Everton trabalha no
banco, fez faculdade de economia, tem mulher, três filhos e um maço de cigarros
no bolso.
Começou a fumar lá
pelos quinze anos de idade.
Afinal quem não
queria o glamour de segurar um cigarrinho entre os dedos, ou bancar o fodão
olhando como cara de mau enquanto fala e acende o cigarro na boca.
Irresistível não?
Agora cá está ele com
35 anos, gerente de banco, nunca parou de fumar.
No começo eram um ou
dois cigarrinhos por dia, fumava socialmente como costumam dizer. Hoje dois
maços ao dia é pouco. Acende um cigarro a cada quinze minutos se deixar.
Acorda fuma. Toma café
fuma. Entra no carro fuma. Antes de trabalhar fuma. Toma mais café, fuma. E por
aí vai.
Usa o estresse da
profissão como desculpa para seu habito não saudável.
Porém de uma semana
para cá a coisa foi ficando cada dia pior.
Acorda fuma. Fuma,
toma café, fuma de novo. Mal termina um acende outro. A mulher está preocupada.
- Everton ce tá fumando demais, nem eu agüento mais esse
fedo de cigarro dentro de casa, mais um pouco e chamam o bombeiro por causa de
tanta fumaça.
- Não enche mulher.
E acende mais um.
Seu supervisor no
banco teve de intervir.
- Everton, você não trabalha mais cara. A cada dez minutos
sai pra fumar. Assim eu vou ter que te afastar. Procura um médico cara.
Everton fervia por
dentro como água pra fazer café (e até essa metáfora deu-lhe vontade de fumar).
Com sua respiração
ofegante e voz rouca ele respondeu.
-Tá bom chefe. Tá bom. Cof! Cof!
Se no trabalho estava
ruim em casa ele ia de mal a pior, há dois meses não transava com a mulher. Faltava
fôlego até para subir um lance de degraus quanto mais para praticar sexo. A
mulher propôs que ele ficasse por baixo, mas na hora H seu amigo falhou. Estava
mais mole que gelatina.
Preocupado ele
acendeu outro cigarro, depois mais um e mais um, não dormiu aquela noite. Lá
pela seis da manhã cochilou um pouco.
Acordou com a mulher em
pânico e um cheiro de queimado no ar.
- Everton seu pá tá em brasa!
- Eita. Pega um balde da água rápido!
As crianças vieram
correndo ver o que estava acontecendo com o pai.
- Pai, pai!
- Não olha filho! Não olha!
A mulher chega com um
balde de água e chuaaa! Despeja em cima do pé em brasa.
De nada adianta, um
fumaceiro sobe e o pé continua em brasa, só que agora parecia queimar ainda
mais rápido! Já começou a subir para canela e o pé já se desfaz feito cinza.
O estranho é que
Everton não sentia dor, mas que o pé estava queimando estava.
A fumaça escura vai
tomando conta do quarto, o homem vê seus membros inferiores se desfazendo em cinzas.
- Saiam daqui! E chamem os bombeiros! Cof! Cof! Você vão
desmaiar– Gritou Everton com sua voz rouca, desmaiando logo em seguida devido a
fumaça.
- Socorro! Socorro! - A mulher gritava ainda de camisola na
calçada – Chamem os bombeiros, meu marido tá pegando fogo!
Um homem vem correndo
do nada e entra na casa enfumaçada. Deixa uma sacola com pão e leite que trazia
da padaria caída no caminho.
Adentra a cozinha e
vê que a fumaça vem do andar de cima.
Pega um pote de vidro
em cima do armário e sobe correndo as escadas.
Entra no quarto sem
ver quase nada por conta da fumaça, a não ser pequenas chamas que ardiam em
cima do colchão queimado recoberto por cinzas.
- Vamos! Eu sei que você tá aí! Cof! Cof!
- Hahahaha vejam se não é Valdir Pereira!
- Eu mesmo! Cof! Cof!
- O que foi não agüenta uma fumacinha meu velho?
- Cof! Cof! Não, eu prefiro ar puro! – Diz Valdir Pereira
quase engasgando.
- Tudo bem, eu já acabei por aqui, fumei o tiozinho até o
talo!
- Como é que é? Cof! Cof!
- Eu disse que eu fumei o cidadão aí.
- Chega mais perto! Cof! Não to ouvindo! Cof! Cof!
- Desgraça... EU DISSE QUE...AAAAAA!
- Um diabo do fumo! – Disse Valdir Pereira rosqueando a
tampa do pote de vidro em suas mãos.
Toc! Toc! Um
capetinha feito de fumaça preta gritava dentro do vidro algo inaudível.
Provavelmente algo
como: “Maldito seja Valdir Pereira!”.
Com o pote em mãos,
Valdir Pereira desceu as escadas e foi para o quintal atrás de ar puro.
- Não há mais nada a fazer. Cof! Cof! Ele foi fumado.
- Fumado! Como?!
- Ele acumulou tanta nicotina e fumaça de cigarro dentro do corpo
que acabou atraindo uma coisa que eu chamo de diabo do fumo. É uma criatura que
costuma andar atrás dos ônibus e caminhões velhos para comer fumaça de
escapamento. E seu marido, creio eu, um fumante excessivo. É uma iguaria muito
apreciada por diabos do fumo.
- Meu marido fumou tanto que virou cigarro!?
- Tecnicamente sim, um cigarro humano.
- Aaaaaaaa! – A mulher abraçou as crianças aos prantos.
Valdir Pereira se
abaixou e pegou sua sacola com pão e leite no chão. Ao longe já dava para ouvir
a sirene dos bombeiros. Ele não podia fazer mais nada.
Nossa atmosfera
poluída é um banquete infinito para eles. E os fumantes são um aperitivo a
parte.
Quando não morrem antes.
Por isso eu não fumo,
pensou Valdir Pereira indo para casa tomar o seu café da manhã.
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