Decidiu que a vida não valia mais a pena e
resolveu se matar por isso lá estava ele sentado na mureta do viaduto.
Outro homem se aproxima,
contempla o horizonte com seu semblante amargurado e cinzento.
- Você não vai me impedir! Se
chegar mais perto eu pulo!
- Ta bom, vai. Não é meu parente
mesmo. – Responde o homem acendendo um cigarro.
- Olha que eu vou mesmo! Minha vida
não vale nada. – O pretendente a suicida começa a desabafar - Minha mulher me
trocou por outro, a empresa me mandou embora. Não me resta mais nada nesse
mundo! A vida que eu construí com tanta dedicação. Anos de estudo. Faculdade!
Tudo para que? Para ser descartado feito papel higiênico usado. Vê? PAPEL
HIGIÊNICO USADO! Porque até o cocô tem serventia nesse mundo. Mas papel
Higiênico usado? Não! Quando ta limpo ainda serve pra limpar a bunda, e depois?
Depois é lixo. E é o que eu sou agora, um papel higiênico usado!
- Ta, ta. Não me torra o saco e
pula logo. – Diz o outro após soltar uma baforada de fumaça pelo nariz.
- Mas sabe, podia tudo ter sido
diferente. A minha vida. Eu troquei minha vida pela carreira. Meu sonho, eu
abri mão até do meu sonho de ser artista, pela empresa. Entrei lá como oficce
boy e cheguei a gerente de área. Sabe o que é isso?
- Não, e não me interessa. – Diz o
outro dando uma tragada, sem tirar os olhos do horizonte.
- Um dos cargos de chefia mais
importantes! Mais um ano eu ia chegar à diretoria! Mas não. Preferem um cara
novinho, só porque ele fala inglês sabe? Você fala inglês?
- Não.
- E a minha mulher? Quantas fodas e
noitadas eu perdi? Quantos amores? Eu! Eu que me descobri gay! Reprimi minha
satisfação sexual para não fazer feio aos olhos da sociedade. Eu me casei com
uma mulher mesmo desejando não só um, mas vários homens! Dei minha vida pelo
meu casamento, trabalhei igual um condenado para dar a ela do bom e do melhor.
E como ela me retribuiu? Com um par de chifres. UM PAR DE CHIFRES! E ainda me
disse que eu tenho pinto pequeno. Você acha que eu tenho pinto pequeno? Olha!
- Virá essa merdinha pra lá oh “fila
da puta”!
- Merdinha? Eu sabia. Eu sabia, ela
me deixou porque eu tenho pinto pequeno! Elas dizem que tamanho não importa.
Mentira! Agora sou corno, desempregado e tenho pinto pequeno!
O outro dá uma tragada profunda seguida de uma
baforada de fumaça visível no sereno da madrugada.
- Olha, eu ia ficar quieto só pra
ver você se estatelar feito bosta lá embaixo, mas vou te contar uma coisa. Eu tenho
câncer no reto. E não é do tipo que da pra curar. E do tipo que vai me matar! –
Ele olha para o pretendente a suicida - Imagine o que resta de dignidade para
um homem que não pode cagar sem urrar de dor. Antes eu ia ao banheiro na santa
paz, na sagrada solidão, na divina privacidade do banheiro e agora, agora eu
não consigo mais ter o prazer de uma cagada! Eu to condenado. Eu vou morrer! E
sem nunca mais dar uma cagadinha sem urrar de dor.
O suicida olha perplexo.
- Pois é. – Continuou o homem - O
que você perdeu você pode reconquistar. O que você perdeu da pra repor. E a
minha vida? Quem vai repor? Deus? Eu não acredito nessas merda de reencarnação
e o escambal. Se matar é simples, o problema é quando você não morre. O
problema é quando você descobre que a morte está fungando no seu cangote,
jogando sua vida pelo ralo e você não pode fazer porra nenhuma a não ser acender
um cigarro e esperar a próxima sessão de dor e sofrimento.
- Mas... O que eu tenho? Eu perdi
tudo!
- Você tem duas opções. Levantar e
ir à luta. Ou se estatelar lá embaixo feito bosta. O que vai ser?
- Eu...eu...
- Já imaginou a dor do seu crânio
estourando na pancada? O sangue escorrendo pela calçada? Os cachorros comendo
seus miolos e a multidão de curiosos em volta? E não se esqueça da televisão,
ah aqueles amam uma tragédia. Só aproveita que a fama dura pouco. E daqui um
mês ninguém vai nem saber quem era você. Sua mulher vai estar dando pra outro
feliz da vida. Sua empresa já achou uma nova engrenagem para substituir você. E
você lá no caixão sendo comido pelos bichos achando que sua falta faz alguma
diferença pro mundo. – Mais uma tragada - Faz um favor, levanta daí e vai viver
a merda da sua vida ou se joga logo antes que eu vá aí e te empurre.
- Porra cara...Caralho – disse o
suicida em prantos – Você me convenceu cara. Eu tenho muito pra viver. Eu posso
dar a volta por cima. Ir em frente.
O suicida se vira para passar
para dentro da murada e de repente um escorregão fatal.
AAAAAAAAAAAAAAAA!
O outro vê a cena sem se
manifestar.
Um estrondo rompe o silêncio da madrugada
despertando os mendigos debaixo do viadulto.
O outro olha no celular a hora, o dia já vai
amanhecer, joga a bituca de cigarro no chão e sai andando sem alterar seu
semblante.
Caminha em direção ao hospital para ver a cara
de piedade do médico incapaz de salvar sua vida.
Vê um cachorro cagando na
calçada.
- Feliz é
você cachorro!
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