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sábado, 25 de abril de 2015

Suicida

 Decidiu que a vida não valia mais a pena e resolveu se matar por isso lá estava ele sentado na mureta do viaduto.
 Outro homem se aproxima, contempla o horizonte com seu semblante amargurado e cinzento.
- Você não vai me impedir! Se chegar mais perto eu pulo!
- Ta bom, vai. Não é meu parente mesmo. – Responde o homem acendendo um cigarro.
- Olha que eu vou mesmo! Minha vida não vale nada. – O pretendente a suicida começa a desabafar - Minha mulher me trocou por outro, a empresa me mandou embora. Não me resta mais nada nesse mundo! A vida que eu construí com tanta dedicação. Anos de estudo. Faculdade! Tudo para que?  Para ser descartado feito papel higiênico usado. Vê? PAPEL HIGIÊNICO USADO! Porque até o cocô tem serventia nesse mundo. Mas papel Higiênico usado? Não! Quando ta limpo ainda serve pra limpar a bunda, e depois? Depois é lixo. E é o que eu sou agora, um papel higiênico usado!
- Ta, ta. Não me torra o saco e pula logo. – Diz o outro após soltar uma baforada de fumaça pelo nariz.
- Mas sabe, podia tudo ter sido diferente. A minha vida. Eu troquei minha vida pela carreira. Meu sonho, eu abri mão até do meu sonho de ser artista, pela empresa. Entrei lá como oficce boy e cheguei a gerente de área. Sabe o que é isso?
- Não, e não me interessa. – Diz o outro dando uma tragada, sem tirar os olhos do horizonte.
- Um dos cargos de chefia mais importantes! Mais um ano eu ia chegar à diretoria! Mas não. Preferem um cara novinho, só porque ele fala inglês sabe? Você fala inglês?
- Não.
- E a minha mulher? Quantas fodas e noitadas eu perdi? Quantos amores? Eu! Eu que me descobri gay! Reprimi minha satisfação sexual para não fazer feio aos olhos da sociedade. Eu me casei com uma mulher mesmo desejando não só um, mas vários homens! Dei minha vida pelo meu casamento, trabalhei igual um condenado para dar a ela do bom e do melhor. E como ela me retribuiu? Com um par de chifres. UM PAR DE CHIFRES! E ainda me disse que eu tenho pinto pequeno. Você acha que eu tenho pinto pequeno? Olha!
- Virá essa merdinha pra lá oh “fila da puta”!
- Merdinha? Eu sabia. Eu sabia, ela me deixou porque eu tenho pinto pequeno! Elas dizem que tamanho não importa. Mentira! Agora sou corno, desempregado e tenho pinto pequeno!
 O outro dá uma tragada profunda seguida de uma baforada de fumaça visível no sereno da madrugada.
- Olha, eu ia ficar quieto só pra ver você se estatelar feito bosta lá embaixo, mas vou te contar uma coisa. Eu tenho câncer no reto. E não é do tipo que da pra curar. E do tipo que vai me matar! – Ele olha para o pretendente a suicida - Imagine o que resta de dignidade para um homem que não pode cagar sem urrar de dor. Antes eu ia ao banheiro na santa paz, na sagrada solidão, na divina privacidade do banheiro e agora, agora eu não consigo mais ter o prazer de uma cagada! Eu to condenado. Eu vou morrer! E sem nunca mais dar uma cagadinha sem urrar de dor.
 O suicida olha perplexo.
- Pois é. – Continuou o homem - O que você perdeu você pode reconquistar. O que você perdeu da pra repor. E a minha vida? Quem vai repor? Deus? Eu não acredito nessas merda de reencarnação e o escambal. Se matar é simples, o problema é quando você não morre. O problema é quando você descobre que a morte está fungando no seu cangote, jogando sua vida pelo ralo e você não pode fazer porra nenhuma a não ser acender um cigarro e esperar a próxima sessão de dor e sofrimento.
- Mas... O que eu tenho? Eu perdi tudo!
- Você tem duas opções. Levantar e ir à luta. Ou se estatelar lá embaixo feito bosta. O que vai ser?
- Eu...eu...
- Já imaginou a dor do seu crânio estourando na pancada? O sangue escorrendo pela calçada? Os cachorros comendo seus miolos e a multidão de curiosos em volta? E não se esqueça da televisão, ah aqueles amam uma tragédia. Só aproveita que a fama dura pouco. E daqui um mês ninguém vai nem saber quem era você. Sua mulher vai estar dando pra outro feliz da vida. Sua empresa já achou uma nova engrenagem para substituir você. E você lá no caixão sendo comido pelos bichos achando que sua falta faz alguma diferença pro mundo. – Mais uma tragada - Faz um favor, levanta daí e vai viver a merda da sua vida ou se joga logo antes que eu vá aí e te empurre.
- Porra cara...Caralho – disse o suicida em prantos – Você me convenceu cara. Eu tenho muito pra viver. Eu posso dar a volta por cima. Ir em frente.
 O suicida se vira para passar para dentro da murada e de repente um escorregão fatal.
 AAAAAAAAAAAAAAAA!
 O outro vê a cena sem se manifestar.
 Um estrondo rompe o silêncio da madrugada despertando os mendigos debaixo do viadulto.
 O outro olha no celular a hora, o dia já vai amanhecer, joga a bituca de cigarro no chão e sai andando sem alterar seu semblante.
 Caminha em direção ao hospital para ver a cara de piedade do médico incapaz de salvar sua vida.
 Vê um cachorro cagando na calçada.

 - Feliz é você cachorro!

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