O Sol está quase se pondo e cá estou eu caminhando para o ponto de ônibus, que para variar está mais cheio que carnaval de Rua na Bahia.
Nosso Abadá é o bilhete único.
Preso no meio da multidão avisto a lotação vindo devagarzinho ali na curva.
É a minha.
O cobrador – Um sujeito grande e com capuz de carrasco - vem gritando com sua voz de trovão:
- Jardim Miriam! - Isso enquanto empunha sua vara de bambu (para varal).
O pequeno veiculo para no ponto.
A multidão avança, o cobrador usa o bambu para afastar os apressados para que uma velha senhora possa desembarcar. Suas tentativas são em vão, a velha já foi pisoteada. Os passageiros embarcam como um verdadeiro estouro de boiada.
Não consigo dar um passo sequer, hora de usar minha técnica suprema.
- Rock n’ Roll!
E me jogo por cima da multidão, sou levado para dentro da lotação num piscar de segundos pelas mãos que me arremessam para frente. Ah! Nada como a solidariedade.
Pronto, já estou dentro, com um olho roxo de uma cotovelada. Até lutador de MMA apanharia de uma multidão de passageiros ferozes como essa.
Saímos do ponto.
Incrivelmente todos os semáforos fecham quando a gente está na lotação, e ela não anda. Olho por uma pequena fresta os carros do lado de fora, com ar condicionado, musica ambiente e todo conforto... Olho com inveja, claro.
No próximo ponto um sujeito se arrisca a dar sinal, a lotação nem sequer para, o cobrador pela janela com seu bambu (para varal) numa fisgada joga o sujeito para o alto. Ele cai dentro da lotação passando pela abertura da clarabóia no teto.
Nessa altura da viagem não sinto mais minhas pernas, já estão dormentes.
O calor começa a ficar insuportável.
- Ar! Ar! Ar! - Alguém grita - Alguém abre uma janela pelo amor de Deus!
Negativo.
A lotação se aproxima de outro ponto, não abram as janelas ou vai ter mais gente tentando entrar pelas frestas! – Ordena o motorista.
Me sinto dentro de um barco pirata, o motorista é o capitão e nos somos seus prisioneiros de guerra. E falando nisso chega o morro. Os homens são obrigados a descer e o motorista novamente ordena!
- Empurrem! Empurrem!
Caso contrario a lotação não vai.
Quem se recusa a empurrar é ameaçado de levar uma bambuada do cobrador nas costas.
E assim vamos empurrando desde o pé até o topo do morro.
Entramos novamente na lotação.
Passado um bom quarto de hora e com todo mundo mais espremido dentro da lotação do que café embalado a vácuo, o curso segue.
Vejo um caminhão de lixo passando e começo a ter inveja... Dos sacos de lixo!
Então, angustiantes duas horas depois chegamos a ponto final.
Ninguém desceu no meio do caminho, provavelmente porque não conseguiu sair do lugar ou por medo de levar uma bambuada.
A lotação para no ponto
Dentre mortos e feridos os sobreviventes desembarcam e podem seguir para suas casas, para amanhã passa por isso tudo de novo.
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