com uma canequinha cheia de sementes de girassol torradas com sal, faziam chacota.
- Piu Piu Piu.
- Loro! Loro! Curupaco!
A mulher vivia dando-lhe bronca.
- Olha a pressão Jóquinha! Você não pode comer sal!
Ele não ligava.
Só apreciava o céu azul, a vista da rua e suas sementes, enquanto repousava os joelhos cansados sentado num banquinho de madeira.
Vendia ração para pássaros, mas tinha dó deles. Nunca teve um passarinho de gaiola na vida, achava que todos tinham que viver soltos para voar pelo céu. Recordava de quando era criança, das arvores e pomares cheios de cantos de passarinhos e frutas maduras. Como eram bons aqueles tempos, hoje na rua a gente mal vê um pardal.
E assim passavam as tardes, as semanas, os meses...
Numa tarde de sábado, Jóca habitualmente estava repousando e comendo sua iguaria. De súbito sentiu uma dor no peito e morreu ali mesmo, sentado em seu banco enquanto comia sementes de girassol.
Foi um infarto fulminante.
A multidão de curiosos se dispersou depois que levaram o corpo embora.
A mulher do seu Jóca, dona Carolinha, foi quem reabriu a loja alguns dias depois. Deixou tudo arrumado como o finado marido costumava deixar, inclusive o banquinho que era a companhia dele nas tardes.
Um dia desses, dona Carolinha ouviu um canto de pássaro preto, não pode evitar se lembrar do marido. Quando se deu por conta o bicho estava pousado sobre o banco onde o marido ficava, perguntou aos vizinhos se alguém era dono do bichinho.
Ninguém deu falta por nenhum pássaro desse tipo.
Ela pensou e decidiu ficar com o pássaro, afinal numa cidade grande como essa ele não duraria muito tempo sozinho.
Batizou o pássaro preto de Jóquinha, em homenagem ao finado marido.
Jóquinha (o pássaro) era muito dócil e era criado sem gaiola, tinha um poleiro num canto da loja, sem grades e nem prisão se quisesse ir embora podia ir. Dona Carolinha nem ao menos cortou lhe as asas.
No meio da tarde dona Carolinha também se acostumou a sentar na porta da loja para repousar e olhar a rua.
O pássaro ao vê-la, ia para perto.
Dona Carolinha pedia:
- Canta meu Jóquinha, canta pra alegrar meu coração.
E o passarinho cantava e cantava.
O que ninguém fazia idéia era que o pássaro Jóquinha era nada menos que o velho Jóca. Que de tanto ansiar, depois que partiu renasceu como um lindo pássaro preto livre para cortar os céus e voar pelo mundo.
Mas o velho Jóca sabia que as coisas não eram como antigamente, passarinho hoje não pode voar solto por aí.
Ciente disso, assim que aprendeu a voar, tratou logo de voltar para sua loja. A gaiola onde viveu seus últimos dias como humano e seus últimos dias como pássaro.
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