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domingo, 19 de abril de 2015

Um Valdir Pereira e um cigarro.

 Everton trabalha no banco, fez faculdade de economia, tem mulher, três filhos e um maço de cigarros no bolso.
 Começou a fumar lá pelos quinze anos de idade.
 Afinal quem não queria o glamour de segurar um cigarrinho entre os dedos, ou bancar o fodão olhando como cara de mau enquanto fala e acende o cigarro na boca.
 Irresistível não?
 Agora cá está ele com 35 anos, gerente de banco, nunca parou de fumar.
 No começo eram um ou dois cigarrinhos por dia, fumava socialmente como costumam dizer. Hoje dois maços ao dia é pouco. Acende um cigarro a cada quinze minutos se deixar.
 Acorda fuma. Toma café fuma. Entra no carro fuma. Antes de trabalhar fuma. Toma mais café, fuma. E por aí vai.
 Usa o estresse da profissão como desculpa para seu habito não saudável.
 Porém de uma semana para cá a coisa foi ficando cada dia pior.
 Acorda fuma. Fuma, toma café, fuma de novo. Mal termina um acende outro. A mulher está preocupada.
- Everton ce tá fumando demais, nem eu agüento mais esse fedo de cigarro dentro de casa, mais um pouco e chamam o bombeiro por causa de tanta fumaça.
 - Não enche mulher.
 E acende mais um.
 Seu supervisor no banco teve de intervir.
- Everton, você não trabalha mais cara. A cada dez minutos sai pra fumar. Assim eu vou ter que te afastar. Procura um médico cara.
 Everton fervia por dentro como água pra fazer café (e até essa metáfora deu-lhe vontade de fumar).
 Com sua respiração ofegante e voz rouca ele respondeu.
-Tá bom chefe. Tá bom. Cof! Cof!
 Se no trabalho estava ruim em casa ele ia de mal a pior, há dois meses não transava com a mulher. Faltava fôlego até para subir um lance de degraus quanto mais para praticar sexo. A mulher propôs que ele ficasse por baixo, mas na hora H seu amigo falhou. Estava mais mole que gelatina.
 Preocupado ele acendeu outro cigarro, depois mais um e mais um, não dormiu aquela noite. Lá pela seis da manhã cochilou um pouco.
 Acordou com a mulher em pânico e um cheiro de queimado no ar.
- Everton seu pá tá em brasa!
- Eita. Pega um balde da água rápido!
 As crianças vieram correndo ver o que estava acontecendo com o pai.
- Pai, pai!
- Não olha filho! Não olha!
 A mulher chega com um balde de água e chuaaa! Despeja em cima do pé em brasa.
 De nada adianta, um fumaceiro sobe e o pé continua em brasa, só que agora parecia queimar ainda mais rápido! Já começou a subir para canela e o pé já se desfaz feito cinza.
 O estranho é que Everton não sentia dor, mas que o pé estava queimando estava.
 A fumaça escura vai tomando conta do quarto, o homem vê seus membros inferiores se desfazendo em cinzas.
- Saiam daqui! E chamem os bombeiros! Cof! Cof! Você vão desmaiar– Gritou Everton com sua voz rouca, desmaiando logo em seguida devido a fumaça.
- Socorro! Socorro! - A mulher gritava ainda de camisola na calçada – Chamem os bombeiros, meu marido tá pegando fogo!
 Um homem vem correndo do nada e entra na casa enfumaçada. Deixa uma sacola com pão e leite que trazia da padaria caída no caminho.
 Adentra a cozinha e vê que a fumaça vem do andar de cima.
 Pega um pote de vidro em cima do armário e sobe correndo as escadas.
 Entra no quarto sem ver quase nada por conta da fumaça, a não ser pequenas chamas que ardiam em cima do colchão queimado recoberto por cinzas.
- Vamos! Eu sei que você tá aí! Cof! Cof!
- Hahahaha vejam se não é Valdir Pereira!
- Eu mesmo! Cof! Cof!
- O que foi não agüenta uma fumacinha meu velho?
- Cof! Cof! Não, eu prefiro ar puro! – Diz Valdir Pereira quase engasgando.
- Tudo bem, eu já acabei por aqui, fumei o tiozinho até o talo!
- Como é que é? Cof! Cof!
- Eu disse que eu fumei o cidadão aí.
- Chega mais perto! Cof! Não to ouvindo! Cof! Cof!
- Desgraça... EU DISSE QUE...AAAAAA!
- Um diabo do fumo! – Disse Valdir Pereira rosqueando a tampa do pote de vidro em suas mãos.
 Toc! Toc! Um capetinha feito de fumaça preta gritava dentro do vidro algo inaudível.
 Provavelmente algo como: “Maldito seja Valdir Pereira!”.
 Com o pote em mãos, Valdir Pereira desceu as escadas e foi para o quintal atrás de ar puro.
- Não há mais nada a fazer. Cof! Cof! Ele foi fumado.
- Fumado! Como?!
- Ele acumulou tanta nicotina e fumaça de cigarro dentro do corpo que acabou atraindo uma coisa que eu chamo de diabo do fumo. É uma criatura que costuma andar atrás dos ônibus e caminhões velhos para comer fumaça de escapamento. E seu marido, creio eu, um fumante excessivo. É uma iguaria muito apreciada por diabos do fumo.
- Meu marido fumou tanto que virou cigarro!?
- Tecnicamente sim, um cigarro humano.
- Aaaaaaaa! – A mulher abraçou as crianças aos prantos.
 Valdir Pereira se abaixou e pegou sua sacola com pão e leite no chão. Ao longe já dava para ouvir a sirene dos bombeiros. Ele não podia fazer mais nada.
 Em casa Valdir Pereira daria um fim ao diabo do fumo. Porém este era só um, sabe-se lá quantos mais existem a solta por aí.
 Nossa atmosfera poluída é um banquete infinito para eles. E os fumantes são um aperitivo a parte.
Quando não morrem antes.

 Por isso eu não fumo, pensou Valdir Pereira indo para casa tomar o seu café da manhã. 

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