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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Latinha

Durante o dia todo, todos os dias, os ônibus chegam e partem do ponto final em frente à padaria.
 O fiscal e os motoristas fazem daquele local uma morada temporária até o fim dos seus turnos. E quando todos se vão a única moradora fixa do ponto de ônibus permanece lá.
 Uma vira lata preta.
 Ela não tem nome, afinal, até onde eu sei os cachorros não dão nome uns aos outros. Porém os funcionários da empresa de ônibus a chamam de latinha.
 Dão-lhe comida atenção e sempre arranjam uma caixa de papelão nova para servir-lhe de abrigo.
 Começo de noite.
 Mais um ônibus lotado chega ao ponto. As pessoas se preparam para descer quando um sujeito se aproximando do veículo anuncia:
- Desce, desce, desce que eu vou taca fogo no busão!
 Já foi subindo no coletivo com um galão de gasolina e a arma em punho.
- Aí “moto”, fica na sua meirmão! - Disse rendendo o motorista - Vai todo mundo virar churrasquinho!
 Um vulto preto entra correndo pela porta do ônibus e CRAU! Latinha dá uma mordida bem no saco do bandido que cai no chão de tanta dor. Tempo de o motorista dar um tapa no botão de acionamento das portas e os passageiros começarem a sair em pânico.
 A cachorra rosnando em fúria não largava o bandido por nada. E esse mesmo atordoado pela dor ainda consegue alcançar a arma e PAU!
 Um tiro abre um buraco na cabeça da cachorra.
 O galão de gasolina que ele trazia, na confusão já estava no chão e a gasolina se espalhara.
 A essa altura todos já estão fora do coletivo, mas o homem ainda está armado.
 Chuta o cadáver da cachorra que esvaia em sangue, levanta urrando de dor.
 Desce do ônibus com a arma em punho olhando para todos os lados procurando seu comparsa que já havia fugiu.
 Possesso de raiva mira no cadáver da cachorra que jazia perto da porta e da mais um tiro.
 PAU!
 A bala ricocheteia no chão metálico do ônibus e provoca uma pequena fagulha
 A gasolina que já havia se espalhado pelo chão se incendeia e “VLUF”! Uma nuvem de fogo se forma no ar. Fogo que também atingiu o meliante que não havia notado que estava com as calças empapadas de gasolina.
 Larga a arma enquanto tenta tirar as calças em chamas desesperado, ignorando até a dor colossal que sentia em seus testículos.
 A polícia chega a tempo de acudir o meliante antes de leva-lo preso.
 Quem não teve a mesma sorte foi a cachorrinha latinha.

 Com seu ato heróico salvou algumas vidas em troca da própria.
 O fato foi noticiado na televisão, latinha foi considerada heroína.
 Porém, até onde eu sei os cachorros não se importam em ser notícia.
 E naquela noite os cães do bairro uivaram gemidos tristes, como se soubessem que um dos seus, havia partido.

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