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quarta-feira, 22 de abril de 2015

Às vezes dá vontade.

Sexta feira começo de noite e eu no ônibus cheio.
 Pelo menos eu estou sentado, pensei.
 Quando uma moça entra com uma caixa de esfirras nas mãos e senta alguns bancos à frente.
 Seria só mais uma passageira não fossem as esfirras.
Volta e meia é a mesma coisa, eu com fome e entra um com esfirra no busão, devia ser proibido entra com esfirra no ônibus. Sente só esse cheiro impestiando tudo.
 Da vontade de comprar também só para ter o prazer de fazer isso.
 Por pura maldade.
 Todo mundo com fome e da-lhe eu entrando no ônibus com uma caixinha de esfirra na mão.
 Olha que coisa linda!
 Todos famintos querendo chegar em casa rápido, pensando na comida da mulher ou que vão ter que preparar a própria. Salivando com água na boca e eu de boa com minha caixinha de esfirras exalando o cheiro da fome no ar.
 E digo mais.
 Não vou nem esperar chegar em casa.
 Vou comer no busão mesmo!
 Só para ver os olhares compridos dos outros com inveja!
 E que essa moça esteja no ônibus nesse dia, só para saber o que eu estou passando agora!
 Eu faço, ah eu faço!

 Segunda de manhã, eu saio de casa.
- Putz, pisei na merda...Tsc! Caralho!
 Volto para dentro de casa para trocar de tênis.
 A noite chegando em casa encontro a vizinha passeando com o cachorro. O criminoso volta a cena do crime, e ainda estava cometendo o mesmo delito de novo.
- Poxa, mas bem no meu portão? – Reclamo.
- Desculpa moço, é que ele só faz na rua sabe.
- Tudo bem, mas você podia andar com um saquinho pra recolher o cocô não?
 Ela dá um sorriso amarelo, se desculpa de novo e vai para a casa dela.
 Na manhã seguinte, saio de casa e uma visita me aguarda no portão.
 Outros montinhos de cocô do cachorro da vizinha.
 Isso é folga demais.
 Agora só falta ela tocar a campainha para eu ir recolher.
 Continuei irritado, mas relevei.
- Nossa que calçada porca. Imagina dentro de casa.
 Dizia mãe da dona do cachorro para outra vizinha da laje ao lado.
 Ouvir isso foi a gota da água.
 Eu estava atrasado e não tinha dado a minha cagada matinal, resolvi usar isso a meu favor.
 Abaixei as calças, agachei na calçada da vizinha e o resto você já pode imaginar.
 E depois ainda toquei a campainha deixando um bilhetinho.
 “Desculpa, mas é que eu só faço na rua sabe”.
 Nunca mais encontrei cocô na minha calçada.

 Cocô não, mas coisa pior sim.
 Chegando em casa um carro com som alto incomodava a todos na rua.
 E o bonito ainda estava estacionado bem na minha calçada.
 Olhei feio para as pessoas em volta do carro que me ignoraram.
 Resolvi que não ia me irritar com isso.
 Abri o portão e entrei em casa com toda a calma e tranqüilidade do mundo.
 E vocês nem sabem o que aconteceu?
 Minha geladeira caiu da laje de casa bem cima do carro.
 Que chateação... Amanhã vou ter que comprar uma nova.
 E o pior...
 É que não matou ninguém.


 Sabemos que eu não faria isso realmente, mas que dá uma vontade. Tem hora que dá!

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